Saúde mental: cérebro humano evoluiu para priorizar ameaças e riscos, mostra pesquisa (Imagem gerada por IA/EXAME)
Redatora
Publicado em 19 de junho de 2026 às 08h05.
Seu cérebro não foi projetado para acompanhar um fluxo interminável de más notícias. Essa é a conclusão de uma análise publicada pela plataforma acadêmica The Conversation, que reúne evidências de diferentes estudos para explicar por que tantas pessoas se sentem sobrecarregadas ao acompanhar acontecimentos do mundo em tempo real.
Segundo a autora, a psicóloga Ali Jasemi, da Universidade Wilfrid Laurier, no Canadá, o problema não está apenas na quantidade de informação disponível atualmente, mas também na forma como o cérebro humano evoluiu para reagir a ameaças.
Durante grande parte da história humana, prestar atenção a possíveis perigos era uma questão de sobrevivência. Indivíduos capazes de identificar rapidamente ameaças no ambiente tinham mais chances de permanecer vivos e transmitir seus genes às gerações seguintes.
Esse mecanismo deu origem ao chamado viés de negatividade, um fenômeno amplamente estudado pela psicologia que faz com que informações negativas recebam mais atenção e sejam lembradas por mais tempo do que informações positivas.
Segundo a autora, esse comportamento foi útil durante a evolução humana, mas pode gerar problemas em um ambiente onde notícias preocupantes chegam continuamente de todas as partes do mundo.
Ao longo da maior parte da história, as ameaças enfrentadas pelas pessoas eram locais e diretamente relacionadas ao cotidiano. Hoje, porém, o mesmo sistema cerebral é exposto diariamente a guerras, crises econômicas, desastres climáticos e episódios de violência ocorrendo em diferentes países.
A análise destaca que o cérebro humano praticamente não mudou nos últimos milhares de anos, mas o volume de informações disponíveis aumentou de forma sem precedentes.
Como resultado, o organismo pode reagir a acontecimentos distantes como se fossem ameaças imediatas, gerando estresse, ansiedade e sensação de impotência.
Diversos estudos citados pela autora mostram que conteúdos negativos atraem mais atenção do público. Uma pesquisa publicada na revista Nature Human Behaviour, analisou mais de 105 mil manchetes visualizadas quase seis milhões de vezes e concluiu que cada palavra negativa adicional aumentava a probabilidade de clique.
Outras pesquisas apontam que notícias negativas provocam respostas fisiológicas mais intensas do que conteúdos positivos, muitas vezes antes mesmo de a pessoa avaliar conscientemente sua relevância.
Os pesquisadores também descrevem um fenômeno chamado Consumo Problemático de Notícias, caracterizado por preocupação excessiva, sofrimento emocional e prejuízos ao funcionamento diário associados ao acompanhamento constante da informação.
Em sociedades democráticas, o acesso a informações confiáveis continua sendo fundamental para a participação pública e para a compreensão dos acontecimentos.
Segundo a análise, o desafio está em construir uma relação mais saudável com o conteúdo consumido. Entre as estratégias sugeridas estão estabelecer horários específicos para acompanhar notícias, priorizar reportagens aprofundadas em vez de fluxos intermináveis de publicações nas redes sociais e concentrar atenção em informações provenientes de fontes confiáveis.
A autora aponta algumas estratégias que podem ajudar a reduzir a sobrecarga causada pelo excesso de informações: