Copa do Mundo: especialista afirma que pausas para hidratação só são eficazes quando priorizam o resfriamento dos atletas (AFP)
Redatora
Publicado em 7 de julho de 2026 às 08h14.
As pausas para hidratação adotadas na Copa do Mundo de 2026 podem ajudar a reduzir os riscos das altas temperaturas, mas apenas quando são realizadas da forma correta.
De acordo com um artigo publicado na revista Nature, interromper a partida, por si só, não basta, já que o benefício depende do uso de estratégias eficazes de resfriamento e de critérios científicos para definir quando esses intervalos são realmente necessários.
A avaliação é de Harry Brown, pesquisador de pós-doutorado do Centro de Pesquisa sobre Calor e Saúde da Universidade de Sydney, na Austrália. Segundo ele, o uso inadequado dessas interrupções pode fazer uma medida comprovadamente eficaz parecer desnecessária, enfraquecendo uma estratégia importante para proteger atletas expostos ao calor intenso.
Segundo Brown, as pausas para hidratação são eficazes quando têm como objetivo reduzir o estresse térmico e são realizadas apenas em condições que realmente ofereçam risco aos atletas.
As diretrizes médicas da Fifa determinam que essas interrupções devem ser utilizadas quando a temperatura de bulbo úmido e globo — índice que considera temperatura do ar, umidade, radiação solar e vento — ultrapassa 32 °C. O objetivo é prevenir doenças relacionadas ao calor, como a exaustão térmica.
No entanto, o pesquisador afirma que, durante a Copa do Mundo de 2026, as pausas passaram a ocorrer em todas as partidas, inclusive em estádios climatizados, independentemente das condições ambientais. Segundo Brown, em muitos casos elas parecem estar mais associadas a interesses comerciais e à programação das transmissões do que ao risco real de estresse térmico.
Brown baseia essa avaliação em estudos conduzidos por sua equipe, incluindo uma pesquisa publicada no British Journal of Sports Medicine, na qual voluntários simularam partidas de futebol disputadas sob temperatura de 40 °C e umidade de 41%.
Os pesquisadores compararam diferentes estratégias de resfriamento e observaram que pequenas pausas durante a partida, combinadas com toalhas geladas, bebidas frias e um intervalo ligeiramente mais longo, reduziram significativamente a temperatura corporal e a sobrecarga cardiovascular dos participantes.
Por outro lado, interrupções sem qualquer método de resfriamento ativo produziram poucos benefícios mensuráveis. Segundo Brown, não é a pausa em si que protege os atletas, mas a forma como esse tempo é utilizado para reduzir efetivamente a temperatura corporal.
Embora o debate tenha ganhado destaque durante a Copa do Mundo, Brown destaca que os mesmos princípios também se aplicam a trabalhadores expostos às altas temperaturas, como profissionais da construção civil e da agricultura.
De acordo com ele, pesquisas mostram que combinar períodos de descanso, hidratação e estratégias de resfriamento reduz o estresse fisiológico provocado pelo calor. Por isso, Brown defende que grandes competições esportivas têm papel importante na adoção e na divulgação de protocolos baseados em evidências.
O artigo também destaca que algumas modalidades utilizam sistemas mais adaptáveis para lidar com o calor. O Australian Open, por exemplo, adota uma escala de cinco níveis de estresse térmico desenvolvida em parceria com pesquisadores, permitindo desde medidas adicionais de resfriamento até a interrupção das partidas, dependendo das condições ambientais.
Desde 2025, a World Rugby utiliza diretrizes que combinam dados meteorológicos e características individuais dos atletas para definir as medidas de proteção. Segundo Brown, modelos baseados na fisiologia permitem adaptar melhor as estratégias de proteção às condições reais enfrentadas pelos atletas, em vez de depender apenas de limites fixos de temperatura.
No artigo, o pesquisador propõe três medidas para tornar as pausas mais eficazes:
Brown também defende o fortalecimento do monitoramento de doenças relacionadas ao calor. Segundo ele, ampliar a coleta de dados e padronizar os registros ajudaria a dimensionar melhor os impactos das altas temperaturas e orientar políticas públicas e protocolos esportivos.