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Roland Garros e a guerra na Ucrânia: com Andreeva e Kostyuk, conflito chegou à quadra

Jogadora russa avançou à final feminina ao bater a ucraniana, que dias antes viu um míssil atingir um prédio vizinho à casa de sua família, em Kiev

Roland Garros: quando a política entra na quadra (Dimitar DILKOFF / AFP)

Roland Garros: quando a política entra na quadra (Dimitar DILKOFF / AFP)

Lia Rizzo
Lia Rizzo

Editora ESG

Publicado em 4 de junho de 2026 às 16h49.

Última atualização em 5 de junho de 2026 às 09h47.

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Nesta quinta-feira, 4, em Paris, Mirra Andreeva se tornou a primeira finalista de Roland Garros 2026, aos 19 anos. É o ponto mais alto de uma carreira que mal começou. E seria uma bela história de superação esportiva, não fosse uma segunda linha em sua biografia: Mirra é russa, e foi sua nacionalidade, mais do que a raquete, que fez de sua vitória algo maior do que uma partida de tênis.

A jovem atleta, nascida na Sibéria, ditou o jogo do primeiro ao último ponto, em um confronto que durou pouco mais de uma hora. Bateu a ucraniana Marta Kostyuk por 6-1 e 6-3. Com o resultado, encerrou a invencibilidade da rival nesta temporada e garantiu vaga na primeira decisão de Grand Slam da carreira.

A vitória é coerente com a história recente da tenista e não surpreende quem acompanha o circuito. Em 2024, ainda aos 17 anos, Andreeva já havia alcançado a semifinal em Paris e antecipado o que viria pela frente.

Hoje, na oitava posição do ranking mundial, está a uma vitória do troféu que persegue desde criança.

O reflexo da guerra em plena quadra francesa

A ucraniana Marta Kostyuk à esquerda e a russa Mirra Andreeva à direita, antes do jogo começar. (JULIEN DE ROSA / AFP)

Não foi apenas o currículo precoce e a vitória, contudo, que garantiram as manchetes. O que a quadra francesa abrigou nesta quinta-feira foi também o eco de uma guerra.

Desde fevereiro de 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, o mundo acompanha o conflito pelos noticiários. Nesta tarde, de certa forma, ele se materializou diante das arquibancadas de Roland Garros, com uma russa de um lado da rede e uma ucraniana do outro.

Uma das vozes esportivas mais firmes contra a invasão russa na Ucrânia, Marta Kostyuk, de 23 anos, contou que um míssil atingiu um prédio a cerca de cem metros da casa de sua família em Kiev na semana da semifinal.

Em rodadas anteriores do torneio, dedicou cada vitória ao seu país e falou abertamente sobre os mortos que se somavam enquanto jogava. Representar a Ucrânia, disse, passou a importar mais do que qualquer resultado.

Silêncio, cobranças e a falta do aperto de mãos

Do outro lado da rede, questionada sobre o assunto antes de enfrentar a adversária, Andreeva repetiu que prefere “se concentrar apenas na bola que vem em sua direção, sem entrar em debates políticos”.

É uma postura que se mantém há tempos e que rende críticas das rivais. Desde 2022, ano em que a Ucrânia foi invadida, ela vive em Cannes, na França, e não na Rússia. O que, para as ucranianas, enfraquece a justificativa para o silêncio.

O “climão” escalou com a partida de hoje. Kostyuk não poupou as adversárias russas pelo silêncio. Lembrou que são todas adultas, com acesso às notícias e redes sociais, “que sabem o que está acontecendo”. Disse ainda não compreender como alguém consegue dormir tranquila diante disso e nada dizer.

A tensão entre as duas não nasceu nesta semifinal. No mês passado, em Madri, foi Kostyuk quem levou a melhor e conquistou o maior título da carreira. Não houve o cumprimento habitual ao fim daquela partida, gesto que as jogadoras ucranianas dispensam diante de russas desde o início da guerra. Em Paris, mais uma vez, o aperto de mãos também não veio.

Final inédita e novo pano de fundo geopolítico

Agora, na decisão marcada para sábado, 6, Andreeva enfrentará a polonesa Maja Chwalinska, de 24 anos, considerada a maior surpresa do torneio. Fora do top 100 no ranking, Chwalinska se tornou a primeira tenista a chegar à final de Roland Garros saída da fase classificatória, façanha que só a britânica Emma Raducanu havia realizado no US Open, em 2021.

Ambas as tenistas disputam o primeiro título de carreira em um Major, em uma final que ninguém arriscaria prever no início da competição.

A final coloca Andreeva novamente diante de mais um adversário que, fora das quadras, é também um rival simbólico na guerra. A Polônia é um dos países mais críticos a Moscou no continente e uma das principais bases de apoio a Kiev, o que dá à decisão um pano de fundo geopolítico.

Há ainda uma ironia no centro de toda a situação. No papel, Andreeva não joga pela Rússia, como as demais russas e bielorrussas que, desde 2022, competem sob estatuto neutro, sem bandeira e sem representar oficialmente país algum.

Foi a forma que o tênis encontrou de não tomar partido. Mas, rodada após rodada, este Roland Garros mostrou os limites desse esforço. Fora das quadras, segue um conflito que não se interrompe quando a partida acaba.

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