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Preservação da Amazônia depende de recursos globais e cooperação internacional

Trilha no Museu Goeldi usa totens interativos para aproximar o público da ciência amazônica e mostrar como dados, pesquisa local e conservação podem orientar a bioeconomia

Cada parada da Trilha BRC reúne QR Codes, vídeos e conteúdos sobre pesquisas desenvolvidas na Amazônia, transformando o passeio pelo Museu Goeldi em uma experiência de divulgação científica (Carmen Fukunari/Exame)

Cada parada da Trilha BRC reúne QR Codes, vídeos e conteúdos sobre pesquisas desenvolvidas na Amazônia, transformando o passeio pelo Museu Goeldi em uma experiência de divulgação científica (Carmen Fukunari/Exame)

Amazônia Vox
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Publicado em 6 de julho de 2026 às 18h00.

*Texto de Natália Mello. Edição de Alice Martins Morais. 

O futuro da maior floresta tropical do mundo passa, obrigatoriamente, pela ciência que vive no chão da Amazônia, seja ela feita nos centros de pesquisa ou no território, pelas comunidades tradicionais.

Como parte das mais de 70 atividades autogestionadas da II Semana do Clima da Amazônia, a Trilha BRC (Caminho da Biodiversidade) transformou o Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi em uma vitrine de tecnologia e preservação.

Por meio de 13 totens interativos com QR Codes, cada um direcionando para um vídeo curto de até um minuto, o público descobre que as respostas para a bioeconomia global também estão nos projetos desenvolvidos pelo espaço e por diversas instituições de pesquisa.

A iniciativa colaborativa dá continuidade aos debates da COP30, realizada em Belém no ano passado, funcionando como uma coalizão multissetorial que traduz compromissos globais em ações práticas no território.

Organizada pelo Consórcio de Pesquisa em Biodiversidade Brasil–Noruega (BRC) e pelo Instituto Peabiru, em parceria com o Museu Goeldi, a trilha foi desenhada para transformar o passeio público em uma imersão científica.

Ao entrarem no parque, os visitantes recebem um folder com o mapa das 13 estações, distribuídas entre recintos de animais, lagos e pontos de flora nativa. O público infantil ganha um "passaporte" especial com desenhos para colorir e espaços para adesivos colecionáveis, entregues em cada etapa do circuito.

Marlúcia Martins, ecóloga e coordenadora de Pesquisa e Pós-Graduação do Museu Goeldi, ressalta que a experiência é uma oportunidade crucial para comunicar a ciência à sociedade e aumentar a empatia das pessoas em relação ao funcionamento da floresta.

"O que poderia ser um passeio exclusivamente de lazer no parque passa a incluir o adicional de chamar a atenção para aspectos da biodiversidade e para o aproveitamento das lições aprendidas durante as pesquisas."

Para a pesquisadora, a valorização da biodiversidade só vai acontecer a partir do conhecimento.

Ao fazer uma trilha como essa, a intenção é chamar a atenção para as relações interespecíficas, para os animais e para as plantas.

"Você aumenta a empatia das pessoas em relação à floresta e ao seu funcionamento. O objetivo é criar essa relação com a natureza, mostrando como ela funciona, como a vida que está ali interage, enxergando para além de simplesmente uma paisagem estática", conclui.

Ciência de dados monitora espécies ameaçadas na floresta

A professora dra. Ana Cristina Mendes de Oliveira, pesquisadora da Universidade Federal do Pará (UFPA), desenvolve um projeto de monitoramento da dinâmica populacional de onças em Paragominas, financiado pelo Consórcio de Pesquisa em Biodiversidade Brasil-Noruega (BRC).

Ela explica que a maturidade da iniciativa, que já acumula sete anos de coleta de dados em Paragominas, permitiu à ciência ir muito além de uma simples listagem de animais.

"Através desse projeto com armadilhas fotográficas (camera traps), nós conseguimos não só fazer o levantamento da lista de espécies que existem na área e identificar os animais ameaçados ou criticamente ameaçados, mas fomos além. Como o projeto já tem muito tempo de execução, estamos conseguindo realizar trabalhos profundos de dinâmica populacional", explica.

Com o acompanhamento contínuo desses felinos na região, a professora conta que conseguiram entender exatamente por onde as onças estão andando e quantas são.

"A partir da identificação individual de cada uma, conseguimos levantar o registro de 24 indivíduos de onça utilizando aquela área."

Esse volume robusto de dados históricos serve como base essencial para formar novos pesquisadores na própria região, permitindo que estudantes de graduação investiguem recortes específicos da fauna local.

Mayssy Oliveira, de 24 anos, graduanda em Licenciatura em Ciências Biológicas pela UFPA e aluna de Iniciação Científica (Pibic) sob orientação da professora Ana Cristina, atua diretamente no Laboratório de Ecologia e Zoologia de Vertebrados da instituição e detalha o foco do seu estudo:

"No meu trabalho de iniciação científica, nós estamos investigando a ocorrência de pequenos e médios felinos, como a jaguatirica, o gato-maracajá e o jaguarundi, utilizando esses dados consolidados que vêm da área da empresa Hydro, em Paragominas. Buscamos entender como esses animais dividem o território e interagem entre si. Queremos descobrir, por exemplo, se a jaguatirica, por ser o maior deles e atuar como um mesopredador (um predador de médio porte), está influenciando ou inibindo a ocorrência e os hábitos dos felinos menores."

Articulação estratégica para a conservação

Para que essa engrenagem entre grandes universidades, estudantes locais e a aplicação prática na indústria funcione, a coordenação institucional é peça-chave.

Flora Bittencourt, pesquisadora do Instituto Peabiru e secretária executiva do BRC, ressalta a importância de descentralizar os recursos globais para fortalecer quem estuda a floresta de perto:

"O Consórcio de Pesquisa em Biodiversidade Brasil-Noruega cumpre um papel fundamental ao conectar a pesquisa acadêmica de excelência com as demandas reais de conservação no território."

Flora, que é bióloga, mestre em Ecologia e doutora em Genética Molecular, afirma que financiar pesquisas locais é uma estratégia para fortalecer a conservação da Amazônia.

Flora Bittencourt, pesquisadora do Instituto Peabiru e secretária executiva do BRC

"Financiar esses projetos significa dar autonomia para que cientistas da região desenvolvam soluções sob medida para a Amazônia, garantindo monitoramento de longo prazo e gerando dados que fundamentam políticas públicas e práticas empresariais responsáveis", conclui.

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