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Esta família vendia produtos de R$ 1,99. Hoje fatura bilhões no litoral mais caro do Brasil

Empresa já entregou 15 empreendimentos, soma 957 unidades e cerca de 170 mil metros quadrados construídos

Charles e Carlos Kan, da CK Construtora: “Quem vem do zero sabe o valor da palavra. A gente honra o que promete" (Construtora CK/Divulgação)

Charles e Carlos Kan, da CK Construtora: “Quem vem do zero sabe o valor da palavra. A gente honra o que promete" (Construtora CK/Divulgação)

Daniel Giussani
Daniel Giussani

Repórter de Negócios

Publicado em 21 de fevereiro de 2026 às 10h00.

No litoral mais caro do Brasil, uma família de origem chinesa usa os aprendizados da época em que vendia produtos a R$ 1,99 para faturar bilhões com construção civil.

A família é dona da Construtora CK, criada há 15 anos por Charles Kan, hoje com 35 anos, e com atuação em Itajaí, Navegantes e Balneário Camboriú, no litoral norte de Santa Catarina — região que concentra alguns dos metros quadrados mais valorizados do país.

A empresa já entregou 15 empreendimentos, soma 957 unidades e cerca de 170 mil metros quadrados construídos. O VGV, valor geral de vendas, acumulado ultrapassa bilhões.

Agora, a CK prepara um novo ciclo de crescimento: tem três obras em andamento, dois lançamentos previstos para 2026 e projetos para lançar mais de 2,3 bilhões de reais nos próximos anos.

Tudo isso em um mercado pressionado por juros altos, competição crescente e a presença de aventureiros que surfam o boom imobiliário da região.

“Não existe segunda chance para quem é empreendedor. Se um empresário erra, isso fica marcado em sua trajetória. O prejuízo passa, mas o nome não”, afirma Charles Kan.

O plano para os próximos cinco anos é crescer mantendo o foco em governança, auditoria e produtos mais compactos, voltados a um novo perfil de consumidor que quer morar ou investir perto do mar, mas com tíquete mais ajustado e infraestrutura completa dentro do condomínio.

Qual é a história da família e da CK

A história começa na China, nas décadas de 60 e 70.

O pai de Charles, Carlos, deixou o país ainda jovem. Chegou ao Brasil sem falar português. Trabalhou em pastelaria, restaurante e pequenos negócios até encontrar uma virada na importação.

Nos anos 1990, o país viveu a febre das lojas de 1,99. Produtos baratos, giro rápido, margem apertada e escala. Foi ali que a família consolidou capital.

“Era outra época. Hoje, com um aparelhinho na mão, você fala direto com a fábrica do outro lado do mundo. Na época, quem tinha fornecedor e logística na mão tinha o diferencial”, diz Charles.

A empresa importava produtos para abastecer o atacarejo de 1,99 e também exportava itens brasileiros para a China, incluindo frutos do mar. Foi essa operação que levou a família a Santa Catarina. Navegantes, onde seria construído o Porto Navegantes, virou base estratégica.

A construção civil entrou quase como renda complementar.

Empresários locais buscavam investidores para prédios de pequeno porte. O mercado ainda era artesanal. Poucas construtoras, poucas imobiliárias. Ciclo lento.

“O ciclo da construção civil é longo. Do terreno até vender o último apartamento, estamos falando de cinco anos”, afirma.

O pai começou investindo em empreendimentos de terceiros. Charles, já na segunda geração, decidiu estruturar a própria operação. Fundou a CK aos 19 anos. O primeiro prédio foi em Navegantes. Pequeno porte. Depois outro. E mais um.

A disciplina do 1,99 — controle de caixa, margem apertada, eficiência logística — virou método de gestão na obra. A cultura familiar também virou diferencial.

“Quem vem do zero sabe o valor da palavra. A gente honra o que promete. Não é da nossa índole abandonar obra ou dar calote”, diz.

A empresa cresceu em cima desse discurso. Hoje emprega cerca de 250 funcionários diretos, mantém balanços auditados e estrutura canais de acompanhamento de obra para clientes. Transparência virou ativo.

Em uma região onde surgem incorporadoras a cada novo ciclo de alta, Charles faz um alerta:

“Construção civil, assim como qualquer mercado, tem aventureiros. Quando alguém promete muito fora da curva, desconfie. Não existe bilhete premiado.”

Como está o mercado no litoral de SC

Itajaí, Balneário Camboriú, Praia Brava e Itapema formam um eixo de até 30 quilômetros que se transformou em vitrine nacional do mercado imobiliário.

Em poucos anos, a região deixou de ser vista como interior e passou a concentrar empreendimentos de alto padrão e investidores de todo o país.

“A valorização aqui foi exponencial. Em ciclos de dois a três anos, vimos imóveis valorizarem mais de 50%”, afirma Charles.

Ele reconhece que haverá desaceleração em algum momento, mas aposta que a região continuará acima da média nacional, puxada por turismo, gastronomia, segurança e fluxo constante de novos compradores.

A CK já entregou cerca de mil unidades residenciais e mantém três obras em andamento, incluindo projetos na Praia Brava. Em andamento e futuros lançamentos, soma aproximadamente 180 mil metros quadrados entre estoque e pipeline.

O foco atual é adaptar produto ao comportamento do cliente. O modelo tradicional de apartamentos grandes perdeu força. Entram em cena os compactos e os condomínios com estrutura de clube, os chamados home club, empreendimentos com áreas comuns amplas e serviços compartilhados.

“O perfil do consumidor mudou. Hoje o cliente quer academia, piscina, salão de festas, espaço wellness dentro do prédio. Ele não quer sair para resolver tudo fora”, diz.

Quais são os próximos passos

Para os próximos anos, a meta é lançar mais de 2,3 bilhões de reais em novos empreendimentos.

A estratégia passa por três pilares: manter governança, controlar o ritmo de crescimento e ajustar o mix de produto.

Charles diz que não há vaidade no tipo de projeto. A empresa pode atuar do médio ao alto padrão, dependendo do sinal do mercado.

“A CK tenta se posicionar onde o mercado dá sinais. Hoje os compactos têm mais aderência. É onde estamos investindo”, afirma.

O desafio é claro. O ciclo é longo. Juros elevados pressionam financiamento. O número de concorrentes cresceu. E o consumidor está mais atento.

Ao mesmo tempo, a construção civil segue vista como porto seguro em momentos de volatilidade.

“O brasileiro aprendeu a fazer poupança em tijolo. Pode não ser o investimento mais agressivo, mas é conservador. E isso pesa”, diz.

De um negócio de giro rápido e produtos de 1,99, a família aprendeu a importância de escala, margem e controle. Na construção, aplicou paciência e reputação.

“Nosso papel é continuar entregando o que prometemos: prédios, empregos, credibilidade. O resto é consequência”, afirma.

No litoral mais caro do Brasil, a estratégia não é apostar no improviso. É repetir, obra após obra, a mesma lógica que começou no varejo popular: disciplina, controle e palavra cumprida.

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