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Os ministros João Paulo Capobianco e Katie White na formalização do aporte britânico ao TFFF, em Nova York. (Fernando Donasci)
Editora ESG
Publicado em 23 de setembro de 2026 às 14h32.
Última atualização em 23 de setembro de 2026 às 14h36.
Nova York - O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), idealizado pelo Brasil para remunerar países que mantêm suas florestas em pé, ganhou nesta quarta-feira, 23, um reforço que o governo brasileiro esperava desde a COP30.
O Reino Unido formalizou, durante a Semana do Clima de Nova York, o investimento de 400 milhões de libras (cerca de US$ 540 milhões) no mecanismo.
Com o aporte, os compromissos somam aproximadamente US$ 7,3 bilhões, perto de três quartos da meta de US$ 10 bilhões que o governo quer garantir até dezembro.
O anúncio ocorreu exatamente um ano depois de o presidente Lula apresentar, na ONU, o aporte brasileiro de US$ 1 bilhão ao fundo.
A intenção de investir já havia sido antecipada pelo governo britânico no início de setembro. Além da formalização, a novidade desta quarta, 23, é o sinal de que Londres pode ir além: em carta a Brasil e Noruega, o Reino Unido indicou que vai avaliar uma nova contribuição no futuro
O movimento britânico agora também tem peso político. O Reino Unido participou do desenho do TFFF desde o início, mas, em Belém, decidiu não contribuir, o que gerou críticas justamente por ter ajudado a desenhar o fundo.
Na época, o governo do então premiê Keir Starmer estava sob pressão para equilibrar as contas públicas.
Segundo o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, que conversou com a EXAME após a solenidade que formalizou o apoio, Londres comunicou a decisão ao Brasil com antecedência, mas preferiu anunciá-la em Nova York.
O aporte virá como empréstimo, e não como doação, em linha com o modelo do fundo, baseado em investimento.
O governo britânico condicionou o recurso à finalização da governança e dos arranjos operacionais do TFFF e à sua própria due diligence.
Segundo Garo Batmanian, diretor do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), que acompanhou Capobianco na entrevista para EXAME, essa etapa já foi superada. "As condicionantes do Reino Unido já foram atendidas. Por isso estamos fazendo o evento hoje", afirmou.
A solenidade reuniu, além de Capobianco, a ministra do Clima do Reino Unido, Katie White; Sigrun Aasland, ministra do Clima e Meio Ambiente da Noruega; Vickram Bharrat, ministro de Terras e Recursos Naturais da Guiana; e Juan Carlos Jintiach, secretário executivo da Aliança Global de Comunidades Territoriais.
Em seu discurso, White usou a experiência doméstica para justificar a decisão britânica. A britânica lembrou como o último verão foi o mais quente da história do país, com meses de ondas de calor, secas e incêndios.
Ilustrou a situação contando o caso de uma agricultora que, em 40 anos no campo, sempre comemorou o fim do inverno. Neste ano, pela primeira vez, comemorou o fim do verão. "O povo britânico está preocupado e não vai nos perdoar se falharmos", afirmou a ministra
A ministra ainda ponderou sobre como a conta do desmatamento chega ao bolso do consumidor, via preço de alimentos e de produtos do dia a dia.
E além dos 400 milhões de libras ao TFFF, lembrou que o Reino Unido já mobilizou mais de 1 bilhão de libras em capital privado para florestas, por meio de iniciativas como o programa Partnerships for Forests e a coalizão LEAF.
Por fim, alertou: "Esta é a última chance de ganhar impulso antes da COP31", disse. "E as florestas correm o risco de ficar em segundo plano numa agenda dominada pela geopolítica", completou.
O TFFF funciona como um fundo de investimento: o capital de governos e filantropias é aplicado no mercado, e o retorno financia pagamentos anuais a países que preservam florestas. Portanto, difere de fundos típicos de doação internacional.
Entender o desenho explica, entre outros aspectos, por que o governo brasileiro evita citar se há mais países em negociação.
"Como é investimento, precisa de aprovação no orçamento, no Parlamento de cada país. Leva tempo criar uma arquitetura com a qual eles se sintam confortáveis", afirmou Batmanian. "Mas temos boas negociações a caminho e estamos trabalhando para antecipar anúncios", disse Capobianco.
Há uma boa razão para pressa em divulgar novas adesões. Copresidente do TFFF ao lado do Brasil, a Noruega é também a maior investidora do fundo: em Belém, anunciou cerca de US$ 3 bilhões, a serem aportados em dez anos, no lançamento do mecanismo.
O dinheiro, porém, veio com condição. Só será liberado se o fundo alcançar a meta de US$ 10 bilhões até o fim de 2026. Se isso não acontecer, o TFFF pode perder seu maior aporte.
"Outros países estão considerando contribuições e estamos conversando com muitos deles aqui em Nova York nesta semana", disse a ministra Sigrun Aasland em sua fala durante a solenidade. "Estou confiante de que, juntos, podemos atingir a meta de US$ 10 bilhões."
A norueguesa lembrou como o TFFF, uma iniciativa nascida no Sul Global que reúne países de todas as regiões, é uma amostra de que o multilateralismo ainda funciona num momento em que está sob pressão.
E citou uma análise britânica, divulgada neste ano, que classificou a perda de florestas e biodiversidade como ameaça à segurança nacional.
A meta de US$ 10 bilhões é só o primeiro degrau. O objetivo total é de US$ 125 bilhões, dos quais US$ 25 bilhões de governos e instituições públicas. O restante deve vir do setor privado.
Segundo dados do MMA e do Inpe divulgados em fevereiro, a Amazônia Legal teve em 2025 a menor taxa de desmatamento em 11 anos, com 5.796 km² derrubados, metade do registrado em 2022.
A tendência se aprofundou. Entre agosto de 2025 e julho de 2026, os alertas do Deter somaram 2.874 km², uma queda de 36,87% e o menor valor desde o início da série, em 2016.
A taxa oficial do Prodes, sistema do Inpe que mede o desmatamento anual por satélite, costuma ser divulgada em novembro. A projeção do Observatório do Clima é que seja a menor desde 1988, abaixo do recorde de 2012. O calendário coincide com a COP31, na Turquia.
Com as eleições de outubro no horizonte, a EXAME perguntou ao ministro se uma eventual mudança de rumo político no Brasil ameaçaria o fundo. Capobianco respondeu que o TFFF deixou de ser um projeto brasileiro e é reconhecido como um mecanismo internacional, construído por países tropicais e investidores.
Assim, por pagar a partir do resultado, e não por promessa, só perde quem deixar de entregar. "Se o Brasil sair da rota de redução do desmatamento, o país não vai se beneficiar", concluiu.
Sobre os Estados Unidos - cujo secretário de Energia, Chris Wright, participava de um evento da The Economist no mesmo momento da solenidade do TFFF e declarou que "há um lado muito positivo nas mudanças climáticas, visto que mais pessoas morrem de frio do que em guerras" -, Capobianco lembrou que o país chegou a participar ativamente da construção do fundo.
"Colaboraram [os EUA] e muito. Trabalharam conosco e ajudaram bastante em todo o processo", disse. "Porém com a mudança de governo, decidiram não seguir."
. "Temos tido vários encontros. Ontem mesmo, num jantar, um grande filantropo ficou super interessado e pediu várias informações", contou o ministro, ao ser questionado sobre o apetite de empresas americanas, sem citar nenhuma e preferindo destacar o interesse da filantropia.