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Falta de caminhões elétricos atrasa montadoras brasileiras na corrida contra chinesas

A eletrificação da frota pode evitar trilhões em custos de saúde — mas o ritmo de transição ainda é lento entre os maiores fabricantes tradicionais

No Brasil, a transição ainda está em fase inicial, mas a oportunidade é concreta (Leonardo Benassatto/Reuters)

No Brasil, a transição ainda está em fase inicial, mas a oportunidade é concreta (Leonardo Benassatto/Reuters)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 9 de abril de 2026 às 18h27.

Apesar de representarem apenas 3% dos veículos nas estradas, os caminhões pesados respondem por cerca de 30% das emissões de CO₂ do transporte rodoviário.

É o que aponta um novo relatório da Idle Giants, iniciativa internacional para impulsionar a eletrificação desse segmento, lançado em nesta semana.

Os custos associados à poluição gerada por esses veículos são expressivos: as emissões dos quatro maiores fabricantes mundiais devem gerar até US$ 1,4 trilhão em despesas relacionadas à saúde ao longo de dez anos — um passivo que a eletrificação da frota poderia reduzir diretamente, além de diminuir a exposição de populações urbanas à poluição por diesel.

O mercado global já dá sinais claros de aceleração. Em 2024, as vendas mundiais de caminhões elétricos cresceram quase 80%. Só no primeiro semestre de 2025, foram vendidos cerca de 90 mil unidades no mundo.

O crescimento é liderado pela China, que já opera em larga escala internamente e tem expandido sua presença em mercados emergentes com modelos mais acessíveis.

Caminhões elétricos

No segmento de ônibus elétricos na América Latina, esse avanço já é visível: fabricantes chinesas respondem por aproximadamente 85% de toda a frota elétrica em operação na região, com a BYD liderando com quase 44% do total, seguida por Foton e Yutong.

No segmento de caminhões pesados, no entanto, a eletrificação historicamente avança mais devagar do que em outros veículos — com um atraso médio de 6 a 8 anos em relação, por exemplo, aos veículos leves.

Os três maiores fabricantes tradicionais do mundo — Daimler Truck, Traton e Grupo Volvo —, que juntos detêm mais de 80% do mercado global, ainda mantêm foco predominante na produção de veículos a combustão.

Enquanto isso, fabricantes chinesas como SANY e XCMG ampliam rapidamente sua produção e chegam ao mercado com preços significativamente mais competitivos: a SANY, por exemplo, entrou no Brasil no final de 2025 com caminhões entre R$ 1,8 milhão e R$ 1,9 milhão, abaixo dos cerca de R$ 2,5 milhões cobrados por modelos comparáveis de fabricantes tradicionais.

Veículos pesados no Brasil

No Brasil, a transição ainda está em fase inicial, mas a oportunidade é concreta. A maioria das rotas percorridas por caminhões no país fica entre 100 e 600 km — distâncias que já estão dentro do alcance técnico dos veículos elétricos disponíveis.

Iniciativas como o projeto e-Dutra, que prevê um corredor verde de recarga com 1.000 caminhões elétricos operando entre Rio de Janeiro e São Paulo até 2030, mostram que a infraestrutura começa a avançar.

"A tecnologia já permite percorrer grandes distâncias, mas ainda falta um passo decisivo das próprias montadoras: ampliar a produção no Brasil. A escala é o fator determinante nessa transição, pois volumes maiores reduzem os custos por veículo e garantem vantagens competitivas difíceis de replicar", afirma Clemente Gauer, membro da coalizão Gigantes Elétricos, iniciativa brasileira alinhada ao movimento global.

Além do impacto ambiental e sanitário, a eletrificação da frota pesada oferece vantagens econômicas diretas: custos operacionais mais baixos, maior eficiência energética e proteção contra a volatilidade dos preços dos combustíveis fósseis.

O relatório alerta que fabricantes tradicionais que atrasarem essa transição correm o risco de perder participação de mercado de forma irreversível para novos concorrentes que já demonstram liderança na eletrificação do setor.

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