Bebidas alcoólicas: estudo investigou os efeitos da exposição precoce durante o desenvolvimento cerebral (Freepik)
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Publicado em 28 de setembro de 2026 às 12h09.
O consumo excessivo de álcool durante a adolescência pode interferir no amadurecimento do cérebro e provocar alterações comportamentais que persistem na vida adulta. É o que indicam experimentos realizados com camundongos por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Para a análise, os cientistas simularam episódios recorrentes de consumo intenso de álcool durante diferentes momentos da adolescência dos animais. Na fase adulta, parte deles apresentou maior comportamento de risco, enquanto outros aumentaram o consumo de álcool. Os resultados deram origem a dois artigos científicos, publicados nas revistas Alcohol: Clinical and Experimental Research e Physiology & Behavior.
O cérebro humano ainda passa por importantes mudanças durante a adolescência e o início da vida adulta. Uma das regiões envolvidas nesse processo é o córtex pré-frontal, associado à tomada de decisões e ao controle dos impulsos. Essa e outras áreas relacionadas a essas funções completam seu desenvolvimento por volta dos 25 anos.
Para investigar os efeitos da exposição ao álcool nesse período, os pesquisadores administraram a substância a camundongos durante a adolescência.
Nesses animais, essa fase dura aproximadamente três a quatro semanas. Ela começa depois do desmame, entre o 21º e o 28º dia de vida, e termina por volta do 60º dia.
Cada camundongo recebeu quatro doses de álcool durante a adolescência. O protocolo foi elaborado para reproduzir episódios esporádicos de intoxicação intensa, conhecidos como binge drinking.
Segundo Karina Possa Abrahão, professora do Departamento de Fisiologia da Escola Paulista de Medicina da Unifesp, a proporção corresponderia, em humanos, a aproximadamente duas intoxicações por mês durante toda a adolescência.
Os resultados mudaram de acordo com o momento da adolescência em que ocorreu a exposição e com o sexo dos animais. Quando receberam álcool no início da adolescência, os camundongos machos apresentaram maior comportamento de risco mesmo depois de adultos. O mesmo efeito não foi identificado nas fêmeas nessa etapa.
Entre as fêmeas expostas ao álcool no começo da adolescência, entretanto, outro comportamento apareceu posteriormente. Quando tiveram acesso à bebida na fase adulta, elas consumiram mais álcool.
O cenário mudou quando a exposição ocorreu no final da adolescência. Nesse caso, tanto machos quanto fêmeas apresentaram maior comportamento de risco durante a vida adulta.
Para os pesquisadores, os resultados sugerem que a exposição intensa ao álcool durante períodos específicos da adolescência pode interferir em processos relacionados ao amadurecimento cerebral.
"O álcool pode causar um prejuízo da maturação final do cérebro, tornando aquele indivíduo adolescente por muito mais tempo, talvez a vida toda. Ele sempre vai ficar se colocando em risco. O adolescente se colocar em risco é normal, mas o adulto continuar fazendo isso é problemático", afirma Abrahão.
Os pesquisadores também avaliaram os efeitos da exposição excessiva ao álcool em camundongos em uma idade comparável ao início da vida adulta humana. Animais em uma fase equivalente a aproximadamente 20 anos em humanos apresentaram alterações no comportamento de risco semelhantes às encontradas após a exposição durante a adolescência.
Segundo Abrahão, estudos anteriores indicam que o álcool também pode provocar prejuízos cognitivos em adultos mais velhos. A diferença é que esses impactos tendem a diminuir conforme o cérebro amadurece.
No Brasil, o consumo de bebidas alcoólicas é proibido para menores de 18 anos. Dados do 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira apontam que 5% dos adolescentes de 12 a 17 anos tiveram pelo menos um episódio de consumo excessivo de álcool nos 30 dias avaliados. Entre jovens de 18 a 24 anos, a proporção chegou a 20,5%.