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Roteiro para zerar o desmatamento: uma plataforma global para florestas

Entrega da Presidência brasileira da COP30 é oportunidade para alavancar a agenda de florestas, apostas inteligentes para mitigação e adaptação climática

O governo brasileiro se comprometeu internacionalmente a restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030 (Ricardo Lima/Getty Images)

O governo brasileiro se comprometeu internacionalmente a restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030 (Ricardo Lima/Getty Images)

Da Redação
Da Redação

Redação Exame

Publicado em 23 de março de 2026 às 12h30.

Última atualização em 23 de março de 2026 às 12h33.

*Por Ilona Szabó, Laura Trajber Waisbich e Giovanna Kuele

O mês de março marcará uma oportunidade única para que a presidência brasileira da COP30 receba propostas de outros governos e da sociedade civil para avançar em Mapas do Caminho Globais que acelerem a implementação do Acordo de Paris, passando da retórica e dos compromissos à ação.

Os resultados dessa participação serão levados em consideração para que ao longo de 2026 sejam entregues dois roteiros globais: um para a transição energética, para longe dos combustíveis fósseis, e o outro para florestas e uso da terra, zerando o desmatamento. Ambos os roteiros são necessários para impedir que o aquecimento global ultrapasse 1,5°C.

Mais do que relatórios, esses documentos se propõem a serem práticos, aplicados e “implementáveis”. São instrumentos voltados ao fomento da ação nacional e da cooperação internacional em um contexto em que o multilateralismo busca se reinventar.

Nos últimos anos, o Brasil liderou a construção de dois deles: um no G20 sobre reforma de Bancos Multilaterais de Desenvolvimento (em 2024), e outro na Conferência do Clima sobre financiamento climático (em 2025).

Elaborá-los ao longo de 2026, ano eleitoral e repleto de turbulências no cenário internacional é desafiador, mas também uma oportunidade para posicionar a transição energética e a conservação de florestas como esforços sinérgicos, integrados e indispensáveis para impedir o aprofundamento da crise do aquecimento global e do colapso dos ecossistema, tanto no aqui como ao redor do mundo.

O Brasil, produtor e exportador de petróleo, mas também detentor de uma das maiores áreas florestais do planeta, tem uma janela única para liderar os esforços de construção destes dois documentos, e em particular daquele voltado para zerar o desmatamento e a degradação florestal.

Está nas mãos do governo federal a oportunidade de construir um roteiro que consolide o papel estratégico das florestas tropicais, temperadas e boreais na solução de grandes desafios planetários da atualidade.

Florestas são apostas inteligentes e eficazes para mitigação e adaptação climática, pilares da preservação da biodiversidade, alicerces do desenvolvimento sustentável inclusivo e, garantidores da segurança climática, hídrica, energética e alimentar em escala global. Florestas em pé também são um ativo econômico.

Segundo o IBGE, florestas naturais ou plantadas geraram produção econômica de R$ 44,3 bilhões em 2024. Embora em tendência de alta, trata-se de um potencial ainda subexplorado, sobretudo, quando combinado com o potencial econômico do reflorestamento e da regeneração.

O governo se comprometeu internacionalmente a restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030 e tem investido em um conjunto de políticas e instrumentos para esse fim. No entanto, é preciso mais.

Em recente publicação, que trata justamente sobre o esforço de construir um roteiro global para alcançar o desmatamento zero e promover economias compatíveis com a floresta em pé, o Instituto Igarapé aponta para caminhos aonde o futuro texto se torne uma “Plataforma para Florestas”.

Tal esforço requer, portanto, alinhar instrumentos e iniciativas internacionais, hoje dispersos, estabelecendo pontes com distintos regimes multilaterais: das Convenções do Rio ao desenvolvimento sustentável, passando por comércio e investimento, saúde e direitos humanos.

O sucesso do documento e, portanto, seu impacto, poder de convocatória e de mobilização, reside em sua clareza narrativa-argumentativa e operativa. Na retórica, o documento precisa ser tecnicamente robusto e politicamente ambicioso, não tergiversando ao indicar o caminho para zerar desmatamento.

Caminho esse que passa por transformar exploração predatória e ilegalidade em desenvolvimento sustentável com arcabouços legais e instituições de fiscalização avançadas tecnologicamente e incentivos para gerar mudanças econômicas sistêmicas em atores públicos e privados.

Já no âmbito operacional, o Mapa deverá apoiar países a planejar e alcançar metas nacionais de desmatamento zero, respeitando a soberania e a autonomia nacionais.

Como evidenciado na experiência brasileira, avançar na descarbonização e no planejamento econômico em setores associados ao uso da terra exige esforços em três grandes áreas: enfrentamento do desmatamento e do crime ambiental a ele associado, promoção da restauração florestal, e investimento em agricultura de baixo carbono e regenerativa.

O sucesso de tal empreitada depende de instrumentos financeiros que apoiem iniciativas de alta-integridade.

Dado o acúmulo já existente, tanto aqui como em outros países de florestas, o futuro Mapa do Caminho buscará dar visibilidade a soluções nacionais bem-sucedidas, promovendo cooperação internacional e mobilização contínua multinível e multiator.

Para cumprir com sua função de plataforma, a própria elaboração do documento passa a ser parte importante desse mutirão, com consultas inclusivas e voltadas junto a distintos atores governamentais, não governamentais, do setor privado e especialistas.

Para além da mobilização internacional, o processo de construção deste documento pode e deve gerar processos de planejamento doméstico em países de florestas, visando a elaboração de metas e roteiros nacionais.

De fato, o Brasil tem experiência doméstica e diplomática para liderar a construção deste roteiro global. Há décadas, o país é modelo de inovação em política pública e diálogo intersetorial, além de fonte de insumos práticos acerca de desafios e soluções, incluindo instrumentos como o Código Florestal, o Cadastro Ambiental Rural, os Planos de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento, e inúmeros programas de fomento da bioeconomia, entre outros.

O equilíbrio entre ambição e pragmatismo em um documento desta natureza e a sua elaboração servem ao objetivo de acelerar a implementação de compromissos já assumidos globalmente para zerar o desmatamento com legitimidade, autoridade, capacidade e histórico. E isso, poucos países têm. Estejamos à altura deste desafio.

*Ilona Szabó é presidente do Instituto Igarapé, Giovanna Kuele é Gerente de Programa Cooperação Internacional e Laura Trajber Waisbich é Diretora Adjunta de Pesquisa

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