Economia

CNI entrega a Alckmin propostas para subsidiar negociação com EUA sobre tarifas

Entre as propostas apresentadas por Ricardo Alban, presidente da confederação, destaca-se a suspensão temporária das taxações aos produtos brasileiros

Geraldo Alckmin: vice-presidente do Brasil está envolvido nas negociações com os EUA sobre as tarifas de importação (Leandro Fonseca/Exame)

Geraldo Alckmin: vice-presidente do Brasil está envolvido nas negociações com os EUA sobre as tarifas de importação (Leandro Fonseca/Exame)

Mateus Omena
Mateus Omena

Repórter

Publicado em 6 de novembro de 2025 às 20h56.

Última atualização em 6 de novembro de 2025 às 21h33.

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O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, apresentou ao vice-presidente, Geraldo Alckmin, propostas para subsidiar o governo federal nas negociações com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre as tarifas de importação dos produtos brasileiros.

O encontro de Alban com o também ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços ocorreu nesta quinta-feira, 6, para a discussão de estratégias. Alban apresentou dados e contribuições feitas com o apoio de empresas de diversos setores.

Entre os pontos apresentados pela CNI estão:

  • Suspensão temporária das tarifas adicionais impostas aos produtos brasileiros;
  • Criação de um mecanismo institucional de diálogo comercial de alto nível
  • Eliminação da bitributação
  • Estímulo a alianças tecnológicas
  • Investimentos bilaterais em áreas estratégicas como energia, minerais críticos, saúde, infraestrutura digital e inovação.

“É muito importante a participação da iniciativa privada junto ao governo para resolver a questão tarifária com os Estados Unidos. Agradeço ao presidente Ricardo Alban e à CNI pela contribuição técnica e pelo trabalho profundo, que vai ajudar muito nesse diálogo", declarou Alckmin.

O vice-presidente também enfatizou que o governo tem grandes expectativas para as próximas negociações com os Estados Unidos. O último encontro entre Lula e Trump ocorreu em outubro, na Malásia.

"O presidente Lula solicitou ao presidente Trump que suspenda a tarifa adicional de 40% enquanto durarem as negociações, e estamos otimistas com os próximos passos”, acrescentou.

Para o presidente da CNI, a revogação temporária das alíquotas representaria um grande alívio aos exportadores.

“A suspensão das tarifas, enquanto se negocia uma solução definitiva, é um gesto de maturidade comercial — algo que os próprios Estados Unidos já fizeram com outros parceiros. Essa agenda é essencial para setores que não conseguem compensar facilmente a perda de competitividade externa, como máquinas, equipamentos, madeiras e produtos naturais como a cera de carnaúba”, explicou Alban.

“Acreditamos que, tão logo essa mesa de negociação se consolide, teremos boas notícias a anunciar, possivelmente ainda neste mês”, declarou.

Apesar das negociações ainda estarem em fase embrionária, Alckmin reforçou que o Brasil já conta com vários resultados positivos em diversos setores.

“Nos últimos dois meses, já tivemos a retirada da tarifa sobre a celulose e o ferroníquel, que agora têm alíquota zero. Isso representa 4% das exportações brasileiras aos EUA. Também houve redução de tarifas sobre madeira e alguns tipos de móveis, o que nos devolve competitividade. O importante agora é avançar rápido, com diálogo e negociação, como tem orientado o presidente Lula”.

Como foi o encontro de Lula e Trump?

Os presidentes Lula e Donald Trump tiveram uma reunião presencial em Kuala Lumpur, na Malásia, em 26 de outubro. Os dois líderes afirmaram que há espaço para acordos para reduzir a tarifa de 50%, imposta pelos EUA a produtos brasileiros em agosto, bem como buscar acordos em outros temas.

"Tive uma ótima reunião com o presidente Trump. Discutimos, de forma franca e construtiva, a agenda comercial e econômica bilateral. Acertamos que nossas equipes vão se reunir imediatamente para avançar na busca de soluções para as tarifas e as sanções contra as autoridades brasileiras", disse Lula, após o encontro, que durou cerca de 45 minutos.

Os dois viajaram ao país para participar da cúpula da Asean. Antes da reunião, os dois falaram com a imprensa por cerca de dez minutos.

"Acho que seremos capazes de fazer alguns acordos muito bons que temos conversado, e acho que ao final teremos um relacionamento muito bom", disse Trump. "Eles podem oferecer muito e nós podemos oferecer muito."

