Diabetes: tirzepatida pode reduzir risco de doença ocular (GettyImages)
Colaboradora
Publicado em 27 de fevereiro de 2026 às 09h18.
Medicamentos para perda de peso que contêm tirzepatida, como Mounjaro e Zepbound, podem reduzir o risco de retinopatia diabética em pessoas com diabetes tipo 2. É o que indica estudo publicado na revista Ophthalmology e divulgado pelo Healthline.
A retinopatia diabética ocorre quando os níveis elevados de açúcar no sangue danificam os vasos sanguíneos da retina, na parte de trás do olho. O diabetes também aumenta o risco de outras complicações nos olhos, como catarata, glaucoma e edema macular.
Pesquisadores analisaram prontuários eletrônicos de 174 mil pessoas em 70 sistemas de saúde nos Estados Unidos e compararam pacientes com diabetes tipo 2 e problemas de controle de peso que iniciaram tirzepatida com indivíduos semelhantes que adotaram um estilo de vida mais saudável, a partir da alimentação e exercícios.
Após um ano, a incidência de retinopatia diabética não proliferativa leve foi de 0,49% entre usuários de tirzepatida, contra 1,2% no grupo que seguiu apenas mudanças no estilo de vida.
"Com base nas descobertas obtidas a partir de um grande banco de dados de pacientes em múltiplas práticas clínicas, aqueles com retinopatia diabética podem estar menos preocupados de que tomar tirzepatida vá piorar sua condição", disse ao Healthline Szilard Kiss, oftalmologista do NewYork-Presbyterian/Weill Cornell Medical Center e autor principal do estudo.
"As descobertas sugerem que eles podem ter um risco reduzido de necessitar de mais tratamentos oculares com laser ou injeções, que normalmente são necessários quando a retinopatia se torna grave", acrescentou Kiss.
Pesquisas anteriores indicaram que medicamentos como Ozempic e Wegovy, que contêm semaglutida, poderiam piorar a retinopatia diabética. Segundo os pesquisadores, esses efeitos negativos foram de curto prazo e não houve associação de longo prazo com progressão da doença ao longo de três anos.
Benjamin Bert, oftalmologista do MemorialCare Orange Coast Medical Center, em Fountain Valley (CA), não participou do estudo. Ele afirmou ao Healthline que pode haver uma explicação simples para os efeitos distintos entre os dois tipos de medicamentos: ambos imitam o hormônio natural GLP-1, que diminui o apetite e ajuda a controlar os níveis de açúcar no sangue.
Adrian Au, oftalmologista da UCLA Health, em Los Angeles, que também não participou do estudo, concordou que a redução dos níveis de açúcar no sangue é fator-chave na retinopatia diabética. Mas ele ainda alerta para riscos de curto prazo.
"A preocupação com a semaglutida está em grande parte relacionada às quedas no açúcar no sangue, que podem piorar temporariamente a retinopatia em pessoas que já têm doença avançada", disse Au. "É provável ter mais a ver com a rapidez com que a glicose melhora do que com um efeito prejudicial do medicamento", disse.
A tirzepatida imita o hormônio GLP-1, logo, ela leva ao que os autores do estudo descreveram como "maiores melhorias na sensibilidade à insulina, perda de peso e inflamação metabólica". Ainda assim, Au alertou que os resultados são preliminares. "São dados observacionais, então mostram associação, não prova de causa e efeito", disse.
A retinopatia diabética é a causa mais comum de cegueira evitável nos Estados Unidos, segundo a American Diabetes Association. Um estudo de 2021 publicado na JAMA Ophthalmology estimou que quase 10 milhões de estadunidenses têm a condição e que quase 2 milhões tinham risco de perda de visão. A prevalência deve aumentar nas próximas décadas, proporcionalmente aos casos de diabetes.
A condição tem quatro estágios, de leve a proliferativo, e geralmente afeta os dois olhos. Nos estágios iniciais, é incomum apresentar sintomas. Quando ocorrem, incluem moscas volantes ou manchas escuras na visão, dificuldade para enxergar à noite, visão embaçada e dificuldade para distinguir cores.
Os tratamentos — que podem ser via injeções, laser e cirurgia — se baseiam no controle do açúcar no sangue e na saúde geral do paciente. Colírios até podem ser prescritos para aliviar sintomas, mas não tratam o dano nos vasos sanguíneos.
De acordo com o Dr. Bert, todas as pessoas com diabetes tipo 2 devem fazer exame ocular com dilatação uma vez por ano e procurar um oftalmologista imediatamente se perceberem mudança repentina na visão.
Au concordou que a melhor forma de preservar a saúde da retina é por meio de exames regulares e do cuidado com a saúde no geral. "Controle o açúcar no sangue, a pressão arterial e o colesterol e faça exames oculares regulares com dilatação", orientou. "Ao iniciar um medicamento potente para reduzir a glicose, especialmente com retinopatia diabética pré-existente, considere um monitoramento ocular mais próximo no curto prazo durante os primeiros meses de tratamento."