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O próximo El Niño será um teste para a estratégia das empresas

À medida que secas, ondas de calor e chuvas extremas pressionam operações e cadeias de suprimentos, o clima passa a ser uma variável central para a competitividade dos negócios

El Niño altera padrões climáticos e pode aumentar a ocorrência de extremos, com impactos que vão da produção agrícola à logística e ao abastecimento (Imagem gerada por IA)

El Niño altera padrões climáticos e pode aumentar a ocorrência de extremos, com impactos que vão da produção agrícola à logística e ao abastecimento (Imagem gerada por IA)

Da Redação
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Redação Exame

Publicado em 10 de agosto de 2026 às 15h30.

Última atualização em 10 de agosto de 2026 às 16h13.

Por Rodrigo V. Cunha, CEO da Profile 

O retorno do El Niño entre 2026 e 2027 pode representar um dos maiores testes recentes para a capacidade de adaptação das empresas.

Não apenas porque eventos extremos afetam cadeias de suprimentos, energia, logística ou produção, mas porque expõem uma fragilidade ainda comum nas organizações: muitas continuam tratando o clima como uma agenda de sustentabilidade, quando ele já se tornou uma variável estratégica para os negócios.

A nota técnica divulgada pelo Cemaden e as projeções da FAO mostram que parte desses impactos já pode ser antecipada. Alterações no regime de chuvas, secas prolongadas, ondas de calor e interrupções na produção agrícola têm potencial para pressionar custos, comprometer operações e afetar decisões de investimento.

O desafio deixou de ser ambiental e se tornou empresarial.

Basta observar como diferentes áreas do negócio se conectam a essa variável. Uma seca severa reduz a navegabilidade dos rios amazônicos e afeta o transporte de cargas. Ondas de calor elevam a demanda por energia justamente quando sistemas elétricos enfrentam maior pressão.

Eventos climáticos extremos aumentam a frequência de sinistros e pressionam o mercado de seguros. Quebras de safra reduzem a oferta de alimentos e influenciam índices de inflação.

Em comum, todos esses fatores produzem impactos financeiros antes mesmo de aparecerem no balanço financeiro.

Empresas mais maduras já incorporam cenários climáticos em decisões de investimento, revisão da base de fornecedores, planejamento logístico e planos de continuidade dos negócios.

Não porque conseguem prever exatamente o próximo evento extremo, mas porque compreenderam que reduzir a dependência de um clima estável passou a ser uma vantagem competitiva.

O maior ponto cego está fora dos muros da empresa, e as cadeias de suprimentos talvez sejam o melhor exemplo dessa mudança.

Durante muito tempo, empresas concentraram seus esforços em entender riscos dentro das próprias operações. Hoje, essa lógica já não basta.

Um fornecedor localizado em uma região afetada por seca, enchentes ou incêndios pode interromper entregas, elevar preços ou simplesmente deixar de produzir. Em um ambiente de cadeias globais altamente integradas, o risco climático atravessa fronteiras com a mesma velocidade das mercadorias.

Os acontecimentos recentes ajudam a mostrar que essa transformação já está em curso.

A Europa voltou a enfrentar uma nova sequência de ondas de calor, com temperaturas recordes e centenas de mortes relacionadas ao calor extremo. Em Londres, durante a semana do clima, eventos precisaram ser cancelados ou adaptados em razão das condições climáticas, evidenciando que até economias com elevada capacidade de adaptação convivem com limitações impostas pelos extremos.

No Brasil, as novas enchentes no Rio Grande do Sul reforçam que eventos climáticos severos deixaram de ser exceções e já produzem impactos sobre infraestrutura, cadeias produtivas, logística e custos para empresas e governos.

Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com a Amazônia diante da possibilidade de um novo período de seca intensa, que pode comprometer biodiversidade, geração de energia, logística fluvial e atividades econômicas em toda a região.

Conselhos de administração sempre monitoraram juros, inflação e câmbio. Durante muitos anos, o planejamento estratégico das empresas foi construído considerando variáveis como juros, câmbio, inflação e comportamento do consumidor.

O clima aparecia como pano de fundo, quando aparecia.

Essa lógica já não descreve a realidade. Eventos extremos passaram a influenciar a disponibilidade de insumos, funcionamento de infraestrutura, produtividade, custos operacionais e previsibilidade dos negócios.

Ignorar essa mudança significa trabalhar com diagnósticos incompletos.

Talvez a principal mudança que o próximo El Niño possa provocar não esteja na temperatura dos oceanos nem na intensidade das chuvas, mas dentro das empresas.

O dia em que conselhos de administração deixarem de perguntar apenas quanto uma organização emite e passarem a discutir quanto ela é capaz de operar em um mundo cada vez mais instável será o momento em que o clima deixará definitivamente de ser tratado como uma pauta de sustentabilidade.

O clima já integra o conjunto de variáveis que determina competitividade, custos e capacidade de crescimento.

A diferença é que algumas empresas já incorporaram essa realidade ao planejamento estratégico. Outras ainda insistem em tratá-la como uma pauta exclusiva da sustentabilidade.

*Rodrigo V. Cunha é CEO da Profile, consultoria de reputação e impacto

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