Inflação pode transformar corte de juros de emergentes em doce veneno

O clamor para que países mais pobres imitem o Federal Reserve no combate ao impacto do coronavírus pode ser equivocado por dois motivos

A pressão aumenta para cortes das taxas de juros que poderiam levar economias emergentes a um cenário de inflação descontrolada e desvalorização cambial.

Isso porque os rendimentos médios reais nos mercados emergentes já poderiam estar em território negativo, ao levar em conta as projeções de inflação no primeiro trimestre. Mesmo economias maiores, como Índia, Taiwan e Turquia, oferecem retornos de títulos abaixo da alta dos preços, o que deixa pouco espaço para os juros caírem ainda mais.

O clamor para que países mais pobres imitem o Federal Reserve no combate ao impacto do coronavírus pode ser equivocado por dois motivos. Diferentemente dos Estados Unidos ou Europa, a maioria dos países em desenvolvimento registra avanço da inflação, o que torna o aumento dos juros uma resposta mais apropriada. Além disso, esses países não têm um bom histórico de conversão de cortes dos juros em crescimento econômico, o problema da chamada transmissão monetária.

As expectativas de cortes dos juros impulsionam ações de países em desenvolvimento rumo ao maior ganho semanal desde novembro de 2018, e as moedas para a melhor semana deste ano. Mas o rendimento médio dos títulos de dívida caiu para um recorde, enquanto a inflação está no nível mais alto desde 2014. Esta seria a primeira vez em mais de três anos que os juros reais estão negativos e destaca os menores retornos dos investidores em mais de uma década.

Uma redução adicional desses retornos poderia desencadear a desvalorização das moedas, e a batalha contra a inflação seria perdida antes de começar.

Em alguns países, as taxas de referência ajustadas pela inflação se tornaram negativas ou se aproximaram do território negativo nos últimos seis meses:

Brasil

O efeito de cortes dos juros na hora errada já assusta investidores. No Brasil, as taxas reais caíram para quase zero em relação aos 2,78% em setembro. O dólar atingiu a máxima de R$ 4,6, e o real é a moeda com o pior desempenho do mundo este ano, depois que o BC indicou que pode cortar ainda mais os juros.

Índia

Mesmo antes do coronavírus, o crescimento no país do sul da Ásia desacelerava em meio à queda da demanda dos consumidores, crise rural e bancária. Cortes dos juros num total de 135 pontos-base não adiantaram para evitar a desaceleração. O avanço da inflação em dezembro, inicialmente vista por alguns economistas como um choque pontual, continuou em janeiro, para o nível mais alto dos seis anos do primeiro-ministro Narendra Modi no cargo.

Tailândia

Um relatório do Banco Mundial nesta semana que mostrou aumento da taxa de pobreza e desigualdade da Tailândia destacou que qualquer nova desaceleração da economia pode afetar as famílias. A inflação ainda não é um problema, e a crise do setor do turismo devido às preocupações com o vírus poderia justificar o argumento de corte dos juros. Mas os rendimentos já estão em níveis baixos e investidores estrangeiros em ritmo de vendas.

(Com a colaboração de Anirban Nag e Ziad Daoud (Economist)).

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