A favela em Davos: o Empreendedor do Ano em Impacto e Inovação

Em carta para sua mãe, Celso Athayde reflete sobre sua trajetória, de menino de rua a homenageado no Fórum Econômico Mundial
Celso Athayde discursa em Davos: o empresário foi eleito o Empreendedor do Ano em Impacto e Inovação (Divulgação/Fórum Econômico Mundial)
Celso Athayde discursa em Davos: o empresário foi eleito o Empreendedor do Ano em Impacto e Inovação (Divulgação/Fórum Econômico Mundial)
Por Da RedaçãoPublicado em 24/05/2022 09:22 | Última atualização em 24/05/2022 14:38Tempo de Leitura: 9 min de leitura

Celso Athayde*

Oi mãe, acorda! Acabei de chegar no hotel. Você conseguiu ver o povo de pé me aplaudindo?

Queria tanto que você me visse falando inglês, na hora do discurso.

Mãe, eu vou parar de te escrever. O povo vai acabar achando que sou maluco, porque vivo te escrevendo e você não dá nenhum sinal de vida. Ou então vão achar que você é uma mãe desnaturada, que era a forma que você chamava as mães da molecada lá no Sapo.

Mãe, você viu que eu falei da Favela do Sapo no meu discurso? O povo aqui amou! Mesmo o meu inglês sendo meia boca. Mãe, cadê você pô? Na próxima vou falar um palavrão, hein! Sei que não gosta, mas vou falar para ver se você aparece logo pra mim.

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Conheço uma pá de gente que perde a mãe e ela volta em forma de sinais para mostrar que a pessoa tá ali, ajudando, operando para que as coisas aconteçam para quem ficou, e você não manda nem um sinal.

Aliás, nem meu pai fala nada.  Se bem que a vida inteira você aparecia mesmo quando eu não te via. E você estava presente sempre na hora do sufoco, e quando os caras queriam me pegar, eu gritava seu nome… "mãeêêê" e eles saiam correndo.

Mãe, viu que falei de você e do meu pai? Acho que vocês nem estão aí pra mim. Se bem que quando eu caminhava pela rua, indo para o grande salão, caiu uma chuvinha, que era a mesma que você dizia que era Deus mandando lavar nossos caminhos. E lembrei de você, senti sua presença. Só que quero mais, quero te abraçar, dizer muitas coisas que eu raramente dizia, como eu te amo.

Mãe, no meu discurso, eu falei a palavra “favela” dez vezes. Será que vão me receber no Aeroporto do Galeão em carro de bombeiros? Acho que não, né?

Os “asfaltistas” não estão nem aí pra essa gente de favela,  eles devem pensar que quanto mais favelas, é melhor pra nós. Mas eles não sabem que é o contrário, que nós queremos é uma vida digna para essas pessoas.

Queremos é que as favelas se tornem coisa do passado como falo, há mais de 24 anos. Mas para isso acontecer, os asfaltistas precisam priorizar um plano de habitação, segurança e transporte. Eles reclamam da favela, porém alijam todas as possibilidades de emancipação dos favelados. Ou seja, mãe. Não querem as favelas, mas querem explorar os favelados.

Mas será que os favelados entendem a importância desse pronunciamento e vão lotar o aeroporto para me esperar? Tipo quando o time de favela ganha um título internacional?

Eu tô é ficando doido e com marra de artista, isso sim. Na verdade, eu já vou chegar trabalhando direto. É que acabei de receber uma mensagem da Marilza dizendo que desembarco direto para uma ação da Vai Voando, empresa do nosso grupo.  Melhor deixar a comemoração para outro momento.

Mãe, tô muito feliz! Tô deitado agora no hotel escrevendo e olhando pra janela. Em alguns momentos eu tenho certeza que você vai aparecer, mas nem tchum de você. Quem sabe você manda um sinal dizendo que está por perto e me vendo? Seria o máximo! Me fala como estão todos aí e se precisam de algo. Se bem que você sabe que eu tenho medo de assombração, né? Se mandar algum sinal, mande algo, sei lá, sem alardes. Tipo umas folhas caindo formando seu nome, coisas assim.

Mas preciso saber de você. Às vezes, choro. Mas evito chorar, porque uma vez você me contou uma história, que você recebeu uma entidade lá no seu centro de umbanda e o santo pediu para a filha não chorar, porque estava enchendo caminho da mãe dela de poça d’água e o espírito não conseguia passar. Eu sempre lembro disso e me dá uma agonia enorme.

Mãe, aqui tudo é mágico, contraditório, pomposo… tudo é muito chique e os discursos são sempre voltados para as desigualdades sociais, apesar do fato dos que estão aqui serem os que mais promovem essas mesmas desigualdades. Tipo no Brasil, que os bacanas inventam empresas com sobrenome social, e toda a riqueza da empresa vai para o asfalto. O que eu batizei de “caô social". É difícil estar aqui, é um misto de potência por ser escolhido para o holofote máximo e a minha atividade e estar endossando a agenda neoliberal. Não que seja uma verdade absoluta, mas ao menos o Fórum é acusado de ser.

Por outro lado, para mudar a ordem das coisas, é necessário compor as mesas. É mais ou menos deixar de definir metas raciais para empresas, porque achamos que elas são racistas e não vão cumprir. Se não tentar, a agenda não vai mudar mesmo.

Mas, não quero falar disso, porque você nunca falava dessas coisas comigo. Mas também, a gente nem tinha tempo para falar, viver, sonhar, né mãe… era uma correria do caralho pra amanhecermos vivos nas ruas do Rio de Janeiro.

