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Restauração florestal no Brasil: modelos adotados raramente conseguem combinar escala, custo e viabilidade social de forma consistente. (Freepik)
Colunista
Publicado em 30 de janeiro de 2026 às 09h32.
* Por Almir Jacomelli
A restauração florestal vive um paradoxo. Nunca se falou tanto em clima, biodiversidade e carbono, mas transformar esse consenso em escala real no território segue sendo um desafio relevante.
Entre a ambição das metas e a realidade do campo existe um espaço no qual decisões econômicas, operacionais e sociais ainda não conseguem caminhar de forma integrada.
O principal desafio hoje não é técnico, já que o Brasil sabe restaurar, tem conhecimento acumulado, experiências bem-sucedidas e um território de escala continental. Ainda assim, restaura pouco.
Não por falta de intenção ou de arcabouço legal, mas porque os modelos adotados raramente conseguem combinar escala, custo e viabilidade social de forma consistente.
Isso não significa que a restauração florestal seja um campo estagnado. Ao contrário, há amplo espaço para avanços tecnológicos, ganhos de eficiência, redução de custos e inovação nos modelos operacionais.
Escala, custo e inclusão já fazem parte do debate, o problema surge quando esses elementos são tratados de forma desconectada.
Quando isso acontece, a restauração avança no discurso, mas trava na implementação. É a integração desses fatores que permite sair de projetos pontuais e caminhar em direção a soluções com impacto real no território.
A questão da escala é central nesse contexto. O Brasil possui milhões de hectares degradados com potencial de recuperação, mas grande parte dos modelos tradicionais simplesmente não escala.
Dependem de estruturas caras, altamente centralizadas e pouco adaptadas às realidades territoriais, de modo que projetos que funcionam bem em dezenas ou centenas de hectares tornam-se inviáveis quando replicados em milhares.
É nesse ponto que técnicas como o plantio direto de sementes ganham relevância, não apenas como alternativa ecológica, mas como estratégia operacional.
Ao reduzir a dependência de grandes viveiros, simplificar a logística e permitir maior flexibilidade na implantação, esse modelo viabiliza a atuação em áreas extensas, com menor complexidade e maior velocidade de execução.
Não se trata de substituir completamente o plantio de mudas, mas de reconhecer que a escala exige um conjunto mais amplo e inteligente de ferramentas.
A restauração florestal ainda é percebida por muitos como uma atividade inevitavelmente cara e, de fato, quando baseada exclusivamente em modelos intensivos, com alta dependência de insumos externos e longas cadeias logísticas, os custos rapidamente se tornam proibitivos.
Isso limita o acesso a financiamentos, restringe a participação do setor privado e dificulta a adoção de políticas públicas mais ambiciosas.
Modelos mais eficientes, baseados em sementes e em cadeias produtivas locais, mostram que é possível reduzir de forma significativa o custo médio por hectare sem abrir mão da qualidade técnica.
Ao contrário do senso comum, o plantio direto de sementes pode ampliar a diversidade de espécies, diluir riscos ecológicos e reduzir custos operacionais.
A obsessão pelo carbono de curto prazo costuma levar a escolhas ruins.
Sistemas mais diversos e resilientes, ainda que capturem menos carbono nos ciclos iniciais, tendem a ganhar desempenho ao longo do tempo.
Em horizontes mais longos, as curvas se aproximam e frequentemente se encontram, com a vantagem adicional de maior estabilidade ecológica, menor risco de falhas e melhor capacidade de escalar para grandes áreas.
Além disso, o plantio direto de sementes apresenta uma vantagem operacional cada vez mais relevante diante das mudanças climáticas.
Sementes permanecem viáveis no solo por mais tempo, aguardando condições adequadas de umidade para germinar, o que reduz a exposição imediata ao risco climático.
Em anos marcados pela irregularidade das chuvas ou por eventos extremos associados a fenômenos como o El Niño, modelos baseados exclusivamente em mudas tendem a apresentar maiores taxas de perda.
Estratégias mais flexíveis, capazes de “esperar a chuva chegar”, aumentam a resiliência da restauração e reduzem o risco de insucesso em campo.
O terceiro pilar, muitas vezes tratado de forma periférica, é a inclusão social. Restauração florestal não é apenas uma intervenção ambiental, mas também uma reorganização do território.
Modelos que ignoram as comunidades locais tendem a ser mais caros, mais conflituosos e menos duráveis, enquanto aqueles que incorporam moradores como parte ativa da operação constroem uma base social capaz de sustentar o projeto ao longo do tempo.
O plantio direto de sementes nativas tem um papel relevante nesse aspecto, ao ampliar a demanda por insumos, ativar redes locais de coleta e criar oportunidades reais para populações historicamente excluídas do processo produtivo formal.
Para muitas dessas pessoas, renda não é um conceito abstrato, mas a possibilidade concreta de melhorar a casa, concluir uma obra, adquirir um meio de transporte ou garantir melhores condições para a família.
Pequenos ganhos, quando recorrentes e previsíveis, produzem um impacto transformador profundo.
Não se trata de assistencialismo, mas de eficiência econômica.
Projetos que geram renda local reduzem custos logísticos, aumentam o engajamento, diminuem conflitos e fortalecem a governança territorial.
A inclusão produtiva, nesse contexto, deixa de ser um discurso social e passa a ser uma variável operacional relevante.
Essa combinação de escala, custo e inclusão ganha ainda mais importância quando aplicada a novos arranjos institucionais, como concessões públicas para restauração florestal.
Ao estabelecer metas claras, prazos definidos e incentivos adequados, esses modelos permitem que o setor privado contribua com eficiência, inovação e capacidade de investimento, sem renunciar ao interesse público.
É um caminho promissor para transformar a restauração em infraestrutura verde, e não em exceção ambiental.
O Brasil reúne condições únicas para liderar essa agenda. Temos território, biodiversidade, conhecimento técnico e um enorme contingente de pessoas que podem fazer parte da solução.
O desafio não é apenas plantar árvores, mas desenhar modelos que façam sentido econômico, social e ambiental.
A restauração florestal do futuro dificilmente será definida por uma única técnica ou por uma métrica isolada. Ela será resultado da capacidade de equilibrar escala, custo e inclusão de forma inteligente.
Esse tripé não resolve tudo, mas oferece uma lente mais realista para transformar boas intenções em impacto concreto.
*Almir Jacomelli é diretor de Restauração Florestal na Systemica Inteligência em Sustentabilidade