Fauja Singh, o homem mais velho do mundo a completar uma maratona (Getty Images)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 6 de janeiro de 2026 às 18h59.
A imortalidade é uma ideia que atrai a atenção humana há milênios.
Na obra literária mais antiga do mundo, o Épico de Gilgamesh, escrito no século XXI A.C. na Mesopotâmia, o protagonista embarca em uma aventura épica para desafiar a ordem natural e viver infinitamente. Assim como no clássico mesopotâmico, ninguém na história conseguiu fugir para sempre da própria morte. O mais próximo que os seres humanos chegaram desse objetivo foi o prolongamento da própria vida para além dos 100 anos.
Seguindo a tradição milenar, assim como Gilgamesh buscou a imortalidade, muitos buscam atualmente a fórmula secreta para a longevidade. Vários protocolos já foram propostos, como a Dieta Mediterrânea, a diminuição do stress e, em casos mais extremos como o do bilionário Bryan Johnson, numerosos procedimentos médicos.
No entanto, de acordo com um estudo publicado nesta terça-feira, 6, por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), a resposta pode estar nos genes. Ou seja, a capacidade de alguém adiar a própria morte pode ser determinada antes mesmo dessa pessoa nascer.
A revisão científica foi conduzida por Mateus V. de Castro, Monize V.R. Silva, João Paulo L.F. Guilherme e Mayana Zatz, pesquisadores do Centro de Pesquisa do Genoma Humano e Células-Tronco da USP, e pulicada na revista Genomic Psychiatry.
Pessoas que ultrapassam os 110 anos de idade, classificadas como "supercentenários", representam um grupo extremamente raro e valioso para a ciência do envelhecimento.
Segundo o estudo, esses indivíduos apresentam uma capacidade singular de adiar ou até evitar doenças comuns da velhice, como câncer, demência e enfermidades cardiovasculares.
Essa resistência faz dos "supercentenários" um modelo de envelhecimento bem-sucedido, permitindo investigar fatores biológicos que sustentam a funcionalidade do organismo ao longo de mais de um século de vida, conforme descrito no artigo científico.
O estudo aponta que, diferentemente do padrão observado na população idosa em geral, os "supercentenários" mantêm sistemas celulares essenciais em pleno funcionamento.
Entre eles estão os mecanismos de proteostase (conjunto de processos que controlam a produção, o dobramento e a eliminação de proteínas) e a autofagia (sistema de “reciclagem” celular que remove componentes danificados).
Análises mostram que células desses indivíduos preservam níveis de atividade semelhantes aos de pessoas muito mais jovens, o que contribui para a estabilidade celular e para a prevenção de disfunções associadas ao envelhecimento, segundo os pesquisadores.
A revisão destaca que o sistema imunológico é um dos principais pilares da longevidade extrema.
Em vez de um declínio generalizado, os "supercentenários" apresentam uma reorganização funcional da imunidade, com aumento de células T de memória altamente diferenciadas (células de defesa que “lembram” infecções passadas), maior presença de células natural killer (glóbulos brancos especializados em destruir células infectadas ou tumorais) e populações raras de células T CD4⁺ com perfil citotóxico (capazes de eliminar células-alvo).
Essas características indicam uma adaptação eficiente do sistema imune, capaz de manter vigilância contra infecções e células potencialmente malignas mesmo em idades muito avançadas, como mostram os dados analisados.
No campo genético, os pesquisadores identificaram variantes raras em genes ligados à resposta imune, à estabilidade do DNA, à função mitocondrial (relacionada à produção de energia das células) e ao controle epigenético (mecanismos que regulam a ativação dos genes sem alterar o DNA).
Entre eles estão genes associados à apresentação de antígenos (processo pelo qual o sistema imune reconhece agentes invasores) e à homeostase dos linfócitos (equilíbrio e renovação das células de defesa), além de outros relacionados à autofagia, ao reparo de danos genômicos e ao remodelamento da cromatina (organização do DNA dentro da célula).
Em conjunto, essas variantes formam uma arquitetura genética que favorece a resiliência biológica e a manutenção da homeostase sistêmica ao longo da vida, segundo a revisão publicada.
O Brasil ocupa posição estratégica nos estudos sobre longevidade por reunir uma das populações mais geneticamente diversas do mundo, resultado de séculos de miscigenação entre povos indígenas, europeus, africanos e asiáticos.
De acordo com o artigo, essa diversidade aumenta a probabilidade de identificar variantes genéticas protetoras que passam despercebidas em populações mais homogêneas, frequentemente utilizadas como referência em pesquisas internacionais.
Estudos anteriores citados pelos autores identificaram milhões de variantes genômicas ainda não descritas em brasileiros, incluindo alterações raras em genes do sistema imune, fundamentais para a defesa do organismo.
Além disso, o país se destaca no cenário global da longevidade extrema.
Dados de organizações internacionais de validação indicam que o Brasil abriga alguns dos "supercentenários" mais longevos do mundo, inclusive homens, um grupo historicamente menos representado nesse patamar etário.
A revisão foi feita com mais de 100 centenários e cerca de 20 "supercentenários", incluindo casos de indivíduos que mantiveram lucidez (preservação das funções cognitivas) e autonomia funcional em idades avançadíssimas.
Segundo os autores, compreender como genética, imunidade e manutenção celular atuam de forma integrada nesses indivíduos pode orientar o desenvolvimento de estratégias para ampliar o tempo de vida saudável da população em geral.
Mais do que viver mais, os "supercentenários" oferecem pistas concretas sobre como envelhecer com qualidade, autonomia e resiliência biológica.