Ciência

Estado de fluxo mental: entenda o que é e como alcançar

Psicologia e neurociência detalham como funciona a imersão profunda em determinadas tarefas

Estado de fluxo: como canalizar 100% da sua atenção para o que está fazendo

Estado de fluxo: como canalizar 100% da sua atenção para o que está fazendo

Marina Semensato
Marina Semensato

Colaboradora

Publicado em 21 de fevereiro de 2026 às 13h24.

Em 2024, a Oxford University Press escolheu "brain rot" como palavra do ano. A expressão, que em tradução literal significa "apodrecimento cerebral", passou a ser usada para descrever a exaustão mental após o consumo excessivo de conteúdos "considerados triviais e sem desafios", segundo a instituição.

Muitos, senão a maioria, desses materiais estão concentrados no mundo digital. Feeds infinitos, vídeos curtos e o alto volume de informações consumido de uma só vez fragmentam a atenção dos usuários. O resultado: pessoas mais distraídas, cansadas e até irritadas, conforme a própria Oxford.

Uma pesquisa da americana Gloria Mark ajuda a entender esse fenômeno: o tempo médio de foco para uma única tela caiu de cerca de 2,5 minutos, em 2004, para 47 segundos em 2023. Talvez seja por isso que muitos relatam não conseguir assistir a um filme inteiro sem olhar para o celular, mesmo que ele não tenha emitido nenhuma notificação, por exemplo.

Nesse cenário de excesso de estímulos e distrações, ganham espaço práticas e conceitos que caminham na direção oposta, que colaboram para a concentração profunda — como o chamado "flow state", ou "estado de fluxo", em português.

O que é estado de fluxo?

O conceito é antigo. Foi formulado pelo psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi para descrever aquele momento em que o indivíduo está tão focado numa tarefa que perde completamente a noção de espaço e tempo, uma verdadeira imersão que torna o foco algo fácil de ser mantido por várias horas.

"Existe um foco que, quando se intensifica, leva a uma sensação de êxtase, uma sensação de clareza: você sabe exatamente o que quer fazer de um momento para o outro; você recebe feedback imediato", disse Csikszentmihalyi em uma palestra do TED em 2004.

Relatos desse tipo são muito comuns entre atletas e artistas, por exemplo. Em comum, está a sensação de querer continuar aquela atividade, sem se preocupar com distrações externas e sem a necessidade de concluí-la para se sentir recompensado, já que a satisfação está associada ao processo, não ao resultado em si.

"Além da produtividade, o estado de fluxo proporciona um impulso profundo ao bem-estar", afirma Sujay Seshadri, mentor de meditação e desenvolvimento pessoal no centro Kamalaya, à Vogue. "Pessoas que o vivenciam regularmente relatam maior felicidade, criatividade e satisfação geral com a vida."

A explicação da neurociência

À Vogue, a neurocientista Faye Begeti afirma que uma das principais explicações para o estado de fluxo envolve o córtex pré-frontal, região ligada ao automonitoramento, à percepção do tempo e à avaliação crítica.

Segundo ela, durante tarefas que exigem atenção intensa, partes dessa área reduzem temporariamente sua atividade."Quando essa atividade diminui, as pessoas relatam menor autoconsciência e alteração na percepção do tempo — horas podem parecer minutos", disse. O fenômeno é descrito na literatura como "hipofrontalidade transitória".

Como entrar no estado de fluxo?

Antes de falar sobre o que favorece o estado de fluxo, especialistas apontam o que o impede. A Vogue destaca que estilo de vida que a maioria das pessoas leva hoje — cheio de informações, caótico e agitado — pode ser um empecilho.

"A estimulação constante, a multitarefa e o estresse de fundo fazem com que a ansiedade se torne quase normalizada", diz a professora de ioga e meditação Jessica Skye à revista. "Mas o fluxo não está fora do nosso alcance – ele só requer intenção. Precisamos criar espaço para estarmos presentes", conclui.

O nível de desafio da tarefa é outro fator central. Begeti explicou que o fluxo tende a ocorrer quando há equilíbrio entre tarefas mais fáceis e mais difíceis.

"Se uma tarefa é muito fácil, a atenção se dispersa e o tédio se instala. Se é muito difícil, os circuitos de estresse são ativados e a ansiedade aumenta", diz. Ela aponta hobbies offline — como pintura, corrida, tocar instrumentos e escrever em um diário — ótimas formas de começar.

Outro ponto importante é criar um "ritual" para facilitar essa imersão, seja com velas, sons ambientes ou até batidas mais agitadas, caso seja uma atividade movimentada. É uma forma de sinalizar o cérebro que ele precisa desligar as distrações externas e focar na tarefa em questão.

O estado de fluxo não necessariamente precisa do sujeito imóvel. Na verdade, mexer o corpo pode ser muito eficaz — o importante é priorizar movimentos repetitivos, que ajudam a reduzir a agitação mental e colocam um certo "controle" sob o corpo, o que inclui até a jardinagem, varrer o chão ou cortar a grama.

O aplicativo de meditação Headspace divulgou algumas orientações que aumentam a chance de entrar no estado de fluxo. São elas:

  • interesse real pela tarefa;
  • nível de desafio adequado;
  • familiaridade mínima com a atividade;
  • foco no processo, não apenas no resultado.
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