Economia

Como a economia circular está redesenhando a indústria do aço

Executivos de Gerdau e Randoncorp mostram como a cadeia do aço se consolida como vetor de competitividade, impacto social e desenvolvimento econômico no Brasil

Marcos Cantarino (Gerdau), Joarez Piccini (Randoncorp) e Pedro Torres, da Gerdau: líderes discutem o papel do aço reciclado e da circularidade no futuro da indústria brasileira

Marcos Cantarino (Gerdau), Joarez Piccini (Randoncorp) e Pedro Torres, da Gerdau: líderes discutem o papel do aço reciclado e da circularidade no futuro da indústria brasileira

Gabriella Sandoval
Gabriella Sandoval

Editora de projetos especiais

Publicado em 28 de janeiro de 2026 às 18h05.

Última atualização em 29 de janeiro de 2026 às 09h56.

*De Davos, na Suíça

A cadeia do aço vai muito além de altos-fornos, bobinas e estruturas metálicas. Quando organizada sob a lógica da economia circular e da inovação tecnológica, ela se torna um motor estratégico de desenvolvimento econômico, social e ambiental.

Foi esse o mote do painel “Da reciclagem ao desenvolvimento de produtos tecnológicos — a cadeia do aço como uma indústria estratégica para o desenvolvimento do Brasil”, que reuniu executivos da Gerdau e da Randoncorp na Brazil House durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça.

Ao longo do debate, ficou claro que o impacto do setor não se limita à redução de emissões. Ele passa pela geração de empregos formais, pelo fortalecimento da indústria nacional, pela eficiência energética e pela criação de soluções tecnológicas capazes de transformar cadeias inteiras — da construção civil ao transporte pesado.

Reciclagem como pilar industrial

Na Gerdau, a reciclagem se tornou um modelo de negócio. A empresa opera hoje como a maior recicladora da América do Sul, com processos produtivos baseados majoritariamente no reaproveitamento de sucata metálica — uma escolha que reduz drasticamente as emissões de carbono quando comparada à produção tradicional com minério de ferro e carvão.

“Hoje, quando produzimos aço a partir de sucata, emitimos cerca de 500 quilos de CO₂ por tonelada. No processo tradicional, esse número pode chegar a duas toneladas”, afirmou Marcos Cantarino, gerente de Relações Institucionais da Gerdau. “Isso faz toda a diferença do ponto de vista climático e energético.”

A estratégia envolve acordos com a indústria automotiva, coleta de sucata pós-consumo e parcerias com governos estaduais — como em Pernambuco, onde o aço reciclado já tem aplicação direta na construção civil.

A Randoncorp transforma aço em reboques, semirreboques, sistemas de suspensão e freios

Impacto que também é social

Para além dos ganhos ambientais, o painel reforçou que a cadeia do aço sustenta um ecossistema econômico de grande escala. São milhares de empresas, milhões de toneladas processadas e um volume expressivo de empregos diretos e indiretos.

“O impacto dessa indústria não é apenas ambiental. Ele é profundamente social, porque estamos falando de empregos formais, renda e qualidade de vida para milhões de pessoas”, destacou Pedro Torres, diretor global de Comunicação Corporativa, Relações Institucionais e Sustentabilidade da Gerdau. “O aço está na base do desenvolvimento de um país.”

Circularidade na prática

Na Randoncorp, a circularidade ganha forma concreta na linha de produção. A empresa transforma aço em reboques, semirreboques, sistemas de suspensão e freios — e devolve ao sistema a sucata premium gerada nesse processo, fechando o ciclo industrial.

A Gerdau opera hoje como a maior recicladora da América do Sul, com processos baseados no reaproveitamento de sucata metálica

“Compramos o aço, transformamos em produto e devolvemos a sucata de alta qualidade para a cadeia. Isso é circularidade real, não conceito abstrato”, afirmou Joarez Piccini, diretor de Relações Institucionais da Randoncorp e presidente do Conselho do Banco Randon.

Segundo ele, a eficiência do corte, o uso máximo do material e a redução de desperdícios são decisões orientadas por tecnologia. E a inovação vai além do processo: uma das cinco verticais da empresa é dedicada ao desenvolvimento tecnológico, com destaque para o uso de minerais como o nióbio em escala nanométrica.

“Ao reduzir esses minerais em partículas muito pequenas, conseguimos produzir caminhões e trailers mais leves, mais eficientes e com menor impacto ambiental e econômico ao longo de toda a vida útil”, explicou Piccini.

Energia, inovação e competitividade

Outro ponto central do debate foi o uso de energia renovável na produção do aço. A Gerdau já combina sucata metálica com carvão vegetal de florestas plantadas e eletricidade de fontes renováveis — em alguns casos, com até 80% da matriz energética limpa.

“Não se trata apenas de emitir menos. Em algumas operações, conseguimos capturar carbono ao longo do processo, o que muda completamente a lógica ambiental da produção industrial”, disse Marcos Cantarino.

O resultado dessa equação — reciclagem, energia limpa e inovação — é um aço mais competitivo, alinhado às exigências globais de rastreabilidade, passaporte digital de produto e redução de emissões, especialmente no mercado europeu.

A mensagem final do painel foi de que quando a cadeia do aço investe em tecnologia, governança e circularidade, ela deixa de ser apenas uma indústria de base e passa a atuar como alavanca estratégica para o desenvolvimento sustentável do Brasil.

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