O material também lança luz sobre práticas medievais de reaproveitamento de livros (Damianos Kasotakis (Universidade Glasgow))
Repórter
Publicado em 30 de abril de 2026 às 19h09.
Pesquisadores conseguiram reconstruir dezenas de páginas desaparecidas de um antigo manuscrito cristão, em um avanço que evidencia o papel da tecnologia na recuperação de documentos históricos considerados perdidos.
Segundo o site Aventuras na História, o estudo é centrado no chamado Codex H, um dos mais relevantes registros antigos do Novo Testamento.
Datado do século VI, o manuscrito reúne trechos das cartas de São Paulo e teve um destino comum a muitos livros na Idade Média. No século XIII, monges do Mosteiro da Grande Lavra desmembraram o códice e reutilizaram suas páginas como material de encadernação para outros volumes. Nesse processo, os textos originais foram apagados e substituídos por novas escritas.
Por séculos, acreditou-se que grande parte desse conteúdo havia se perdido de forma definitiva. No entanto, uma equipe liderada pelo pesquisador Garrick Allen conseguiu recuperar aproximadamente 42 páginas do manuscrito sem a necessidade de localizar novos fragmentos físicos.
A reconstrução foi possível graças ao uso de imagens multiespectrais, técnica que permite fotografar o material sob diferentes comprimentos de onda de luz. O método revelou marcas quase imperceptíveis deixadas pelo processo de reescrita. Quando o texto original foi sobrescrito, a tinta mais recente provocou um efeito de “espelhamento” nas páginas vizinhas, preservando vestígios das palavras anteriores.
Segundo o Aventuras na História, esses vestígios, conhecidos como “texto fantasma”, puderam ser identificados e reconstruídos digitalmente, possibilitando a recuperação de conteúdo que já não existe mais de forma física. Testes de datação por carbono também confirmaram a antiguidade do material, reforçando sua relevância histórica.
Embora os trechos recuperados não apresentem textos até então desconhecidos — por corresponderem a passagens já conhecidas das cartas paulinas —, a descoberta tem importância significativa por outro motivo. Ela oferece uma visão detalhada sobre a forma como os textos bíblicos eram organizados, copiados e utilizados na Antiguidade.
Os fragmentos revelam, por exemplo, sistemas antigos de divisão de capítulos diferentes dos atuais, além de correções feitas por escribas e indícios de uso cotidiano do manuscrito. O material também lança luz sobre práticas medievais de reaproveitamento de livros, comuns em um período em que o pergaminho era um recurso escasso e valioso.
Atualmente, os fragmentos físicos do Codex H estão distribuídos por bibliotecas de diversos países, como Itália, França e Rússia. A reconstrução digital funciona, assim, como uma espécie de “reunião virtual” dessas partes dispersas, permitindo aos estudiosos acesso a uma versão mais próxima da forma original do manuscrito.