Ciência

SpaceX quer 1 milhão de satélites no espaço — e isso preocupa cientistas

Especialistas alertam para risco de colisões, poluição luminosa e mudanças permanentes na órbita da Terra

 (Space X/Divulgação)

(Space X/Divulgação)

Publicado em 23 de fevereiro de 2026 às 10h52.

A órbita da Terra pode enfrentar uma transformação profunda diante da expansão acelerada das megaconstelações de satélites, de acordo com informações do The Conversation Brasil. No mês passado, a SpaceX apresentou à Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC) um pedido para lançar até 1 milhão de satélites destinados a operar centros de dados no espaço.

Atualmente, cerca de 14 mil satélites ativos estão em operação ao redor do planeta. Paralelamente, mais de 1,2 milhão de novos projetos encontram-se em diferentes fases de desenvolvimento. A maioria desses equipamentos opera na baixa órbita da Terra, entre 500 e 2.000 quilômetros de altitude, com vida útil média de cinco anos — o que exige substituições constantes e amplia a presença contínua de estruturas artificiais no espaço.

Impacto da expansão da SpaceX no céu noturno

O aumento expressivo do número de satélites modifica de forma permanente o céu noturno. Esses objetos refletem a luz solar após o pôr do sol e antes do amanhecer, aparecendo como pontos luminosos em movimento. Projeções científicas indicam que, com o crescimento das megaconstelações, uma parcela significativa dos pontos visíveis no céu poderá ser composta por satélites artificiais.

Além da poluição luminosa, especialistas alertam para impactos diretos na astronomia profissional e amadora. Reflexos da luz solar e emissões de rádio das megaconstelações interferem em telescópios ópticos e radiotelescópios, prejudicando observações científicas na baixa órbita da Terra e comprometendo pesquisas de longo prazo sobre o Universo.

A expansão acelerada dessas redes privadas intensifica a chamada industrialização da órbita terrestre, alterando um ambiente que historicamente permaneceu relativamente preservado.

Risco de colisões na baixa órbita da Terra

O aumento da densidade orbital também eleva o risco de acidentes. Estima-se que existam cerca de 50 mil fragmentos de detritos espaciais com mais de dez centímetros circulando ao redor do planeta. A chamada síndrome de Kessler descreve um cenário em que colisões sucessivas geram uma reação em cadeia, tornando determinadas regiões da órbita inutilizáveis.

Sem um sistema global unificado de gerenciamento de tráfego espacial, o controle desse ambiente torna-se cada vez mais complexo. Estudos recentes indicam que, sem manobras constantes de desvio, a frequência de grandes colisões pode aumentar de forma significativa.

Impacto ambiental da queima de satélites

Os impactos não se restringem ao espaço. Lançamentos frequentes de foguetes consomem grandes quantidades de combustíveis e podem afetar a camada de ozônio. Ao final da vida útil, muitos satélites são desintegrados na atmosfera, liberando partículas metálicas na estratosfera — um processo cujos efeitos químicos ainda estão sendo avaliados.

Especialistas também destacam possíveis impactos cumulativos na composição atmosférica e no equilíbrio ambiental, sobretudo com o crescimento contínuo das megaconstelações.

Desafios regulatórios e governança espacial

A regulamentação atual concentra-se principalmente em aspectos técnicos, como uso de frequências de rádio e segurança de lançamento. Questões culturais, ambientais e científicas ainda ocupam um espaço limitado nas avaliações formais.

Pelo direito espacial internacional, os países são responsáveis pelos objetos lançados ao espaço, mesmo quando operados por empresas privadas. Com o avanço de projetos de larga escala, cresce a pressão por mecanismos mais robustos de governança global e avaliações de impacto mais amplas.

Com isso, a órbita da Terra já está passando por mudanças estruturais. O desafio agora é equilibrar inovação tecnológica, conectividade global e preservação ambiental antes que o crescimento acelerado se torne irreversível.

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