Construção Civil, empreendimento, mercado imobiliario, predio - São Paulo Foto: Leandro Fonseca Data: 23/01/2024 (Leandro Fonseca/Exame)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 20 de fevereiro de 2026 às 06h00.
A escalada do cobre no mercado internacional pode começar a refletir nos preços da construção civil no Brasil.
Negociado em torno de US$ 13 mil por tonelada na London Metal Exchange (LME), o metal acumula alta superior a 40% em relação aos cerca de US$ 9 mil observados 12 meses antes.
Segundo os economistas André Braz e Matheus Dias, do FGV IBRE, o movimento já afeta os custos medidos pelo INCC (Índice Nacional de Custos da Construção).
Segundo os autores do estudo, o repasse ocorre de forma relevante, porém gradual. Para cada aumento de 10% no preço internacional do cobre, o item condutores elétricos do INCC acumula alta de aproximadamente 5,6% ao longo de vários meses[/grifar].
Nos primeiros meses após o choque, o impacto estimado é de 0,7%, o equivalente à cerca de 12% do efeito total projetado.
O estudo registra que o cobre passou a operar em níveis historicamente elevados por razões distintas das observadas em metais preciosos, como ouro e prata.
Segundo os economistas, ouro e prata avançaram em meio a incertezas geopolíticas, persistência inflacionária e políticas monetárias mais lenientes nas economias desenvolvidas.
Já o cobre enfrenta restrições estruturais de oferta — sobretudo em países como o Chile, maior produtor global — combinadas com demanda crescente ligada a projetos de infraestrutura, transição tecnológica e inteligência artificial.
Na estrutura do INCC, o cobre aparece majoritariamente na fabricação de condutores elétricos e outros materiais elétricos.
Braz e Dias afirmam que esses produtos estão concentrados no grupo de materiais elétricos, no qual os condutores têm o maior peso. Por isso, oscilações no preço internacional tendem a se propagar para esse conjunto de itens.
A análise considerou dados mensais de 2005 a 2025, relacionando o preço do cobre na LME, a taxa de câmbio e o nível de atividade industrial ao comportamento do item condutores elétricos no INCC.
Segundo os economistas, variáveis adicionais — como indicadores diretos da atividade chinesa ou da política monetária doméstica — não acrescentaram poder explicativo relevante ao modelo quando já considerados o preço do metal e o câmbio.
Isso indica, de acordo com o estudo, que o principal canal de transmissão ocorre pela combinação entre preço do cobre em dólar e taxa de câmbio.
Os autores afirmam que o repasse do cobre é incompleto e pode levar mais de um ano para se materializar integralmente.
Entre os fatores citados estão contratos de médio e longo prazo entre construtoras e fornecedores, mecanismos de reajuste espaçados e a possibilidade de absorção temporária de custos por fabricantes.
O câmbio exerce papel central nesse processo. Segundo as estimativas apresentadas, cada desvalorização de 10% do real acrescenta cerca de 9,4% ao INCC de condutores elétricos no longo prazo.
Nos primeiros meses, o impacto estimado é de 1,1%, com ampliação gradual ao longo do tempo.
De acordo com o estudo, o elevado repasse cambial decorre da dependência externa da indústria.
O cobre é cotado em dólar, parte relevante do consumo doméstico é suprida por importações e diversos insumos químicos utilizados no isolamento de cabos são adquiridos no exterior. Além disso, contratos ao longo da cadeia produtiva incorporam cláusulas de reajuste cambial.
Os economistas também apontam que a atividade econômica adiciona pressão moderada. Para cada aumento de 1 ponto percentual no nível de utilização da capacidade instalada (NUCI) da indústria de transformação, os preços dos condutores elétricos sobem cerca de 1,8% ao longo do ciclo.
Em um cenário de elevação do NUCI de 78% para 85%, o impacto acumulado poderia chegar a 12,6% em período superior a um ano e meio, segundo as estimativas.
O SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo) também monitora o movimento. Segundo Eduardo Zaidan, vice-presidente de Economia da entidade, o cobre representa hoje entre 2% e 3% do custo total da obra, percentual inferior ao do aço, que pode alcançar cerca de 10%.
“O cobre é um insumo importante para a construção civil, embora não esteja entre os itens de maior peso direto na estrutura de custos. Hoje, ele representa algo em torno de 2% a 3% do custo total da obra, diferente do aço, por exemplo, que pode chegar a 10%”, afirma em nota enviada à EXAME.
De acordo com Zaidan, mesmo não sendo o item mais representativo individualmente, oscilações relevantes tendem a gerar impactos porque o metal está presente em diversas etapas e sistemas da construção. Ele cita uso em instalações elétricas, motores, elevadores, bombas, tubos e conexões hidráulicas, além de ligas metálicas empregadas em diferentes materiais.
O dirigente também ressalta que o cobre é cotado em dólar na LME, o que torna necessário considerar, além do preço internacional, o comportamento do câmbio. Segundo ele, o SindusCon-SP acompanha a movimentação para avaliar possíveis desdobramentos sobre os custos da construção e os índices setoriais.