Thomas Jefferson: análise genética encontrou novas evidências sobre a paternidade dos filhos de Sally Hemings (Reprodução Rembrant Peale/Wikimedia Commons)
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Publicado em 30 de setembro de 2026 às 18h10.
Um mistério de mais de 200 anos sobre a vida de Thomas Jefferson, terceiro presidente dos Estados Unidos, ganhou novas evidências genéticas. Pesquisadores analisaram amostras de cabelo atribuídas ao ex-presidente e encontraram uma ligação com descendentes de Sally Hemings, mulher escravizada em sua propriedade.
Segundo a análise, a probabilidade de Jefferson ter sido pai de pelo menos um dos filhos de Hemings chegou a 99,96%. O trabalho foi publicado em 21 de setembro na plataforma de preprints bioRxiv e ainda não passou por revisão por pares.
Para chegar ao resultado, os cientistas reconstruíram fragmentos de DNA obtidos de cabelos históricos e compararam o material genético com amostras de pessoas vivas de diferentes ramos das famílias Jefferson e Hemings.
A investigação começou após uma descoberta curiosa. Em 2011, funcionários do Museu Nacional de História Americana do Smithsonian encontraram um fio de cabelo ruivo-loiro prensado entre as páginas de uma Bíblia que pertenceu a Thomas Jefferson.
Inicialmente, havia a suspeita de que o cabelo fosse do ex-presidente. Testes posteriores, porém, mostraram que a amostra não apresentava o DNA mitocondrial esperado. A descoberta levou os pesquisadores a procurar outras fontes de material genético.
A equipe conseguiu acessar outras amostras de cabelo atribuídas a Jefferson e preservadas em coleções históricas. Entre elas estava uma mecha cortada em seu leito de morte, em 4 de julho de 1826. O material foi fornecido pela Fundação Thomas Jefferson em Monticello e ainda não havia sido disponibilizado para esse tipo de análise.
A partir dessas amostras, os pesquisadores reconstruíram sequências genômicas históricas e fizeram comparações com o DNA coletado de 16 pessoas vivas. O grupo incluía indivíduos de diferentes ramos das famílias envolvidas, entre eles descendentes de Eston e Madison Hemings.
Sally Hemings teve quatro filhos que chegaram à idade adulta. Em um relato publicado em 1873, Madison afirmou que Thomas Jefferson era seu pai e também de seus irmãos. A ligação com Jefferson também foi preservada entre descendentes de Eston.
Os pesquisadores ainda analisaram linhagens relacionadas a Jefferson, sua esposa Martha e seu irmão Randolph, ampliando as possibilidades de comparação entre os diferentes ramos familiares.
Segundo a geneticista populacional Éadaoin Harney, que não participou da pesquisa, analisar pessoas de diferentes ramos da árvore genealógica torna possível esclarecer com maior precisão como os indivíduos estão relacionados. A estratégia permite avaliar padrões de compartilhamento de DNA entre várias pessoas, em vez de depender da comparação entre apenas dois genomas.
A possibilidade de Jefferson ter tido filhos com Hemings já havia sido investigada geneticamente há quase três décadas. Em 1998, um estudo liderado pelo pesquisador Eugene Foster identificou um haplótipo raro no cromossomo Y de homens descendentes do tio de Thomas Jefferson. O mesmo padrão também foi encontrado entre descendentes de Hemings.
No entanto, havia uma limitação importante. Os pesquisadores não possuíam DNA do próprio Thomas Jefferson para realizar uma comparação direta. As evidências conseguiam relacionar os descendentes de Hemings a um homem da linhagem Jefferson, mas não determinar especificamente que esse homem fosse o ex-presidente.
A nova investigação buscou superar essa limitação utilizando material genético de amostras de cabelo atribuídas diretamente a Jefferson e comparando os resultados com diferentes ramos das famílias.
As alegações de que Jefferson teria tido filhos com Sally Hemings circulam há mais de dois séculos. Hemings era uma mulher escravizada em Monticello, propriedade de Jefferson na Virgínia. Ela era cerca de 30 anos mais jovem que o ex-presidente e meia-irmã de Martha Jefferson, esposa dele.
Registros históricos também relacionavam as gestações de Hemings aos períodos em que Jefferson estava em Monticello.
Após o estudo genético de 1998, a Fundação Thomas Jefferson afirmou, em 2000, que havia forte probabilidade de os dois terem mantido uma relação ao longo do tempo que resultou no nascimento de pelo menos um e, possivelmente, de todos os filhos conhecidos de Hemings.A nova análise acrescenta evidências genéticas mais específicas ao debate ao comparar material atribuído diretamente ao ex-presidente com diferentes ramos familiares. Os resultados, no entanto, ainda estão apresentados em um preprint e precisam passar pelo processo de revisão por pares.
Apesar de ter dado início à investigação, o cabelo encontrado dentro da Bíblia de Jefferson não forneceu a resposta que os pesquisadores esperavam. Para verificar se a amostra pertencia ao ex-presidente, a equipe comparou seu DNA mitocondrial com o de uma mulher viva descendente direta da mãe de Jefferson pela linhagem feminina.
Os materiais genéticos não coincidiram. Os fragmentos de DNA recuperados permitiram determinar que o fio pertencia a uma mulher da família Jefferson, mas não foram suficientes para descobrir sua identidade.
Assim, enquanto as outras amostras de cabelo forneceram novas evidências sobre a ligação entre Jefferson e os descendentes de Hemings, a identidade da pessoa cujo fio ficou preservado dentro da Bíblia permanece um mistério.