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Manaus sob fumaça: qualidade do ar foi classificada como péssima pelo Selva, muito acima do limite recomendado pela OMS (Raphael Alves/Agencia Enquadrar)
Repórter de ESG
Publicado em 25 de setembro de 2026 às 08h00.
Última atualização em 3 de outubro de 2026 às 18h28.
A cidade que deveria ter o ar mais puro do planeta levou nos últimos dias o título de mais poluída. Manaus amanheceu pela sétima vez em setembro coberta por fumaça, enquanto o fogo avança por quilômetros de floresta amazônica.
Cientistas já vinham avisando: a combinação de calor extremo e fumaça sobre a região é um dos primeiros sinais visíveis do El Niño em curso, fenômeno climático que tem 90% de chance de se tornar "muito forte" e deve durar até janeiro e que age em conjunto com o aquecimento global em curso.
As queimadas, por sua vez, raramente têm origem natural: a maioria dos focos está ligada a ações humanas, como desmatamento e uso do fogo para expansão agropecuária, ativiade que se torna ainda mais perigosa em anos de seca severa, quando o fogo espalha mais rapidamente.
A atualização mais recente da Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência da ONU, reforça o alerta: o El Niño deve se intensificar nos próximos meses e ampliar os riscos de eventos extremos como secas, enchentes e ondas de calor e probabilidade próxima de 100% de persistir por vários meses.
Na quarta-feira, 23, uma análise da Amazônia Real mostrou que o índice de poluição do ar da capital amazonense ultrapassou o de Kinshasa, na República Democrática do Congo, até então a cidade com o título de mais poluída do mundo, segundo o ranking do IQAir. "Manaus está sufocada", reagiram usuários nas redes sociais.
Além disso, o Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas, registrou índice de 324,1 µg/m³ — mais de 20 vezes o limite considerado seguro pela Organização Mundial da Saúde (0MS) para exposição de 24 horas, de 15 µg/m³.
No Distrito Industrial I, um dos bairros mais afetados, a marca chegou a 188,5 µg/m³, classificada como "péssima".
A fumaça branca que cobre a cidade carrega partículas finas (MP2,5) e inaláveis (MP10), monóxido de carbono e carbono negro, poluentes ligados a doenças respiratórias e cardiovasculares.
Agentes de saúde do município já relatam aumento na procura por atendimento por inalação. Nas redes sociais, a ex-BBB Isabelle Nogueira chamou a situação de "triste" e "revoltante", ao mostrar imagens da cidade encoberta.
"Estão esperando pessoas morrerem para dar atenção ao Amazonas?", escreveu.
O cenário é puxado pelo avanço acelerado das queimadas. Segundo o Inpe, o Amazonas já registrou 3.240 focos de calor só em setembro, e o acumulado do ano chega a 5,7 mil. A alta representa 85% a mais que todo o registrado em 2025.
Autazes e Manacapuru, na região metropolitana de Manaus, e Apuí, Lábrea, Manicoré e Novo Aripuanã, no sul do estado, concentram os maiores índices. Amazonas e Pará, juntos, responderam por metade dos focos de queimada do país nesta semana.
++ Leia mais: El Niño: Manaus usa drones, monitora qualidade do ar e combate queimadas em prevenção
Ao calor da fumaça se soma o calor de verdade: na terça-feira, 22, Manaus bateu o recorde de temperatura do ano, com 38,6°C e sensação térmica acima de 40°C, segundo o Inmet.
O temor entre especialistas é que a região viva de novo cenário semelhante ao de 2024, quando uma das piores estiagens já registradas no Norte, puxada por um El Niño persistente somado ao aquecimento das águas do Atlântico Norte, afetou pelo menos 186 mil famílias no Amazonas.
A Prefeitura de Manaus disse em nota que monitora a qualidade do ar e mantém ações de prevenção, fiscalização e monitoramento por meio do Comitê de Prevenção às Queimadas. As aulas não foram suspensas, mas as escolas foram orientadas a adotar medidas preventivas.