Esporte

Futebol inglês restringiu bets em 3 anos; cenário é possível no Brasil?

Com cerca de um terço das receitas comerciais da elite do futebol nacional vindas de contratos com bets — totalizando R$ 1,03 bilhão —, uma eventual proibição esbarra na falta de preparo imediato do caixa dos clubes e na divergência sobre modelos de transição gradual ou veto total.

Bets patrocinam 19 dos 20 clubes da Série A do Brasileirão. (Getty images) (Getty images/Getty Images)

Bets patrocinam 19 dos 20 clubes da Série A do Brasileirão. (Getty images) (Getty images/Getty Images)

Fernando Olivieri
Fernando Olivieri

Redator na Exame

Publicado em 6 de outubro de 2026 às 07h12.

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RESUMO | Enquanto a Premier League concluiu um período de transição de três anos para banir o patrocínio máster de casas de apostas em seus clubes, o Brasil debate o futuro do setor em meio à forte dependência financeira das equipes da Série A.


A discussão sobre o papel das casas de apostas no futebol ganha força em direções opostas pelo mundo. Enquanto a Premier League deu início à sua primeira temporada com o veto definitivo aos patrocínios máster de bets nas camisas de seus 20 clubes — resultado de uma decisão de autorregulação tomada pelas próprias equipes em abril de 2023 —, o Brasil debate o tema em meio a um cenário de forte dependência financeira e discussões lideradas pelo Legislativo e pelo Executivo.

Na Inglaterra, o prazo de três anos permitiu que a maioria dos clubes afetados (como Aston Villa, Bournemouth, Brentford, Crystal Palace, Everton, Fulham e Nottingham Forest) encontrasse marcas substitutas em outros setores, com exceção apenas do Sunderland. No entanto, o contexto brasileiro apresenta desafios estruturais e econômicos consideravelmente mais complexos.

O peso bilionário das bets no Brasileirão e os caminhos em debate

Diferentemente do modelo inglês, onde a iniciativa partiu de um acordo interno entre as equipes, qualquer movimento restritivo no Brasil aponta para uma imposição via poder público, contando com forte resistência dos clubes. A principal justificativa para a oposição reside no impacto imediato sobre o fluxo de caixa: as casas de apostas respondem por um terço de todas as receitas comerciais da elite do futebol brasileiro, injetando R$ 1,03 bilhão dos R$ 3,06 bilhões arrecadados em patrocínios pelos clubes da Série A.

Diante desse cenário de alta dependência, especialistas em gestão esportiva divergem sobre como — e se — uma transição seria viável. Uma das correntes avalia que, dadas a fragilidade financeira de grande parte dos principais clubes do país e a rápida inserção regulatória da indústria no mercado nacional, um corte abrupto causaria um rombo orçamentário insustentável a curto prazo.

Defensores dessa linha apontam que eventuais restrições exigiriam um processo construtivo e gradual de 18 a 36 meses, começando pela publicidade online e de TV antes de atingir os mantos dos clubes, permitindo que a indústria e as instituições se reorganizassem.

Por outro lado, há quem defenda uma proibição total e irrestrita do uso do esporte como plataforma para marcas associadas a produtos de risco, comparando o setor a restrições históricas aplicadas ao tabaco ou a restrições mais severas adotadas em países como a Espanha e a Alemanha. Sob essa ótica, embora o impacto financeiro inicial seja inevitável — com perdas estimadas de até 30% em receitas de patrocínio com base em experiências europeias —, o mercado tende a se autorregular com a entrada de marcas de outros segmentos, como varejo, saúde, instituições financeiras e tecnologia, substituindo gradualmente o capital vindo das apostas.

O fantasma da Medida Provisória: casas de apostas notificam clubes

A iminência de uma guinada regulatória brusca por parte do governo federal começou a gerar impactos diretos e imediatos nos bastidores financeiros dos principais clubes do futebol brasileiro. Diante dos acenos e do tom cada vez mais duro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em defesa da proibição ou de restrições severas ao setor, casas de apostas passaram a notificar extrajudicialmente equipes parceiras para alertar sobre a rescisão contratual caso uma Medida Provisória (MP) venha a banir os jogos online e as apostas esportivas no país.

A movimentação preventiva já atinge gigantes da Série A e expõe a fragilidade dos acordos de patrocínio máster diante da insegurança jurídica:

  • Superbet: A patrocinadora de São Paulo e Fluminense enviou notificações formais aos clubes alertando sobre a quebra dos vínculos na eventualidade de um veto oficial à atividade.
  • Esportes da Sorte: A empresa comunicou o Corinthians nos mesmos moldes. A diretoria alvinegra confirmou o recebimento do aviso, classificando-o como uma medida protocolar e natural, dado que a manutenção do acordo se torna inviável caso a exploração do mercado seja proibida por lei.
  • Betano: Dona do maior contrato de patrocínio do futebol brasileiro com o Flamengo, a empresa ainda não emitiu uma notificação documental oficial, mas conversou diretamente com a cúpula rubro-negra para detalhar os impactos. O contrato prevê cláusulas específicas para diferentes cenários, estabelecendo que a vedação total da atividade resulta em rescisão imediata.

O que a Premier League fez em relação às casas de apostas?

Os clubes ingleses aprovaram o veto ao patrocínio máster de bets nas camisas, concluindo um período de transição de três anos para que as equipes buscassem novos parceiros.

Qual é a situação das bets no futebol brasileiro?

O tema é debatido por meio de propostas legislativas e declarações do governo federal, enquanto os clubes resistem devido ao alto impacto financeiro.

Quanto os clubes da Série A arrecadam com casas de apostas?

O setor representa R$ 1,03 bilhão dos R$ 3,06 bilhões obtidos em receitas comerciais anuais pela elite do Brasileirão (cerca de um terço do total).

Os clubes brasileiros estão preparados para uma proibição imediata?

Especialistas apontam que, no atual cenário de endividamento e forte dependência dessas receitas, os clubes não estão preparados para lidar com um corte abrupto.

Quais alternativas poderiam substituir os patrocínios de apostas?

Caso ocorra uma restrição, analistas sugerem que marcas de setores como varejo, serviços financeiros, tecnologia e saúde poderiam cobrir progressivamente a lacuna deixada pelas empresas de apostas.

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