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Da guerra aos rios: como conflitos globais impactam a energia em comunidades amazônicas

Quase 1 milhão de pessoas sem acesso à eletricidade na Amazônia ficam ainda mais expostas com a alta do petróleo provocada pela guerra no Oriente Médio

Diante da alta do petróleo, iniciativas na Amazônia avançam em energia solar (Gederson Oliveira)

Diante da alta do petróleo, iniciativas na Amazônia avançam em energia solar (Gederson Oliveira)

Amazônia Vox
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Publicado em 21 de março de 2026 às 14h00.

*Por Carla Fischer e edição de Natália Mello 

Em comunidades ribeirinhas da Amazônia brasileira, o som do motor de um barco é comum e lembra um pouco o ritmo da maré, que viabiliza o acesso à escola, ao posto de saúde, escoa produtos e levam às cidades mais próximas.

Movidos a diesel, esses deslocamentos revelam uma dependência que vai além da logística e conecta diretamente o cotidiano da região a dinâmicas globais que parecem distantes, como guerras e disputas por petróleo.

Num mundo que fala muito sobre energias renováveis, em muitas comunidades também é a energia que faz funcionar geradores que garantem energia para a luz, para a conservação em geladeiras e equipamentos para acesso à internet, por exemplo.

Além dos impactos econômicos, os conflitos no Oriente Médio também têm consequências humanitárias profundas.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a instabilidade pode levar milhões de pessoas à fome aguda em razão da interrupção de ajuda humanitária e da alta no preço dos combustíveis.

Dados citados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) também apontam para a morte de mais de mil pessoas em decorrência dos confrontos.

A Superintendente de Desenvolvimento Sustentável da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), Valcleia Lima, pontuou sobre o problema da energia na Amazônia em artigo publicado no site O Eco. No texto, ela apresenta dados do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), de 2019, que mostram que quase 1 milhão de pessoas na Amazônia não têm acesso à energia elétrica.

Pará e Amazonas são os Estados com maior déficit, sendo o primeiro com 409.593 e o segundo com 159.915 pessoas sem acesso à eletricidade.

"Os números demonstram a distante realidade da região Norte do país (...) Vale destacar que as comunidades que possuem geradores à base de diesel, combustível fóssil, além de poluente, gera um alto custo financeiro, que por muitas vezes não é possível manter mensalmente", comenta no artigo.

Mais do que o tanque do carro, alto preço afeta comunidades

Conhecendo essa realidade, onde o diesel ainda é a base da energia e do deslocamento em comunidades ribeirinhas, quilombolas, extrativistas e indígenas, as altas recentes elevam a preocupação, ainda mais numa região onde cada centavo realmente vale muito na conta total com o alto volume de diesel usado. 

A Petrobras confirmou um novo aumento, de R$ 0,38 por litro para distribuidoras, refletindo a alta do petróleo no mercado global ocasionado pela guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã.

Assim, conflitos no Oriente Médio têm reflexos diretos na vida de quem depende do diesel para atividades cotidianas. Na Amazônia, esse impacto vai além das cidades: nos rios, o combustível move embarcações que garantem transporte, comunicação e abastecimento, enquanto, nas comunidades, sustenta geradores que fornecem energia de forma limitada e instável.

Júnior Albuquerque

A percepção dos impactos também vem de quem atua diretamente nas comunidades. Para Rodrigo Souza, gestor de Núcleo de Acesso à Água e Saneamento do Projeto Saúde e Alegria (PSA), o aumento recente do diesel já tem efeitos concretos no cotidiano e na execução de atividades na região.

“A gente já está sentindo esse impacto na prática. O aumento do diesel encarece toda a logística, desde a implementação de ações até o acesso das próprias comunidades a bens básicos. Em regiões como Jacareacanga, onde tudo depende de transporte fluvial, esse custo chega ainda mais alto. Para as populações indígenas e ribeirinhas, o peso é maior, porque afeta diretamente a renda e o abastecimento das famílias. Além disso, muitas comunidades ainda dependem do diesel para gerar energia, com uso limitado ao longo do dia, o que torna essa situação ainda mais difícil. É um impacto que a gente já sente na pele, com mudanças rápidas e imprevisíveis nos preços.”

A continuidade do conflito pode agravar a crise, uma vez que o Estreito de Ormuz, diretamente afetado pelo conflito e com restrições de tráfego de navios petroleiros, é por onde circula cerca de 20% da produção mundial.

Energia solar ajuda a reduzir dependência

Para reduzir a dependência do diesel - e também como forma de mitigar (reduzir) as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) causadas pelo diesel e outros combustíveis fósseis -, algumas iniciativas buscam ampliar a presença de energia solar.

Um dos exemplos, mostrados em reportagem recente do Amazônia Vox, na série Lições da Amazônia, leva energia solar a comunidades de Santarém e da Floresta Nacional do Tapajós, propondo alternativas não só ao uso de combustíveis fósseis, mas também para reduzir a demanda por energia por hidrelétricas, que também deixam impactos socioambientais.

Outra iniciativa é desenvolvida pelo Projeto Saúde e Alegria (PSA), que há décadas desenvolve soluções adaptadas à realidade ribeirinha no oeste do Pará. Nos últimos anos, a organização tem ampliado a implementação de sistemas de energia solar fotovoltaica em comunidades do Tapajós, buscando reduzir a dependência do diesel e garantir acesso mais contínuo à energia, inclusive em serviços essenciais como saúde e conservação de alimentos.

Inclusive, o projeto tem promovido cursos e oficinas de eletricidade básica e energia fotovoltaica com jovens e mulheres.

Outro exemplo é o projeto Biolume, desenvolvido por estudantes da Universidade Federal do Pará (UFPA), que utiliza postes solares de baixo custo para levar iluminação a comunidades ribeirinhas. As iniciativas mostram que soluções locais podem reduzir a dependência do diesel, ainda que não resolvam, sozinhas, os desafios estruturais da matriz energética brasileira.

“Crises internacionais geram reflexos na vida cotidiana da região amazônica”, diz pesquisador da Unifap

Para o professor Paulo Gustavo Pellegrino Corrêa, doutor em Ciência Política e especialista em segurança internacional da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) coordenador do Programa de Pós-Graduação em estudos de Fronteira (PPGEF), conflitos internacionais costumam afetar diretamente as cadeias globais de energia, especialmente quando envolvem grandes produtores de petróleo.

Segundo ele, guerras em regiões estratégicas, como o Oriente Médio, provocam oscilações no preço do petróleo e aumentam a especulação no mercado internacional, com impactos que se refletem no valor dos combustíveis em diversos países.

Para o especialista, na Amazônia brasileira, esses efeitos chegam de forma indireta, mas com consequências concretas. Como muitas áreas dependem do diesel para transporte e geração de energia, variações no preço ou no fornecimento tornam essas populações mais vulneráveis.

Crises internacionais que afetam o mercado de petróleo acabam tendo reflexos na vida cotidiana da região amazônica”, afirma o pesquisador.

Ele também destaca que, em regiões mais distantes dos principais polos de distribuição e com menor diversidade energética, esses impactos tendem a ser ainda mais intensos, ampliando desigualdades no acesso à energia e ao transporte.

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