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A corrida pelas terras raras: como a crise climática tornou a Groenlândia alvo de Trump

Aquecimento global abre caminho para a maior ambição geopolítica do presidente americano: controlar os minerais críticos que movem a tecnologia do futuro e facilitar as rotas marítimas do Ártico

Degelo causado pelo aquecimento global facilita rotas marítimas no Ártico e mineração de terras raras (Getty Images)

Degelo causado pelo aquecimento global facilita rotas marítimas no Ártico e mineração de terras raras (Getty Images)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 23 de janeiro de 2026 às 06h00.

Terras raras, abundância em minerais críticos e rotas marítimas estratégicas fizeram da Groenlândia o alvo mais desejado de Trump, sob o pretexto da soberania e segurança nacional dos EUA. Mas por trás da maior disputa geopolítica atual, há uma grande ironia.

Enquanto o presidente americano repete que o aquecimento global é uma "farsa" e insiste em negar a crise climática, é o derretimento do gelo que torna os tesouros minerais da região mais acessíveis para exploração e abre novas rotas de navegação que encurtam em uma semana o deslocamento entre Ásia e Europa.

Hudson Mendonça, CEO do Energy Summit e vice-presidente de Energia e Sustentabilidade da MIT Technology Review, disse à EXAME que o movimento está longe de ser um ato isolado e que se trata de uma disputa geopolítica de longa data entre China, Rússia e EUA.

Ao mesmo tempo, envolve de um lado o domínio de tecnologias de ponta e, de outro, o controle de insumos energéticos básicos. "As terras raras impactam diretamente essas duas frentes", destacou.

Isto porque, paradoxalmente, elas não são raras. São 17 elementos químicos com nomes que soam a ficção científica: neodímio, térbio, disprósio.

Estão no seu celular, na tela da TV, no carro elétrico vital para a descarbonização do transporte e até nos ímãs superpotentes que fazem turbinas eólicas girarem para produzir energia limpa. Até mesmo em artefatos de guerra como nos sistemas de mísseis guiados e nos caças F-35.

Os minerais críticos não são essenciais apenas para a transição energética rumo a fontes limpas, mas para tecnologias em geral — inclusive plataformas de petróleo, cuja exploração Trump quer expandir desde que reassumiu a Presidência. Soma-se a isso a explosão da demanda energética dos data centers e a ambição americana de liderar o mundo em inteligência artificial.

"É uma questão de segurança no sentido mais amplo, já que os minerais são estratégicos para a indústria de tecnologia e para o setor de energia", explicou Hudson.

Analistas também acreditam que Trump está jogando pensando décadas à frente. Durante a Guerra Fria, o Ártico era uma das regiões mais militarizadas do planeta e o caminho dos mísseis nucleares entre EUA e Rússia. Quando o conflito terminou, os americanos reduziram presença, enquanto a Rússia não. Agora, com o degelo acelerando e a China de olho na Rota da Seda Polar, a lógica é que todos poderiam voltar.

Groenlândia aumentaria em 80% as reservas de minérios dos EUA

Em seu discurso em Davos na quarta-feira, 21, Trump anunciou que havia estabelecido a estrutura de um futuro acordo com a Otan sobre o território autônomo pertencente a Dinamarca. "Eles estarão envolvidos nos direitos minerais, e nós também", afirmou em entrevista à CNBC, referindo-se à Otan e aos EUA.

Mas horas antes, diante da plateia do Fórum Econômico Mundial, o líder resolveu minimizar seu interesse nas terras raras.

"Todo mundo fala sobre os minerais. Há tantos. Para chegar a essa terra rara, é preciso atravessar centenas de metros de gelo. Não é por isso que precisamos dela [Groenlândia]. Precisamos para a segurança nacional estratégica e a segurança internacional", disse Trump.

A contradição revela uma disputa de muitas camadas e os números contam outra história: a posse da Groenlândia, que tem reservas estimadas de 1,5 milhão de toneladas de terras raras, aumentaria em 80% as reservas dos EUA desses minérios (de 1,9 para 3,4 milhões de toneladas).

Por baixo do discurso de segurança nacional, está a corrida pelo controle tecnológico do futuro. 

Marco zero da crise, epicentro da cobiça

Em 1997, satélites detectaram algo alarmante: a geleira de Jakobshavn, no oeste da Groenlândia — de onde se desprendeu o iceberg que afundou o Titanic —, começava a acelerar de forma anormal em direção ao mar. O aquecimento das águas do Atlântico estava transformando aquela região no que cientistas chamariam de "marco zero" da crise climática.

Hoje, a maioria das grandes geleiras da Groenlândia está acelerando, despejando bilhões de toneladas de água doce no oceano a cada ano e levando a uma série de efeitos em cascata em todo mundo.

O Ártico aquece pelo menos duas vezes mais rápido que o resto do planeta. E esse derretimento está redesenhando o mapa do poder global.

A região de apenas 60 mil habitantes é extremamente despovoada e ainda bastante perigosa por causa do gelo e clima inóspito. Com a alta nas temperaturas, tem sido cada vez mais explorada, principalmente por países do Norte global.

A mudança climática está abrindo uma nova rota ao longo do Mar do Norte. A China já batizou a sua: "Rota da Seda Polar", um corredor marítimo que passa pela costa norte da Rússia e fica aberto apenas alguns meses por ano.

Em 2025, o navio Istanbul Bridge completou a primeira travessia entre Ningbo, na China, e Felixtowe, no Reino Unido, em cerca de 20 dias, sendo que a a rota tradicional pelo Canal de Suez levaria ao menos 27 dias.

"Essa disputa é, ao mesmo tempo, geopolítica e econômica", destacou Mendonça.

