Sem os pardais, insetos avançaram sobre as plantações; estudo estima que a campanha contribuiu para 2 milhões de mortes durante a fome (Reprodução)
Repórter
Publicado em 21 de outubro de 2026 às 16h11.
A tentativa de proteger a produção de grãos levou a China a combater uma espécie que também ajudava a preservar suas lavouras. Em 1958, o governo de Mao Zedong mobilizou a população para exterminar pardais, apontados como responsáveis por consumir parte dos alimentos cultivados no país.
A eliminação das aves, porém, diminuiu a presença de predadores de insetos nas plantações. Com menos pássaros, pragas se multiplicaram e ampliaram as perdas nas colheitas.
Os pardais eram um dos alvos da Campanha das Quatro Pragas, que também previa o combate a ratos, moscas e mosquitos. A iniciativa buscava melhorar as condições de higiene e aumentar a disponibilidade de alimentos.
Nas cidades e no campo, moradores usavam panelas, frigideiras e tambores para produzir ruído e impedir que as aves pousassem. Sem descanso, os pássaros morriam por exaustão. A mobilização também envolveu o uso de venenos e a destruição de ninhos.
A política ignorava outra parte da alimentação dos pardais: os insetos que atacavam as culturas agrícolas, consumidos sobretudo durante o período de reprodução das aves.
A redução da população de pardais abriu espaço para o aumento de gafanhotos e de outras pragas. O resultado contrariou o objetivo da campanha: em vez de preservar os grãos, a medida contribuiu para perdas na produção.
Esse desequilíbrio ocorreu no contexto do Grande Salto Adiante, programa do governo chinês durante o qual o país enfrentou a Grande Fome, entre 1959 e 1961.
A crise alimentar teve múltiplas causas, entre elas políticas de produção e condições climáticas adversas. O extermínio dos pássaros agravou esse quadro ao reduzir o controle de insetos nas lavouras.
Uma pesquisa publicada em 2025 por estudiosos ligados à Universidade de Chicago e ao National Bureau of Economic Research (NBER), instituição de pesquisa econômica dos Estados Unidos, examinou registros de produção agrícola e mortalidade daquele período.
Segundo o estudo, áreas com condições geográficas mais favoráveis à presença de pardais tiveram quedas adicionais de 5,3% na produção de arroz e de 8,7% na de trigo, na comparação com regiões menos propícias à ocorrência das aves.
Os pesquisadores estimam que os efeitos da campanha tenham contribuído para cerca de 2 milhões de mortes adicionais durante a crise de abastecimento.
Diante das consequências para as lavouras e para o equilíbrio entre espécies, o governo chinês deixou de incluir os pardais entre os animais que deveriam ser eliminados.
A mudança ocorreu em 1960, quando os percevejos passaram a ocupar o lugar das aves na campanha nacional.