Repórter
Publicado em 28 de setembro de 2026 às 12h30.
Última atualização em 28 de setembro de 2026 às 14h37.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) acompanha 13 notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (Noia) em pessoas que faziam uso de medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, utilizados no tratamento de diabetes e obesidade. A condição afeta o nervo óptico e pode provocar perda permanente da visão.
As notificações envolvem pacientes que utilizavam Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Mounjaro. Os três primeiros têm a semaglutida como princípio ativo, enquanto o Mounjaro utiliza a tirzepatida.
Os registros, no entanto, não estabelecem uma relação de causa e efeito entre os medicamentos e a doença. Segundo a Anvisa, os episódios permanecem classificados como suspeitos e passam por acompanhamento para avaliar uma possível associação com os tratamentos.
A Novo Nordisk, fabricante de Ozempic, Wegovy e Rybelsus, afirma que análises de seus ensaios clínicos não identificaram aumento de casos de Noia associado à semaglutida e que mantém a avaliação de benefício e risco dos medicamentos. A Eli Lilly, responsável pelo Mounjaro, informa que monitora dados de segurança relacionados aos seus produtos, inclusive registros oftalmológicos.
O assunto voltou ao debate após pacientes nos Estados Unidos entrarem com processos contra a Novo Nordisk relacionados a casos de perda de visão atribuídos à Noia. As ações foram noticiadas pelo jornal The Wall Street Journal.
Até o momento, os estudos citados não demonstraram que esses medicamentos causam a condição. Uma pesquisa publicada na JAMA Ophthalmology, revista científica da área de oftalmologia, analisou mais de 1,6 mil prontuários e identificou uma associação entre o uso de semaglutida e uma frequência de Noia de quatro a sete vezes maior na comparação com pacientes que receberam outros medicamentos.
Os autores do trabalho apontaram limitações que impedem estabelecer causalidade. Entre elas está a presença, nos pacientes avaliados, de outras condições associadas ao desenvolvimento da neuropatia, como o diabetes.
No Brasil, a Noia passou a constar nas bulas dos medicamentos à base de semaglutida como uma reação adversa muito rara, por determinação da Anvisa, desde junho de 2025.
Os 13 relatos associados aos agonistas de GLP-1 fazem parte de um grupo maior de notificações. Desde 2018, o painel de farmacovigilância da Anvisa contabilizou 24 suspeitas classificadas como neuropatia isquêmica óptica.
Os demais registros estão relacionados a outras categorias de medicamentos, entre elas imunomoduladores, tratamentos contra o câncer, outros antidiabéticos e produtos de uso oftalmológico.
Entre os medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, o Ozempic aparece em cinco notificações. Wegovy tem três registros e Wegovy FlexTouch, dois. Rybelsus aparece em outras duas notificações, enquanto Mounjaro tem uma.
A agência ressalta que os números podem apresentar sobreposição entre os produtos. No sistema, são 12 notificações relacionadas à semaglutida e uma à tirzepatida.
O painel de farmacovigilância, sistema utilizado para acompanhar possíveis eventos adversos associados a medicamentos, reúne informações enviadas por pacientes, profissionais de saúde e empresas farmacêuticas.
Após o recebimento dos relatos, os registros passam por avaliação para identificar se existe uma relação entre o medicamento utilizado e o evento informado. Segundo a Anvisa, os casos permanecem sob investigação.
A Noia ocorre quando há redução ou interrupção do fluxo sanguíneo nos pequenos vasos responsáveis por irrigar a parte anterior do nervo óptico, estrutura que transmite ao cérebro as informações captadas pelos olhos.
A falta de oxigênio e nutrientes pode provocar a morte de células nervosas. O quadro costuma se manifestar por meio de uma piora repentina da visão de um dos olhos, geralmente sem dor, e pode deixar perda visual permanente.
A análise dos relatos também precisa considerar condições preexistentes dos pacientes. O diabetes, uma das doenças tratadas pelos medicamentos analisados, pode afetar o endotélio, camada celular que reveste a parte interna dos vasos sanguíneos.
Essas alterações vasculares podem comprometer a circulação sanguínea e estão relacionadas a complicações que atingem diferentes partes do organismo de pessoas com diabetes, como retina, rins e pés.
O sistema da Anvisa também reúne 74 registros de outras alterações visuais entre usuários dos medicamentos. As notificações aparecem associadas ao Rybelsus, com 22 registros; Wegovy, com 19; Mounjaro, com 17; e Ozempic, com 16.
A visão turva concentra 37 registros. Outros 29 mencionam comprometimento visual. O painel também contém relatos de redução da acuidade visual, perda da visão central, perda súbita da visão e alterações no campo visual.
O número de registros não equivale necessariamente ao total de pacientes, porque uma mesma notificação pode conter mais de um sintoma.
Essas ocorrências também não comprovam que os medicamentos sejam responsáveis pelas alterações relatadas. As queixas visuais podem ter diferentes causas e também podem estar associadas às condições de saúde preexistentes dos pacientes.
A EXAME procurou a Novo Nordisk e Eli Lilly para comentar o caso. Veja a seguir os posicionamentos das companhias.
"A segurança dos pacientes é a principal prioridade da Lilly. Monitoramos, avaliamos e
reportamos ativamente às autoridades regulatórias as informações de segurança
relacionadas a todos os nossos medicamentos. Como parte do nosso processo rotineiro
de revisão de segurança, mantemos discussões contínuas com as autoridades
regulatórias sobre possíveis temas de segurança e continuaremos avaliando os dados,
incluindo quaisquer informações relacionadas a questões oftalmológicas. Se alguém
apresentar efeitos colaterais ao utilizar um medicamento da Lilly, deve conversar com seu
médico ou outro profissional de saúde".
"A segurança dos pacientes é prioridade máxima para a Novo, e levamos muito a sério todos os relatos de eventos adversos. Nos preocupamos profundamente com o bem-estar das pessoas que utilizam nossos medicamentos e colaboramos estreitamente com autoridades de saúde e órgãos reguladores em todo o mundo.
A semaglutida possui um perfil de segurança bem estabelecido, apoiado por robustos programas de desenvolvimento clínico, com exposição pós-comercialização superior a 58 milhões de pacientes-ano em formulações orais e injetáveis para obesidade e diabetes tipo 2 (estudos SUSTAIN, PIONEER, STEP, SELECT, STRIDE, SOUL, FLOW, ESSENCE). A semaglutida tem a maior exposição pós-comercialização entre as terapias baseadas em GLP-1, proporcionando uma experiência substancial em diversas populações de pacientes.
Recomendamos que todos os pacientes mantenham contato próximo com seus profissionais de saúde para diagnósticos corretos, tratamento adequado, orientação contínua e monitoramento cuidadoso".