Mãe, lembra que eu te falava que a favela ia mostrar sua importância para o mundo? Pois bem, demos um passo importante com a Expo Favela, que te falei outro dia, e agora outro passo importante aqui em Davos. Não apenas por ter sido aplaudido de pé, mas sobretudo, porque é a primeira vez que esse espaço de poder global reconhece a favela como espaço de potência. O diretor geral do evento, o senhor Klaus Schwab, convocou para esta terça, uma reunião com lideranças de outros países, que trabalham com favelas para que eu passe toda a visão do quarto setor. Estou aqui como empresário da Favela Holding, mãe, pelas conquistas e posicionamento da holding e suas entregas. Claro que sabemos que tem muita reparação a ser feita, mas não reconhecer nesses espaços os grandes feitos por tanta gente que estão tocando o Brasil, fazendo tanta coisa importante para a favela, como a Tamires Sampaio da Frente Nacional Antirracista, Leonam Pereira da Silva, no Konteiner da Penha, Professor Ivanir dos Santos, do Ceap, e a rainha Djamila Ribeiro, só pra citar alguns.

Mãe, se te conheço bem, você deve tá pensando aí: “Como esse menino mudou, ele nem sabia falar direito, agora fica aí falando essas palavras do asfalto. Meu filho deve ter se vendido para o sistema”. Me vendi não, mãe, só me emprestei por uns dias. Eu estou fazendo uns cursos aí e os caras são tudo boy e ficam encantados com tudo que falo pra eles. Eu estou andando com eles, mas não vou ser igual a eles não, prometo. Igualzinho aos maconheiros lá da favela, eu andava pra cima e pra baixo com eles, já fui até preso e tomei umas porradas com eles, mas nunca fumei maconha e nunca andei de moto, como te prometi. Nunca mãe.

Mãe, tu lembra quando você queria saber se eu e meu irmão estávamos falando a verdade sobre tudo, você perguntava: “jura eu morta?” Caramba, mãe, que saudade do caralhoooo da senhora… eu mentia tanto que as vezes acho que você morreu por culpa minha…. desculpa se a poça d’água vai atrapalhar a sua caminhada, mas não tá dando pra segurar...

Desculpa …. Tá foda , mãe … cadê você ?

Você tinha que estar aqui comigo, para eu te entregar sua estatueta…

Você tinha que ver eu falando inglês aqui no meio dos gringos, mãe. Tirei foi muita onda!

Lógico que vai ter uns sem-vergonha que vão dizer: “Esse cuzão desse Celso foi lá pra fora fazer vergonha com esse inglês meia boca e manchar a imagem do país".

Vou responder assim: “Pena que o prêmio não era para poliglotas extraordinários como vocês, era para incultos linguísticos como eu”. E foda-se.

Mãe, tá ficando tarde. Aqui são 5 horas de fuso para o cemitério onde você está no Rio. Se bem que nem sei onde você fica, você não fala nada. No céu? Aqui? No Brasil? Porra, mãe! Minha garganta embargou de novo. Eu não quero mais chorar… é hora de sorrir…

Você era tão foda, me ensinou tanto, me fez amar o trabalho, me fez não criminalizar o dinheiro, me mostrou que ter lucro não era pecado, que o pecado pode ser o que você faz com esse lucro.

Bem, vou dormir e parar esse papo cabeça com uma mulher que não tá né aí para esse filho que dizia amar tanto.

Hoje, antes de sair, uma amiga minha me fez uma pergunta. Ela está me ajudando muito aqui. Ela é tão apaixonada pelo que fazemos mãe, que tirou férias para vir ajudar e deixou a filhinha com o avô, para facilitar nossa vida, o nome dela é Adriana Telles. Mas o que quero falar é que ela perguntou: “Celso, você precisa agora estar concentrado para entrar em cena. Qual música você deseja escutar para se concentrar?” Escolhi Prostituta, da Nega Gizza.

Tá sendo mágico aqui. Estou com um monte de livros de favelados aqui mãe, da Carolina Maria de Jesus, da Sinara Rúbia, da Jenyffer Nascimento, do Renê Silva, Marcus Faustini, MV Bill e do Nego Panda. Sempre que posso leio alguma coisa deles, para alimentar minha alma e não me perder no caminho.

Mãe, agora vou dormir mesmo. Tô morto e feliz.

Mas prefiro acreditar que você está aqui me olhando, com esse sorriso lindo, com essa paixão gigante e com essa preocupação excessiva. Mãe, lembra quando... Não, não, chega. Vou dormir.

O dia foi lindo, o fórum é do caralhoooo, as conexões são mágicas e acabamos de abrir portas, janelas e uma nova narrativa para os favelados virão aqui depois de mim. Jovens que precisam de espaços. Não quero o monopólio do bem. Não vamos fazer revolução sozinho.

Mãe, tudo isso pra dizer que seu filho está na boca de Davos e, provavelmente, na de alguns sapos por aí, mas a humildade que você sempre exigiu continua aqui, intacta. Te amo, mãe! Esse prêmio é seu. Pois se hoje sou o maior empreendedor do mundo de impacto e inovação, segundo o Fórum Econômico Mundial, a culpa é da minha fonte de inspiração, que me explorava no camelô de Madureira, na rua Domingos Lopes. Mãe, se encontrar meu irmão, minha vó e meu pai por aí, manda um beijo. Diz que vou demorar muito a chegar, porque aqui da gostoso, tá uma uva!

Te amo!

*Celso Athayde é cofundador da Central única de Favelas e CEO da Favela Holding