Perguntado se reduziria as tarifas ao Brasil, ele disse que os dois presidentes "estariam discutindo isso por pouco tempo. Conhecemos um ao outro. Sabemos o que o outro quer".

Trump também foi questionado se falaria sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro na reunião. Ele respondeu "não é da sua conta".

"Eu sempre gostei dele. Me sinto mal pelo que aconteceu a ele. Sempre pensei que ele era honesto (straight-shooter), mas ele passou por muita coisa", afirmou Trump, sobre Bolsonaro.

Os presidentes Donald Trump e Lula, durante reunião na Malásia, em 26 de outubro (Ricardo Stuckert/PR)

Tarifaço dos EUA aos produtos do Brasil

No final de julho, Donald Trump assinou uma ordem executiva que oficializa a tarifa de importação de 50% sobre os produtos brasileiros.

A medida, no entanto, isenta uma série de produtos que o Brasil exporta aos EUA, incluindo suco de laranja, minérios, aeronaves e petróleo. A lista completa soma cerca de 700 itens.

Ao mesmo tempo, a taxa incide sobre outros itens importantes da pauta de exportações brasileiras, como a carne e o café, o que poderá inviabilizar exportações brasileiras.

A ordem coloca 40% adicionais de tarifas sobre a taxa de 10% anunciada em abril, adotada para todos os países, somando 50%. Assim, os itens isentos agora ficarão com tarifa de 10%.

Como justificativa, o governo americano disse que a medida é uma "resposta a políticas, práticas e ações recentes do Governo do Brasil que constituem uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos", disse a Casa Branca, em comunicado.

"O presidente Trump está defendendo empresas americanas contra extorsão, protegendo cidadãos americanos da perseguição política, salvaguardando a liberdade de expressão nos EUA contra a censura e salvando a economia americana de estar sujeita aos decretos arbitrários de um juiz estrangeiro tirânico", diz a nota.

Por que Trump aplicou tarifas ao Brasil?

Em 9 de julho, Trump havia enviado uma carta pública em que anunciava a medida contra o Brasil.

"Devido, em parte, aos ataques insidiosos do Brasil às eleições livres e aos direitos fundamentais de liberdade de expressão dos americanos (como recentemente ilustrado pelo Supremo Tribunal Federal, que emitiu centenas de ordens de censura SECRETAS e ILEGAIS a plataformas de mídia social dos EUA, ameaçando-as com milhões de dólares em multas e despejo do mercado brasileiro de mídia social), a partir de 1º de agosto de 2025, cobraremos do Brasil uma tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros enviados aos Estados Unidos, separadamente de todas as tarifas setoriais. Mercadorias levadas a outros países para escapar dessa tarifa de 50% estarão sujeitas a essa tarifa mais alta", disse Trump.

Além da tarifa, o presidente americano determinou uma investigação contra o Brasil por práticas comerciais desleais, com base na seção 301. O processo está andamento e deverá ser concluído nos próximos meses. Por meio dele, o Brasil poderá sofrer punições comerciais adicionais.

Desde então o governo brasileiro buscou negociar a nova tarifa com os Estados Unidos, mas não obteve sucesso. Apesar disso, membros do governo Lula avaliam que o espaço para negociações permanece aberto.

A nova taxa poderá inviabilizar a exportação de produtos brasileiros para os EUA, como a carne e o suco de laranja.

Fluxo comercial entre Brasil e Estados Unidos

No tarifaço anunciado em abril, o Brasil havia ficado na categoria mais baixa, de 10% de taxas extras. Os EUA possuem superávit comercial com o Brasil. Ou seja: vendem mais produtos para cá do que os brasileiros enviam para os americanos.

No primeiro trimestre de 2025, os dois países trocaram US$ 20 bilhões em mercadorias, sendo que os EUA tiveram superavit de US$ 653 milhões, segundo dados da plataforma Comexstat, do governo brasileiro.

Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial brasileiro, atrás da China. Os principais produtos exportados pelo Brasil para os EUA no ano passado foram:

  • Óleos brutos de petróleo;
  • Produtos semi-acabados de ferro ou aço;
  • Aeronaves e suas partes;
  • Café não torrado;
  • Ferro-gusa, e ferro-ligas;
  • Óleos combustíveis de petróleo;
  • Celulose;
  • Equipamentos de engenharia civil;
  • Sucos de frutas ou de vegetais;
  • Carne bovina.
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