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O que essa rede hoteleira aprendeu apostando na economia circular em 14 países

Com mais de 250 profissionais dedicados à gestão de resíduos e inteligência artificial nas cozinhas, a Iberostar reduziu em 80% o lixo enviado a aterros e quer inspirar o setor

A Iberostar está presente no Brasil com um complexo de luxo na Praia do Forte, na Bahia (Zarpo/Divulgação)

A Iberostar está presente no Brasil com um complexo de luxo na Praia do Forte, na Bahia (Zarpo/Divulgação)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 22 de fevereiro de 2026 às 08h00.

Quando a Iberostar decidiu, há quatro anos, que ia parar de destinar resíduos para aterros sanitários, ninguém sabia exatamente como aquilo terminaria.

A rede hoteleira espanhola, com mais de 100 hotéis espalhados por 14 países, não estava diante apenas de uma iniciativa isolada de sustentabilidade, mas sim de uma mudança estrutural na forma de gerir seu negócio.

O resultado veio: uma redução superior a 80% dos resíduos enviados a aterros. E uma parceria com a ONU Turismo e a organização Circle Economy para publicar um relatório que tenta transformar essa experiência em linguagem acessível para mobilizar toda a indústria hoteleira global.

O documento lançado no início deste ano serve tanto como diagnóstico quanto como guia prático. O tom é claro: a economia circular deixou de ser diferencial competitivo para se tornar condição de sobrevivência.

O problema das emissões da indústria

O relatório aponta que o setor de hospedagem é responsável por cerca de 260 milhões de toneladas de emissões de CO₂ por ano, um volume comparável à poluição causada por toda a França.

O dado mais revelador, porém, está na origem dessas emissões: aproximadamente 70% vêm não das operações dos hotéis em si, mas da produção, transporte e descarte dos bens e serviços que os estabelecimentos consomem e oferecem aos hóspedes.

Isso significa que a maior alavanca de impacto ambiental da hotelaria está nas decisões de compra e nas cadeias de fornecimento, o conhecido escopo 3.

Como a Iberostar chegou lá

A abordagem da rede combina três elementos que, juntos, formam o que a empresa chama de tripé da circularidade: pessoas, dados e inovação.

No campo das pessoas, a Iberostar criou equipes dedicadas ao que chama de "3Rs": reduzir, reutilizar, reciclar. São mais de 250 profissionais focados na separação, medição e análise de resíduos dentro dos hotéis. A lógica é simples: o que não é medido, não é gerenciado.

Na frente de dados e tecnologia, a empresa passou a usar ferramentas de inteligência artificial nas cozinhas de mais de 60 hotéis. O objetivo é monitorar e reduzir o desperdício de alimentos em tempo real, identificando onde as perdas ocorrem e como podem ser evitadas antes de virar lixo.

A circularidade também foi integrada às decisões de compra e ao design dos próprios hotéis, o que implicou pensar, desde o projeto arquitetônico, em como os materiais poderão ser desmontados, reparados ou reutilizados no futuro.

Gloria Fluxà, Vice-presidente e Chief Sustainability Officer do Grupo Iberostar, destaca que foi preciso mudar prioridades estratégicas internas, metas comerciais e incentivos. "Acreditamos que é assim que começa a mudança sistêmica: não com uma única grande decisão, mas com milhares de pequenas escolhas alinhadas na mesma direção", diz.

Os limites do que uma empresa pode fazer sozinha

A experiência da Iberostar também trouxe uma lição menos confortável: há um teto para o que qualquer empresa consegue fazer sozinha e o relatório aponta para esse cenário.

Entre os principais obstáculos identificados estão a falta de infraestrutura adequada de reciclagem em muitos destinos turísticos, o que torna a separação de resíduos nos hotéis ineficaz sem uma cadeia de coleta e processamento funcionando do outro lado.

Há também barreiras culturais dentro das próprias organizações e a ausência de uma visão compartilhada sobre o que significa circularidade na hotelaria, o que impede que soluções sustentáveis escalem além de redes específicas.

O que o relatório propõe para o setor

O relatório propõe cinco frentes de atuação para a transição circular na hotelaria.

A primeira é a das compras circulares, que envolve engajar fornecedores para priorizar produtos duráveis, reutilizáveis ou biodegradáveis, eliminando materiais desnecessários das cadeias de suprimento.

A segunda são as operações circulares, com foco no uso responsável de recursos como água e na otimização dos cardápios para reduzir desperdício.

Outra é repensar um ambiente construído, com edifícios projetados para eficiência energética, durabilidade e facilidade de desmontagem — usando materiais de origem biológica e energias renováveis.

A quarta frente é a da cultura empresarial, que passa por capacitar líderes e colaboradores nos princípios da circularidade e por conscientizar hóspedes para estimular comportamentos mais responsáveis durante a estadia.

Por fim, o documento aposta na construção de destinos circulares, o que implica colaboração com municípios, investimento na restauração de ecossistemas e apoio a iniciativas circulares locais. Segundo o relatório, o hotel deve operar dentro de um território com infraestrutura, política pública e comunidades.

"Promover práticas circulares e regenerativas não é apenas uma prioridade ambiental, mas também um caminho estratégico para a resiliência, a ação climática, a competitividade e a criação de valor de longo prazo", afirmou Shaikha N. Alnuwais, Secretária-Geral de Turismo das Nações Unidas.

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