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O que está acontecendo com a indústria solar da China?

Por décadas, a indústria fotovoltaica chinesa foi uma história de sucesso quase ininterrupto, mas em 2026 esse capítulo chegou a um ponto de inflexão

Vista aérea de usina de energia solar na província de Hainan, na China. (Adobe Stock)

Vista aérea de usina de energia solar na província de Hainan, na China. (Adobe Stock)

Rafael Kelman
Rafael Kelman

Colunista

Publicado em 12 de agosto de 2026 às 16h00.

A China fabrica mais de 80% dos painéis solares do mundo. Suas fábricas respondem por uma capacidade instalada superior a 1.000 gigawatts (GW) por ano – número que supera os 600 GW instalados globalmente em 2024 e que, segundo analistas da BloombergNEF, pode exceder em muito o que o mercado mundial será capaz de absorver.

A indústria solar da China vivencia em 2026 uma crise explicada por alguns fatores. O primeiro é a saturação doméstica. O principal mercado para os painéis sempre foi a própria China, mas o alto ritmo de instalações nos últimos anos ultrapassou a capacidade das redes elétricas de absorver a energia gerada. Há excesso de produção no período diurno e escassez à noite. Sem baterias suficientes e nem linhas de transmissão de longa distância para redistribuir a energia, o desperdício dispara. O curtailment da geração solar chinesa já atinge 10% em 2026.

Esse gargalo torna difícil justificar novas instalações. Projeções da China Photovoltaic Industry Association (CPIA) indicam que as adições de capacidade solar na China em 2026 podem recuar entre 24% e 43% em relação a 2025. Se confirmado, seria o primeiro declínio na demanda por painéis em sete anos.

O segundo fator é o excesso de oferta. Anos de investimento frenético em fábricas deixaram as empresas com capacidade produtiva muito superior à demanda doméstica ou mesmo internacional. O resultado foi uma guerra de preços devastadora. Mais de 40 empresas solares chinesas foram à falência, foram adquiridas ou saíram das bolsas desde então. As ações de gigantes como LONGi Green Energy Technology, Tongwei, Jinko Solar e Trina Solar negociam a menos da metade de seus picos de alguns anos atrás.

O terceiro problema é geopolítico. Os painéis solares baratos da China tornaram-se vítimas de seu próprio sucesso. Desde 2022, os Estados Unidos impuseram restrições rígidas às importações, acompanhadas de tarifas pesadas sobre os volumes que conseguem entrar. A União Europeia anunciou, em maio de 2026, que excluirá fornecedores chineses de inversores em projetos financiados pelo bloco. A Índia e outros vizinhos também ergueram barreiras. Enquanto a guerra americana no Golfo aqueceu a demanda por energia alternativa no Sudeste Asiático e na África, esses mercados são modestos demais para compensar as perdas nos grandes mercados ocidentais.

Durante anos, o governo chinês bancou a expansão solar com subsídios generosos: terrenos baratos, empréstimos sem juros e tarifas garantidas. Esse modelo vem sendo desmantelado. Desde junho de 2025, novos projetos solares precisam vender energia a preços de mercado, sem as garantias anteriores. Em março houve uma corrida entre os fabricantes de painéis solares pelo aumento de suas exportações para aproveitar os últimos dias de restituição fiscal. Alguns governos municipais passaram a exigir a devolução de subsídios já pagos, preferindo ver empresas insolventes fecharem a continuar sustentando perdas.

O setor caminha para uma consolidação significativa. Analistas da S&P Global apontam que os preços dos painéis subiram levemente nos últimos meses, porém ainda ficam abaixo do custo médio de produção. Enquanto as margens não se recuperarem de forma sustentável, a sangria de empresas deve continuar.

A saída de longo prazo pode vir de dois caminhos. Com a abertura comercial, os grandes mercados ocidentais poderiam reduzir suas barreiras, o que poderia aliviar o excesso de oferta. Além disso, atualmente os painéis solares convencionais convertem entre 22% e 24% da luz solar em eletricidade. Uma nova geração de células à base de perovskita deve elevar essa taxa para acima de 30%, com potencial de ser produzida a custo menor.

O paradoxo da indústria solar chinesa é que ela foi eficiente demais, cresceu rápido demais e exportou barato demais e isso acabou não sendo sustentável.

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