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Juiz de Fora é hoje a terceira do país com maior ocupação urbana em terrenos acima de 30% de inclinação, atrás apenas de Rio de Janeiro e São Paulo. (Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 4 de março de 2026 às 12h00.
Última atualização em 4 de março de 2026 às 12h18.
A crise climática tem endereço e muitas vezes sua face mais cruel é a ocupação urbana irregular. As chuvas históricas que devastaram Minas Gerais não foram apenas um evento climático extremo: são retrato de décadas de expansão das cidades brasileiras em terrenos que a geografia já havia sinalizado como perigosos.
Dados divulgados pelo MapBiomas nesta quarta-feira, 4, mostram a dimensão do problema: entre 1985 e 2024, as áreas urbanizadas em regiões de alta declividade mais suscetíveis a deslizamentos triplicaram no Brasil, passando de 14 mil para 43,4 mil hectares.
No mesmo período, a urbanização total do país cresceu 2,5 vezes. Ou seja, as cidades avançaram mais rápido justamente em locais de risco. O mapeamento sempre existiu: segundo especialistas, o que falta é planejamento urbano adequado e investimento em prevenção e adaptação frente a nova realidade do clima.
Sem nenhuma surpresa, Minas Gerais é o estado com maior área urbanizada em alta declividade do Brasil: quase 14,5 mil hectares em 2024, o triplo do registrado em 1985.
"A expansão das cidades tem que ser pensada no contexto das mudanças climáticas, que afetam a todos, mas incidem de forma mais dramática em áreas mais sensíveis e vulneráveis, cuja ocupação tem acontecido de forma mais acelerada do que o ritmo da urbanização total", alerta Mayumi Hirye, coordenadora do mapeamento de áreas urbanas do MapBiomas.
Em entrevista recente à EXAME, o geógrafo Adriano Liziero deixa claro que a "culpa não é da chuva" e sim "da falta de adaptação e de um modelo urbano desordenado e que empurra os mais pobres para áreas de risco".
E dentro do estado, Juiz de Fora expõe o gargalo de forma emblemática. A cidade é hoje a terceira do país com maior ocupação urbana em terrenos acima de 30% de inclinação, atrás apenas de Rio de Janeiro e São Paulo. Sua área urbanizada em encostas cresceu 2,3 vezes: de 547 para 1.256 hectares.
O padrão não se limita a Minas. Rio Grande do Sul e Santa Catarina registraram os maiores crescimentos proporcionais do Brasil em urbanização de alta declividade: 7 vezes e 6 vezes, respectivamente, nas últimas quatro décadas.
Já Rio de Janeiro e São Paulo chegaram a 2024 com 8,6 mil e 8,1 mil hectares nessa condição, representando os maiores valores absolutos do país.
As 73 mortes em Juiz de Fora deram concretude a esse mapa de risco e o que os dados trazem em hectares, significaram vidas e perdas bilionárias aos cofres públicos.
O risco em Juiz de Fora não era segredo para as autoridades. Em 2023, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) produziu um amplo mapeamento dos municípios brasileiros mais suscetíveis a desastres associados às chuvas, com o objetivo de orientar investimentos para mitigação, prevenção e preparação das cidades.
O diagnóstico revelou um Brasil altamente vulnerável: 1.942 municípios tinham populações vivendo em áreas de risco, somando 8,9 milhões de pessoas (6% da população brasileira). Nesse ranking, a cidade mineira da zona da mata aparecia na 9ª posição, com cerca de 129 mil moradores expostos.
O risco não se limita às encostas. O MapBiomas também monitorou a expansão urbana em áreas próximas a cursos d'água, consideradas regiões com maior vulnerabilidade a enchentes e alagamentos.
As áreas urbanas construídas a menos de três metros de altura do rio ou córrego mais próximo — o equivalente ao teto de um apartamento — cresceram 145% em quatro décadas, passando de 493 mil para 1,2 milhão de hectares entre 1985 e 2024.
Rio de Janeiro e São Paulo lideram o ranking dos municípios com maior área nessa condição, com 25,6 mil e 19,1 mil hectares, respectivamente.
