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Fórum Econômico Mundial: Trump impôs veto a discussões climáticas nas reuniões oficiais; ministra Marina Silva cancela ida à Suíça. (World Economic Forum/Jason Alden/Flickr)
Editora ESG
Publicado em 21 de janeiro de 2026 às 07h46.
Última atualização em 21 de janeiro de 2026 às 09h26.
Donald Trump chegou a Davos nesta semana à frente da maior delegação americana já vista na história do Fórum Econômico Mundial.
Sua presença, contudo, veio acompanhada de uma exigência que marca ruptura com as tradições do evento: a pauta climática deve ser excluída das reuniões bilaterais e compromissos oficiais dos quais participará. A informação foi obtida na semana passada pela EXAME junto a uma fonte do Itamaraty ouvida em off.
A imposição teve efeito imediato sobre a comitiva brasileira. A ministra Marina Silva, programada até então para participar do painel "How Can We Avert a Climate Recession" (em livre tradução, “Como podemos evitar uma recessão climática”) ao lado do ex-vice-presidente americano e ativista Al Gore e do ministro alemão do Meio Ambiente, Carsten Schneider, cancelou a viagem.
Oficialmente, a lesão na coluna que a afastou de atividades da pasta do Meio Ambiente desde o ano passado justifica a ausência de Marina. Extraoficialmente, porém, diplomatas reconhecem que o veto à discussão ambiental nos espaços decisórios esvaziou o sentido da participação.
"Ele [Trump] realmente colocou ali uma condição de não tratar de clima", resume a fonte do Itamaraty sobre as exigências do presidente americano.
Assm, outra importante figura, o embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, também desistiu de ir à Suíça, embora seu plano inicial incluisse comparecer acompanhado de uma pequena equipe que planejava dar continuidade a agendas pendentes da Conferência de Belém.
Trump esteve no Fórum pela primeira vez em 2018, durante seu primeiro mandato, num encontro marcado pelo choque entre sua agenda protecionista e o discurso globalista tradicional do evento - época de sua famosa agenda "América First".
No ano passado, esperando sua presença após a posse do segundo mandato, o WEF chegou a adiar a programação em uma semana. Trump participou apenas virtualmente. E usou a ocasião para, entre outras coisas, anunciar a retirada americana do Acordo de Paris.
Agora, programado para falar presencialmente nesta edição exatamente um ano após se tornar presidente novamente, nesta quarta-feira 21, influencia diretamente transformações que vão bem além de sua presença física.
A começar pelo abandono do slogan tradicional do Fórum, "Committed to Improving the State of the World", substituído por um genérico "A Spirit of Dialogue".
Nos documentos oficiais, desapareceram termos como "sustentabilidade", "transição energética" e "justiça social", expressões e palavras que ao longo das décadas estiveram cada vez mais presente nos discursos de Davos.
Aqui, claro, vale o disclaimer: mudanças mais amplas na liderança de Davos acompanham essa guinada retórica. Klaus Schwab, que criou o evento em 1971, saiu em agosto de 2025 em meio a acusações de má administração financeira e denúncias de tratamento inadequado a funcionárias.
O comando interino, então, ficou a cargo de Larry Fink, da BlackRock, gestora que controla mais ativos do que qualquer outra empresa no planeta.
Fink construiu sua reputação pregando o chamado "capitalismo de stakeholders", que defende que corporações exerçam responsabilidades para além dos acionistas, incluindo trabalhadores, comunidades locais e o meio ambiente.
No entanto, sob pressão de governos produtores de petróleo, essa bandeira foi sendo discretamente abandonada. E uma doação de US$ 2,5 milhões da BlackRock para o salão de festas da Casa Branca selou a aproximação com Trump
Em seu primeiro pronunciamento como líder do WEF, o executivo evitou qualquer menção a clima ou energia limpa. "Compreender diferentes perspectivas é essencial para impulsionar o progresso econômico", declarou na ocasião.
