Doença rara no nervo óptico é associada a remédios para emagrecer (Canva Images)
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Publicado em 27 de setembro de 2026 às 11h24.
As canetas emagrecedoras voltaram a ser alvo de investigação no Brasil, segundo informações divulgadas pelo g1. A Anvisa analisa 13 notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (Noia), uma lesão rara que pode levar à perda permanente da visão, em pacientes que faziam uso de medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1.
A doença age como um infarto no nervo óptico, responsável por conectar o olho ao cérebro. Quando os pequenos vasos que irrigam essa região entopem, parte das células nervosas morre, provocando uma piora súbita da visão em um dos olhos (muitas vezes sem recuperação completa).
Segundo levantamento feito a pedido do g1, os casos suspeitos envolvem pacientes que usavam:
A Anvisa esclarece que o total pode ser recontado de forma diferente conforme o critério: no sistema, as notificações estão separadas entre 12 casos ligados à semaglutida (princípio ativo de Ozempic, Wegovy e Rybelsus) e um caso ligado à tirzepatida (princípio ativo do Mounjaro).
A Novo Nordisk, fabricante de Ozempic, Wegovy e Rybelsus, afirma que uma análise interna de seus ensaios clínicos não identificou aumento de casos da doença associado à semaglutida, e que a relação entre benefícios e riscos do medicamento continua favorável.
Já a Eli Lilly, responsável pelo Mounjaro, diz que mantém monitoramento constante dos dados de segurança de seus produtos, incluindo eventos oftalmológicos.
A Anvisa reforça que os casos ainda estão em fase de apuração. Segundo a agência, o fato de um paciente ter usado o medicamento e desenvolvido a doença não é, por si só, prova de que um tenha causado o outro.
A discussão sobre o tema voltou à tona nesta semana depois que um grupo de pacientes americanos processou a Novo Nordisk alegando risco de perda de visão provocado pela Noia. Os processos foram revelados em reportagem do jornal The Wall Street Journal.
Não existe, até o momento, um estudo que comprove definitivamente a relação entre os medicamentos e a doença. O indício mais forte vem de uma pesquisa publicada na revista científica JAMA Ophthalmology, que analisou mais de 1,6 mil prontuários e encontrou um risco de quatro a sete vezes maior de Noia entre pacientes tratados com semaglutida, na comparação com usuários de outros medicamentos.
Os próprios autores do estudo, no entanto, apontam limitações para estabelecer uma relação direta de causa e efeito, já que os pacientes analisados também tinham outras condições, como diabetes, que por si só podem provocar a doença.
Mesmo diante dessa incerteza, desde junho de 2025 a Anvisa determinou que a Noia passasse a constar na bula dos medicamentos à base de semaglutida como uma reação adversa muito rara.
Os 13 casos ligados aos agonistas de GLP-1 fazem parte de um universo maior monitorado pela agência. Desde 2018, o painel de farmacovigilância da Anvisa já registrou 24 suspeitas de neuropatia isquêmica óptica, termo que reúne esse tipo de ocorrência no sistema.
Essas notificações chegam à Anvisa por meio de relatos de pacientes, médicos e das próprias indústrias farmacêuticas. A partir daí, cada caso passa por investigação para tentar estabelecer, ou descartar, uma relação com o medicamento utilizado. Até o momento, todos seguem classificados como suspeitos.
Além da neuropatia óptica, o painel da Anvisa reúne 74 registros de outras complicações visuais associadas ao uso dessas canetas emagrecedoras, distribuídos entre pacientes que usavam Rybelsus (22), Wegovy (19), Mounjaro (17) e Ozempic (16).
A queixa mais comum é a visão turva, com 37 registros, seguida por comprometimento visual, com 29 casos. Também há relatos de redução da acuidade visual, perda de visão central, perda súbita da visão e defeitos no campo visual. Como cada notificação pode descrever mais de um sintoma, o total de registros não corresponde necessariamente ao número de pacientes afetados.