Brasília, que em 1985 nem figurava entre os primeiros colocados, chegou em 2024 na terceira posição com 16,4 mil hectares e é reflexo de uma expansão urbana acelerada que transformou a capital no segundo maior município em área urbanizada do país.
Quando o recorte é proporcional, a situação mais crítica está no Norte do país. Em Roraima, 46,4% de toda a área urbanizada está em situação de vulnerabilidade a enchentes. Rio de Janeiro aparece em segundo lugar, com 43%, seguido pelo Amapá, com 37,6%.
"Historicamente, as cidades se estabeleceram junto a corpos d'água. Diante do aumento do número de eventos extremos e do conjunto de funções cumpridas por áreas de várzea e planícies alagáveis, é importante monitorar a expansão de áreas urbanizadas em margens fluviais", destaca Edimilson Rodrigues, pesquisador da equipe do MapBiomas.
O Rio Grande do Sul, palco das enchentes históricas de 2024, não aparece neste recorte do estudo.
Para além da ocupação irregular e falta de planejamento estrutural das cidades brasileiras, o dados reforçam outra face das mudanças climáticas: a desigualdade.
As áreas de favelas cresceram 2,75 vezes entre 1985 e 2024, acima da média nacional de urbanização de 2,5 vezes. E esse crescimento foi desproporcionalmente concentrado nas zonas de maior risco: a ocupação de favelas em alta declividade aumentou mais de 150%, enquanto a expansão próxima a drenagens chegou a 200%, representando mais de 30 mil hectares a mais em quatro décadas.
Manaus lidera o ranking de área urbanizada em favelas tanto em 1985 quanto em 2024. Das dez cidades com maior área periféricas no país, sete estavam em capitais do Norte e Nordeste em 1985 e o número subiu para oito em 2024, com a entrada de Teresina.
Em 2024, a região metropolitana de São Paulo tem a maior área absoluta de favelas do país, com 11,8 mil hectares, mas as regiões de Manaus e Belém, com 11,4 mil e 11,3 mil hectares respectivamente, representam mais de um terço de toda a área urbanizada dessas cidades.
Palco da COP30 em 2025, o Pará se destaca no recorte de vulnerabilidade hídrica: é o estado com maior área de favelas próximas a drenagens, com 7.450 hectares, seguido por Rio de Janeiro (5.260 hectares) e São Paulo (4.650 hectares).
Outro destaque vêm de Brasília: das cinco favelas que mais cresceram em área no Brasil, quatro estão na capital federal.
Sol Nascente e 26 de Setembro ocupam o primeiro e segundo lugares das maiores favelas do país, com 599 e 577 hectares respectivamente. Se as quatro favelas do Distrito Federal fossem somadas como um único município, seu crescimento urbano nas últimas quatro décadas superaria o de 95% de todas as áreas urbanizadas do Brasil.
Julio Pedrassoli, coordenador do mapeamento de Áreas Urbanizadas do MapBiomas, destaca que a concentração das maiores expansões recentes no Distrito Federal, associada à sobreposição com áreas classificadas como de menor segurança hídrica, aponta para uma dinâmica de crescimento territorial acelerado em contextos ambientalmente mais restritivos.
"Isso representa risco não apenas para as populações que ocupam estas áreas por falta de outra opção adequada, mas também para o restante do país como um todo", diz.
De toda a expansão urbana sobre áreas naturais no período (670 mil hectares), 25% ocorreu em regiões de segurança hídrica crítica, afetando 1.325 municípios.
Nos estados de Alagoas, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Sergipe, mais de 70% do crescimento urbano entre 1985 e 2024 se deu nessas condições.
O município do Rio de Janeiro foi o que apresentou o maior crescimento absoluto de urbanização em condições mínimas de segurança hídrica: 7,6 mil hectares em quatro décadas, equivalente a 11 mil campos de futebol.
O Brasil, com 1.325 municípios crescendo sobre áreas de escassez hídrica, encostas ocupadas e margens de rios urbanizadas, construiu em quatro décadas um mapa de risco climático que o mercado de seguros ainda não sabe como precificar — e que eventos como o de Minas Gerais tornam cada vez mais urgente encarar.