Como seria o Brasil pós-Levy?

A ideia de que uma eventual saída de Joaquim Levy da Fazenda não seria uma surpresa nem geraria forte impacto está sendo contrariada pela reação do mercado

A ideia de que uma eventual saída de Joaquim Levy da Fazenda não seria uma surpresa nem geraria forte impacto está sendo contrariada pela reação do mercado.

O dólar chegou a R$ 3,96 e os juros futuros voltam a superar 16% após jornais noticiarem que Levy teria pedido demissão, contrariado com a proposta do governo de uma meta fiscal menor do que ele defendia.

Os mercados, que já abriram pressionados com a notícia sobre o corte da meta e Levy, pioraram após a Fitch anunciar que rebaixou o rating brasileiro para a escala de grau especulativo, seguindo decisão anterior da S&P.

O movimento, contudo, teve vida curta e a alta do dólar perdeu força à tarde, sobretudo após a decisão sem surpresas do Fed nos EUA. Com a deterioração fiscal, tendência é que o Brasil sofra novos rebaixamentos, afundando ainda mais na escala junk, diz Alexandre Schwartsman, sócio gerente da Schwartsman & Associados.

A reação do mercado foi clara, com dólar e juros para cima. Um sinal de que a troca de ministro seria negativa para a economia, independente de quem venha a ser o substituto, diz Schwartsman, ex-diretor do BC que tem sido crítico contumaz da política econômica ao longo do governo Dilma.

Caso Levy realmente deixe o posto, vai ser difícil para o governo encontrar um substituto com perfil semelhante, diz o ex- diretor do BC. “Quem pensa parecido com o Levy, e vendo o que aconteceu com ele, vai encarar?”

O problema maior, diz o economista, é que Dilma não tem convicções sobre as mudanças necessárias para estabilizar a economia. E, quando tenta aprovar mudanças, não tem apoio no Congresso, o que se agrava com a baixa popularidade.

O mercado teme que uma eventual saída de Levy prive o governo de uma figura que tem sido voz praticamente solitária na defesa de uma maior austeridade fiscal.

Em todos os debates envolvendo o orçamento desde o início de sua gestão, Levy esteve do lado da defesa de cortes maiores de gastos e acabou derrotado. “O mercado confia nas propostas do Levy, embora ele não estivesse mostrando força para colocar suas ideias em prática”, diz Italo Abucater, chefe da mesa de câmbio da Icap do Brasil.

A possibilidade de uma virada política que coloque as reformas fiscais na ordem do dia é vista com ceticismo diante da crise política. No caso de Dilma ser afastada e substituída por Michel Temer, haverá um maior otimismo pelas reconhecidas habilidades políticas do vice, que também é presidente do PMDB, diz Schwartsman. Contudo, não vai ser fácil mesmo para Temer obter maioria no Congresso na situação atual, segundo ele.

Carlos Kawall, economista do Banco Safra que dirigiu o Tesouro no governo Lula, afirma que o mercado quer “governabilidade”, independente de quem comande o governo. “Faz muita falta neste momento uma sinalização estrutural”, com governo apontando medidas de curto prazo e reformas estruturais – como da Previdência, desindexação de benefícios sociais do salário mínimo, entre outras.

“Falta estratégia; qual é a estratégia de curto, médio e longo prazo? Não parece estar delineada.”

Sem Levy e sem reformas, o Brasil poderia ter de recorrer a um velho e malfadado truque para fechar o orçamento: a inflação. Deixar a inflação correr um pouco mais, até 12% ou 15%, ajudaria a “comer” parte das despesas, segundo Schwartsman.

Ainda ficaria longe da hiperinflação dos anos 80 e evitaria qualquer risco de calote. Seria, porém, um grande retrocesso na economia, diz o ex-diretor do BC. Para ele, seria jogar fora todo o avanço que o Brasil conseguiu até o período anterior ao Governo Dilma.

–Com a colaboração de Marisa Castellani.

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