Ciência

Novo estudo identifica três biotipos diferentes de TDAH

Pesquisa pode mudar diagnóstico do transtorno e abrir caminho para tratamentos mais personalizados

TDAH: transtorno pode ser dividido em três categorias, indica estudo (Carol Yepes/Getty Images)

TDAH: transtorno pode ser dividido em três categorias, indica estudo (Carol Yepes/Getty Images)

Marina Semensato
Marina Semensato

Colaboradora

Publicado em 17 de março de 2026 às 09h42.

Um novo estudo científico sugere que o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) pode ter três biótipos distintos, cada um com padrões diferentes de funcionamento cerebral. A descoberta pode ajudar a explicar por que algumas pessoas respondem bem ao tratamento mais comum do transtorno, enquanto outras não.

A pesquisa foi publicada na revista JAMA Psychiatry e analisou exames cerebrais e sinais neuroquímicos de 1.154 pessoas com TDAH. Os resultados indicam que ele pode se manifestar de maneiras diferentes no cérebro, com alterações em circuitos neurais e sistemas de neurotransmissores específicos para cada grupo.

A descoberta "pode marcar o começo do fim para o tratamento padronizado do TDAH", afirmou Rod Mitchell, psicólogo e fundador da Emotions Therapy, em Calgary, no Canadá, que não participou do estudo, à Healthline.

De acordo com Mitchell, se cada biótipo envolve circuitos neurais diferentes, a abordagem mais utilizada hoje — que costuma seguir o modelo de diagnosticar, prescrever estimulantes e ajustar a dose — pode funcionar bem apenas para parte dos pacientes.

Cerca de 2 milhões de brasileiros vivem com TDAH

O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento que atinge cerca de 2 milhões de pessoas no Brasil, segundo dados de 2024 da Associação Brasileira de Déficit de Atenção (ABDA). Como o próprio nome já diz, sem um tratamento adequado, o TDAH tem o poder de "transtornar" diferentes aspectos da vida de quem ele atinge, seja o convívio social, o desempenho escolar ou profissional, e até a autoestima.

Os sintomas do TDAH podem variar conforme a fase da vida, o que também influencia na forma como o transtorno é identificado. Na infância, sinais como hiperatividade e impulsividade costumam aparecer com mais frequência. Na adolescência, podem surgir dificuldades de organização e maior instabilidade emocional e, na fase adulta, o transtorno pode se manifestar por impulsividade em decisões e problemas para gerenciar tarefas e responsabilidades. Essas características, no entanto, não são iguais para todos os casos.

Também existem diferenças na forma como o transtorno se manifesta entre meninos e meninas. Eles costumam apresentar mais hiperatividade motora e agitação, comportamentos que chamam mais atenção e acabam levando ao diagnóstico com maior frequência. Já entre as meninas, o padrão mais comum é de desatenção. Por serem menos disruptivos, esses sinais podem passar despercebidos, o que contribui para que meninas e mulheres sejam subnotificadas.

Atualmente, o tratamento costuma ser definido principalmente pela idade do paciente e geralmente envolve uma combinação de medicamentos e terapias comportamentais.

Os três tipos de TDAH identificados pelo estudo

Ao analisar os exames cerebrais dos participantes, os pesquisadores observaram que o TDAH não afeta a atividade cerebral de todas as pessoas da mesma forma. Três padrões distintos surgiram nos dados e cada biótipo representa uma história neurobiológica diferente. São eles:

  • Grave combinado com desregulação emocional;
  • Predominantemente hiperativo/impulsivo;
  • Predominantemente desatento.

No tipo predominantemente desatento, os pesquisadores observaram alterações em áreas do cérebro relacionadas à atenção sustentada e à capacidade de filtrar distrações. Já o tipo hiperativo/impulsivo mostrou disfunções nos circuitos cerebrais responsáveis pelo controle inibitório.

Para David Goodman, professor assistente de Psiquiatria e Ciências Comportamentais da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, os dois padrões são consistentes com o que já é observado nas clínicas. "Curiosamente, seus fenótipos espelham o DSM-5", afirmou Goodman ao Healthline, referindo-se ao manual diagnóstico usado por profissionais de saúde mental. "De certa forma, esses resultados corroboram a utilidade do DSM-5 na pesquisa com essa população".

O terceiro tipo pode explicar casos mais difíceis de tratar

O estudo traz um terceiro grupo novo: o tipo grave combinado com desregulação emocional. Nesse biótipo, os pesquisadores encontraram alterações cerebrais mais abrangentes, mais desregulação emocional ao longo do tempo e sinais preliminares de maior associação com transtornos de humor.

Segundo Mitchell, esse padrão envolve várias vias neuroquímicas ao mesmo tempo, como os sistemas de serotonina, dopamina, acetilcolina e histamina. Essa complexidade pode ajudar a explicar por que alguns pacientes não respondem bem apenas aos medicamentos estimulantes, que hoje são a base do tratamento para o TDAH.

Como o TDAH é diagnosticado hoje

O diagnóstico de TDAH envolve várias etapas clínicas. De acordo com o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), não existe um único exame capaz de confirmar a condição.

A avaliação costuma incluir análise de sintomas, histórico do paciente e observação de comportamento em diferentes contextos, e o tratamento geralmente combina terapia comportamental e medicamentos, variando conforme a idade.

Para crianças menores de seis anos, o treinamento dos pais em estratégias de manejo comportamental costuma ser a primeira abordagem, antes do uso de medicamentos. Passada essa idade, o tratamento normalmente inclui terapia comportamental e medicação, que pode ser estimulante ou não estimulante.

Os pesquisadores destacam que compreender melhor os diferentes biótipos do TDAH pode ajudar no futuro desenvolvimento de estratégias terapêuticas mais personalizadas. No entanto, mais estudos são necessários antes que essas descobertas mudem diretamente a prática clínica.

"A correlação entre redes neurais e três biótipos neste estudo apoia pesquisas em andamento sobre esse conceito", disse Goodman. Segundo ele, ainda será necessário um estudo clínico amplo e bem controlado para verificar se diferentes tratamentos funcionam melhor para determinados conjuntos de sintomas.

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