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Ondas de calor na Europa são cada vez mais frequentes e intensas com a crise climática (AFP Photo)
Repórter de ESG
Publicado em 18 de fevereiro de 2026 às 17h00.
Que o aquecimento global favorece a propagação de doenças tropicais já é sabido. Agora, um estudo pioneiro publicado na Journal of Royal Society Interface revela que a chikungunyaa está se espalhando mais rápido no Norte global.
Casos isolados desta doença haviam sido registrados em mais de dez países europeus nos últimos anos, trazidos por viajantes de regiões tropicais.
Com a crise climática e a elevação das temperaturas, o vírus passou a encontrar condições para se espalhar localmente e alcançar regiões antes consideradas improváveis.
A nova descoberta mostra que o vírus consegue se transmitir em temperaturas entre 13°C e 14°C, bem abaixo dos 16°C a 18°C estimados anteriormente pela ciência. A diferença de 2,5ºC pode parecer sutil, mas os pesquisadores a classificaram como "bastante chocante".
Isto porque grande parte da Europa já reúne condições climáticas para surtos da doença durante vários meses ao ano.
A transmissão ocorre por meio do mosquito-tigre asiático (Aedes albopictus), espécie invasora que se espalhou nas últimas décadas. Quando o inseto pica uma pessoa infectada, o vírus entra em seu intestino e, após um período de incubação, passa a estar presente na saliva e pode infectar a próxima vítima.
Para que isso aconteça, no entanto, a temperatura precisa ser alta o suficiente para que o vírus complete esse ciclo antes que o mosquito morra.
Em 2025, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) alertou para surtos localizados da doença em países das Américas, especialmente na Bolívia, no Brasil, Paraguai e em partes do Caribe.
Dados da OMS mostram que as mortes pela doença em território brasileiro representam cerca de 72% do total no mundo. Por aqui, no entanto, o vetor é outro: o Aedes aegypti, o mesmo mosquito responsável pela dengue e pelo zika no país.
Sandeep Tegar, autor principal do estudo, declarou ao The Guardian que as novas estimativas são "alarmantes" e que a expansão da doença no continente europeu é apenas uma questão de tempo.
"A taxa de aquecimento global na Europa é aproximadamente o dobro da taxa mundial, e o limite inferior de temperatura para a propagação é muito importante", afirma.
Neste cenário, as infecções por chikungunya passam a ser possíveis por mais de seis meses ao ano na Espanha, Portugal, Itália e Grécia, e por três a cinco meses na Bélgica, França, Alemanha e Suíça.
Mesmo o sudeste da Inglaterra pode registrar condições favoráveis à transmissão por até dois meses ao ano.
Os surtos recentes confirmam o alerta: a França acumulou cerca de 30 casos de chikungunya ao longo de dez anos, mas apenas em 2025 foram mais de 800. Na Itália, surtos de grande escala também foram registrados no período.
Detectada pela primeira vez em 1952 na Tanzânia e historicamente restrita às regiões tropicais, a chikungunya causa dores articulares intensas e extremamente debilitantes, podendo ser fatal em crianças pequenas e idosos.
Seus efeitos podem ser duradouros: a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que até 40% das pessoas infectadas continuam sofrendo de artrite ou dores severas cinco anos após a infecção.
"Vinte anos atrás, se você dissesse que teríamos chikungunya e dengue na Europa, todos diriam que você estava louco: essas são doenças tropicais. Agora tudo mudou. Isso se deve a esse mosquito invasor e às mudanças climáticas", complementou o pesquisador Steven White, também ao The Guardian.
Os cientistas explicam que até então os invernos rigorosos do continente interrompiam o ciclo de transmissão de um ano para o outro, funcionando como uma "barreira natural" contra a doença.
Mas agora já observam a atividade do mosquito-tigre durante todo o ano no sul da Europa, o que sugere que essa proteção está desaparecendo e que os casos tendem a se intensificar com o aquecimento global.
Para a OMS, o estudo é um alerta claro: sem controle do aquecimento global e sem políticas eficazes de prevenção, doenças antes restritas aos trópicos devem se tornar cada vez mais comuns também em países ricos.
Diana Rojas Alvarez, que lidera a equipe da organização sobre vírus transmitidos por picadas de insetos e carrapatos, lembrou que a Europa ainda tem a chance de controlar a disseminação e há uma "janela de oportunidade".
A eliminação de água parada, onde os mosquitos se reproduzem, é uma das ferramentas mais eficazes de prevenção, ao lado do uso de roupas compridas, repelentes e da criação de sistemas de vigilância epidemiológica. Além disso, há vacina contra a chikungunya, mas seu custo elevado limita o acesso.