Na semana que antecedeu Davos, seu tradicional Global Risk Report 2026 trouxe dados que expõe uma distorção reveladora.
Consultados sobre ameaças globais, 1.300 especialistas rebaixaram drasticamente os riscos ambientais na perspectiva de curto prazo. Mas os mantiveram no topo da lista quando olham para a próxima década.
Eventos climáticos extremos, que ocupavam a segunda posição entre ameaças imediatas no ano passado, caíram para quarto lugar - ainda que 2025 tenha sido considerado o terceiro ano mais quente da história, comparado a níveis pré industriais. O que resultou, conforme avaliações do World Weather Attribution (WWA), em eventos cada vez mais extremos em todo o mundo.
Poluição desceu de sexto para nono lugar. Mudanças críticas nos sistemas terrestres e perda de biodiversidade registraram quedas ainda mais acentuadas. Baixaram sete e cinco posições, respectivamente.
Pesquisadores ouvidos por EXAME são unânimes em afirmar que o movimento ilustra a clara repriorizacão política em escala global.
Isso significa, no horizonte imediato, que o confronto geoeconômico assume isoladamente o topo das preocupações, reflexo da crescente multipolaridade, protecionismo e colapso de mecanismos multilaterais.
E riscos econômicos, coletivamente, apresentaram as maiores altas. Entre os quais, recessão e inflação subiram oito posições cada; estouro de bolhas de ativos avançou sete.
Porém, a fotografia muda radicalmente para os mesmos especialistas entrevistados para o report, quando foca em 2036. Eventos climáticos extremos retornam à primeira posição, seguidos por perda de biodiversidade e colapso de ecossistemas.
Mudanças críticas nos sistemas terrestres ocupam o terceiro lugar. Escassez de recursos naturais aparece em sexto; poluição em décimo. E os confrontos geoeconômicos, que dominam as preocupações atuais, despencam para a 19ª colocação.
O relatório também captou o pessimismo crescente entre líderes globais. Metade dos respondentes acredita em um cenário "turbulento" ou "tempestuoso" para os próximos dois anos; um percentual que sobe para 57% na década seguinte.
"As questões ambientais estão sendo repriorizadas porque segurança nacional - incluindo energética - virou o novo motor das políticas de governo", aponta o documento.
A ausência de Marina Silva e André Corrêa do Lago em Davos sinaliza mais do que um cancelamento de agenda. Representa o reconhecimento de que, pela primeira vez em décadas, a pauta climática foi formalmente excluída dos espaços onde decisões globais são tomadas.
Com o tema banido dos corredores onde circulam chefes de Estado e CEOs de instituições financeiras e multinacionais, a expectativa dos defensores da agenda ambiental recai sobre a programação paralela, visto que os painéis abertos, estão menos sujeitos às pressões geopolíticas.
No ano passado, cientistas como o sueco Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre Impacto Climático, a oceanógrafa americana Sylvia Earle, exploradora da National Geographic, e o brasileiro Carlos Nobre, copresidente do Painel Científico da Amazônia, marcaram presença em sessões disputadas.
A organização do Fórum mantém, nesta edição, sessões como "Can EVs Really Dominate?" (em livre tradução, "Veículos elétricos podem realmente dominar?"). Mas temas como inteligência artificial e criptomoedas cresceram em destaque nos horários nobres e salas principais.
O contraste é simbólico e também político. Enquanto a ciência climática é empurrada para as margens, tecnologias que interessam aos bilionários da nova economia, muitos deles doadores de Trump, ocupam o centro do palco.
Carlos Nobre, que participou de uma conversa na Brazil House, mas neste ano não teve sucesso ao tentar garantir o "white badge", crachá oficial para o acesso mais exclusivo em Davos, avalia que a mudança de postura do Fórum reflete movimento mais amplo.
"Isso se torna essencial agora porque o super negacionista quer destruir toda a energia renovável do planeta", disse em entrevista para EXAME, referindo-se a Trump. "Não só a dele. Ele quer destruir a do mundo."