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Startup transforma resíduo do babaçu em proteína do futuro e gera renda para comunidades amazônicas

Com aporte do Fundo JBS pela Amazônia, biotecnologia eleva o teor proteico do babaçu em 4,5 vezes, impulsiona 62 mil extrativistas e mira mercado de US$ 88 bilhões

O babaçu é explorado há décadas no Maranhão, Piauí, Pará e Tocantins, mas a farinha do mesocarpo era descartada sem aproveitamento industrial (Divulgação/MIQCB)

O babaçu é explorado há décadas no Maranhão, Piauí, Pará e Tocantins, mas a farinha do mesocarpo era descartada sem aproveitamento industrial (Divulgação/MIQCB)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 24 de maio de 2026 às 16h30.

Última atualização em 24 de maio de 2026 às 19h02.

No Maranhão, mulheres conhecidas como quebradeiras de coco acordam cedo para colher e beneficiar o babaçu, em um ritual passado de mãe para filha por gerações.

O mesmo acontece no Piauí, no Pará e no Tocantins, onde cerca de 62 mil pessoas vivem do extrativismo do fruto amazônico.

Por décadas, boa parte do babaçu foi desperdiçada: o óleo da amêndoa tinha mercado, mas a farinha do mesocarpo que sobra do processo acabava indo parar no lixo. 

Agora, a startup brasileira BIOINFOOD quer mudar essa realidade e mira um mercado global estimado em US$ 88 bilhões, combinando inovação científica, impacto social e geração de renda para as comunidades da floresta.

Por meio de um aporte de R$ 2,7 milhões do Fundo JBS pela Amazônia, desenvolveu uma biotecnologia em parceria com o Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL) capaz de transformar esse resíduo em ingrediente proteico para hambúrgueres e outros produtos plant-based.

O processo multiplica por mais de quatro vezes o teor proteico da farinha (de 1,5% para cerca de 7%) e pode abrir uma nova frente de renda para as comunidades extrativistas da Amazônia.

Do biorreator ao prato

O processo desenvolvido pela startup envolve a seleção de cepas de levedura, hidrólise enzimática e fermentação em biorreatores automatizados.

As leveduras convertem os açúcares da farinha em biomassa proteica, sem necessidade de novos cultivos ou desmatamento. O resultado é um ingrediente com textura fibrosa e sabor equilibrado, com aplicação direta na indústria de alimentos.

A tecnologia já foi validada em escala laboratorial, e um protótipo de hambúrguer plant-based foi produzido e avaliado.

Recentemente, o projeto teve um momento simbólico: a degustação do produto por Cornelia Rodrigues, conhecida como "Nelinha do Babaçu", empreendedora maranhense e uma das vozes mais representativas das quebradeiras de coco no país.

"A tecnologia estimula o uso sustentável de espécies nativas, sem necessidade de desmatamento ou cultivo intensivo", afirma Osmar Netto, PhD, co-fundador da BIOINFOOD e líder do projeto.

Onde a ciência encontra a floresta

O projeto não nasceu só no laboratório. A empresa contou com o apoio da Rede Terra do Meio do Alto Xingú, no Pará, que forneceu amostras e recebeu a equipe em visitas às comunidades e reúne 35 organizações de povos indígenas, ribeirinhos e agricultores familiares, somando 9 milhões de hectares protegidos.

Apesar do potencial técnico da área disponível ser de 1,5 milhão de toneladas por ano, a produção atual do babaçu mal passa de 4% desse total. A subexploração da cadeia é, ao mesmo tempo, o desafio e a oportunidade que a tecnologia mira.

Para o Fundo JBS pela Amazônia, o InovAmazônia foi o maior projeto apoiado no eixo de pesquisa e desenvolvimento desde sua criação em 2020.

"A Amazônia tem oportunidades que ainda não foram aproveitadas e o projeto é um belo exemplo disso: ciência aplicada, ingrediente nacional e impacto real para quem vive da floresta", destaca Lucas de Oliveira Scarascia, Gerente Executivo de Projetos do Fundo.

Enquanto o mercado global de proteínas alternativas deve dar um "boom" na próxima década e crescer 14,3% ao ano, o setor no Brasil movimentou R$ 1,13 bilhão em 2024, alta de 14% sobre o ano anterior.

A demanda europeia e americana por ingredientes de origem sustentável, rastreável e com impacto socioambiental positivo cria uma janela real para uma indústria verde nacional.

Uma das grandes apostas do Brasil, a bioeconomia traz uma oportunidade bilionária de movimentar entre US$ 100 a US$ 140 bilhões (R$ 765 bilhões) por ano até 2032, segundo um estudo divulgado antes da COP30 em novembro de 2025.

Agora, a startup busca parceiros comerciais para a fase de escala piloto. A mesma plataforma de fermentação pode ser aplicada a outros coprodutos agroindustriais: farelo de trigo, milho e arroz, além de cascas de oleaginosas nativas como castanha-do-Brasil, macaúba e cupuaçu.

"O babaçu é um exemplo de como a parceria entre instituição pública de pesquisa e empresa inovadora pode encurtar o caminho entre o coproduto e o ingrediente industrial", diz Roseli Ferrari, Pesquisadora Científica e Diretora Técnica de Divisão do ITAL.

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