"Toda decisão de investimento em energia carrega essas duas dimensões. Quando se observa um território gigantesco como a Groenlândia, com uma população tão pequena, surge naturalmente a preocupação com o domínio territorial. Soma-se a isso a questão do suprimento de terras raras."

Os 17 elementos que movem o mundo

"As terras raras são um dos insumos mais importantes do mundo", destacou Mendonça. Sem elas, boa parte da tecnologia moderna simplesmente para de funcionar. Não à toa, os minerais críticos são essenciais para a transição energética. 

E aqui está o nó geopolítico: mais de 60% dos elementos de terras raras do mundo são extraídos na China. Para agravar o domínio da potência asiática, 90% do processamento também passa por lá.

Já a Groenlândia possui a oitava maior reserva de terras raras do mundo, uma posição atrás do próprio Estados Unidos. No topo do ranking está a China e o Brasil ocupa a segunda posição.

Logo, a disputa da região envolve duas dimensões: a territorial e a dos minerais críticos. 

"Onde houver grande concentração de terras raras, haverá interesse americano. Isso foi visto na guerra da Ucrânia e também em relação ao Brasil", lembrou o especialista do MIT.

Minerar sob o gelo é possível?

Julio Nery, diretor de Assuntos Minerários do IBRAM, explicou à EXAME que a mineração na Groelândia não é algo novo e é possível, mas enfrenta uma série de desafios: o clima congelante e a falta de investimentos são os principais. 

"Existe a possibilidade de minerar, mas é difícil. Há as limitações de um lugar com gelo e com temperaturas negativas", destacou à EXAME.

Em 2019, houve um memorando de entendimento para fazer pesquisas desse tipo na região. "Há dois grandes depósitos de terras raras na parte mais baixa da Groenlândia, onde existe a possibilidade de extrair os minérios", disse.

Mas algumas possibilidades esbarram na realidade do gelo. Cerca de dois terços do território da Groenlândia está sob uma camada de gelo que, em alguns pontos, ultrapassa três quilômetros de espessura.

"Não há estradas suficientes e nem portos adequados. O frio extremo pode congelar equipamentos pesados e fica inviável escavar com a tecnologia", complementou Nery.

Ou seja, por lá o maior obstáculo é o clima. E neste sentido, o aquecimento global poderia facilitar a atividade.

O degelo tem tornado algumas jazidas mais acessíveis, a exemplo da mina de prata de Maarmorilik que viu seu potencial crescer após o derretimento de parte do manto de gelo. Por outro lado, deslizamentos de terra, antes raros, estão se tornando mais frequentes, colocando operações em risco.

A Autoridade de Mineração da Groenlândia promove o território como "subexplorado, rico em minérios e com uma população pró-mineração". Três dos maiores depósitos de terras raras da região podem estar entre os dez maiores do mundo.

No entanto, a mineração só é viável nos meses de verão. Os depósitos estão sendo desenvolvidos, mas ainda não há mina operando em plena capacidade. "A Groenlândia tem um PIB muito pequeno, é um lugar que precisa de investimento", acrescentou Nery.

Uma diferença fundamental em relação ao Brasil é que as rochas alteradas lá são muito poucas e são mais duras. "Do norte dos Estados Unidos para cima, lidamos com formações geológicas mais resistentes", explicou Nery.

Trump e sua agenda anti-clima

Desde o primeiro dia do seu mandato, Trump foi contrário a expansão das energias renováveis e sinalizou para a expansão do petróleo e dos combustíveis fósseis. Sua frase proferida era “drill, baby, drill”, se referindo a perfuração de novos poços.

Em Davos, o presidente americano chegou a dizer que "energia eólica era coisa de perdedor" e que cancelou todas políticas energéticas que estavam indo de "mal a pior nos EUA".

"Quanto mais eólica um país tem, pior ele vai e mais dinheiro perde. Elas [as usinas eólicas] matam pássaros, acabam com a paisagem — gente burra", afirmou no discurso.

Para o especialista em energia do MIT, a crítica que ele tem feito fielmente à Europa está relacionada à retirada de subsídios, uma questão econômica. "Quando se fala em extrair petróleo em massa, é possível baratear o produto e vendê-lo a baixo custo", explicou.

Os Estados Unidos não são autossuficientes em petróleo, embora possuam diversas reservas. A presença de energias renováveis variam muito de estado para estado, e Trump tem cortado subsídios para esses projetos, tornando muitos deles economicamente inviáveis.

"A China é, disparadamente, o país que mais polui com carvão e petróleo, mas também é o que mais investe em renováveis", lembra Mendonça. Contradição? Não. Estratégia.

Com a segunda maior reserva de terras raras do mundo, o Brasil também entrou fortemente no radar das grandes potências: China, Rússia e Estados Unidos.

"Vivemos, portanto, um momento geopolítico em que disputas territoriais e tecnológicas se misturam", afirmou Mendonça.

Sonho de independência

Desde 2009, a Groenlândia mantém autogoverno e controla a economia local. Mas a Dinamarca ainda comanda as relações internacionais e subsidia a ilha com mais de US$ 1 bilhão por ano.

Os groenlandeses sonham com independência e também com os "royalties da mineração" que vão pagar por ela. No sul da ilha, onde vivem cerca de 6 mil pessoas espalhadas em pequenas cidades, vilarejos e duas dezenas de fazendas de ovelhas, a transformação já começou.

Trump descartou o uso da força militar, mas sua insistência é clara: propaga o conceito de defesa antimíssil "Cúpula Dourada", em proteção do hemisfério norte, em segurança estratégica. Mas o acordo preliminar anunciado em Davos deixa explícito: no fim do dia, trata-se dos minerais.

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