Ciência

Não é só dieta e exercício: conheça o fator invisível da longevidade

Estudo aponta que otimismo pode aumentar a vida em até 15% e elevar chances de chegar aos 85 anos

Longevidade: o ingrediente que não está na dieta nem no treino

Longevidade: o ingrediente que não está na dieta nem no treino

Marina Semensato
Marina Semensato

Colaboradora

Publicado em 30 de março de 2026 às 18h06.

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Não é novidade que ter uma alimentação equilibrada, dormir bem e se exercitar são os pilares para uma vida saudável e longeva. Mas essa fórmula clássica esconde um quarto ingrediente: a mentalidade, especificamente a otimista. É o que indica um estudo publicado na científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Conduzida por pesquisadores ligados à Escola de Saúde Pública Harvard TH Chan, à Faculdade de Medicina da Universidade de Boston e ao sistema de saúde de veteranos dos Estados Unidos, a pesquisa analisou cerca de 70 mil participantes e chegou à conclusão que o otimismo pode ter impacto direto na longevidade.

No estudo, o otimismo foi definido como a "crença de que o futuro tende a ser positivo e que é possível influenciar resultados importantes". Já o pessimismo é associado a uma percepção de problemas permanentes e fora de controle.

Pessoas mais otimistas vivem, em média, entre 11% e 15% mais, diz o estudo, e também tiveram mais probabilidade de atingir idades avançadas: os participantes com níveis mais altos de otimismo tiveram entre 50% e 70% mais chances de chegar aos 85 anos — faixa considerada pelos pesquisadores como "longevidade excepcional".

O que o estudo mostra

A análise acompanhou 69.744 mulheres, entre 58 e 86 anos, ao longo de uma década, e 1.429 homens, de 41 a 90 anos, por até 30 anos. Os participantes responderam questionários sobre sua visão de vida, além de terem seus hábitos monitorados, incluindo desde a dieta e o sono até o consumo de álcool e tabagismo.

Mesmo com esses fatores, o otimismo se manteve como um diferencial para ficar mais velho e com saúde. Entre as mulheres, o ganho médio na expectativa de vida chegou a 14,9%. Entre os homens, a alta foi de 10,9%.

Os pesquisadores também perceberam que pessoas mais otimistas apresentaram menor incidência de doenças como diabetes tipo 2 e depressão. E, quando essas condições surgiam, a sobrevida ainda era maior em comparação com grupos mais pessimistas.

Uma das hipóteses levantadas é a relação com o estresse: otimistas tenderiam a lidar melhor com adversidades, o que reduz impactos fisiológicos associados a preocupações crônicas, como inflamações e alterações hormonais.

Não é só pensar positivo

Ser otimista pode trazer uma grande vantagem para a longevidade, mas só o pensamento positivo não basta. Com o avanço da idade, fatores como propósito e sensação de pertencimento também entram na equação, segundo uma reportagem do New York Times.

O artigo aborda a história da norte-americana Nan Niland, de 72 anos. Ela, que atuou como dentista por mais de 40 anos, afirmou ao jornal que sentiu falta de ter algo para fazer após se aposentar. A mudança veio quando passou a atuar como voluntária em uma organização local. "Eu precisava sentir que estava fazendo algo além de me satisfazer", afirmou.

"Se você sente que importa, é mais provável que mantenha conexões sociais, cuide de si mesmo, esteja presente para os outros e continue investindo na vida", disse Jennifer B. Wallace, autora do livro "Mattering" (em tradução literal, "Importando", no sentido de fazer a diferença), ao NYT.

A importância do "fazer a diferença" para a longevidade foi corroborada por estudos conduzidos por especialistas como a epidemiologista Linda Fried, da Universidade de Columbia. Ao recomendar atividades de voluntariado a pacientes idosos, ela observou aumento na qualidade de vida desses pacientes. No início da carreira, ela percebeu que seus pacientes "realmente se sentiam doentes", mas a causa de sua doença residia em "não ter um motivo para se levantar de manhã".

Para a professora de Yale Becca Levy, a explicação passa pela seara comportamental. Ao acreditar que ainda tem um futuro ativo e relevante, o indivíduo tende a seguir recomendações médicas, se exercitar com mais frequência e manter vínculos sociais.

Otimismo não é negação da realidade

Especialistas ouvidos pelo NYT afirmam que o conceito de otimismo nessas pesquisas não está ligado a ignorar problemas. A psicóloga Deepika Chopra afirmou que a diferença está na forma de interpretar dificuldades. "Está muito mais relacionado à resiliência do que a um otimismo ingênuo", disse. "Pessoas otimistas enxergam contratempos como temporários e superáveis".

"Quando as pessoas imaginam repetidamente o futuro como limitado ou em declínio, o que acontece com muitas pessoas à medida que envelhecem, o cérebro começa a reforçar essas expectativas", disse a Dra. Chopra. "Mas se pudermos direcionar conscientemente nossa atenção para algo pequeno, um pequeno momento positivo no futuro, todos os dias”, disse ela, “isso treina o cérebro a antecipar que coisas boas ainda estão por vir", concluiu.

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