Crianças: estudo investigou como sintomas de depressão podem alterar a atenção a diferentes expressões faciais (Freepik)
Redatora
Publicado em 30 de setembro de 2026 às 17h56.
A maneira como crianças observam rostos felizes e tristes pode mudar conforme aumentam os sintomas de depressão. O padrão, porém, não é igual para todas e parece depender do histórico familiar, segundo um novo estudo publicado no Journal of Psychopathology and Clinical Science.
Pesquisadores da Universidade de Binghamton, nos Estados Unidos, acompanharam 242 crianças e suas mães durante dois anos. A cada seis meses, os participantes passaram por avaliações dos sintomas depressivos e testes que monitoravam para onde direcionavam o olhar.
Entre crianças cujas mães tinham histórico de transtorno depressivo mais elevado, o aumento dos sintomas esteve associado a uma atenção cada vez maior a rostos tristes.
Um padrão diferente apareceu entre participantes sem esse histórico familiar. Nesse grupo, o avanço dos sintomas foi acompanhado por uma redução da atenção a rostos felizes, em vez de maior concentração em expressões tristes.
Durante os testes, as crianças observavam pares de rostos apresentados em uma tela. Um deles mostrava uma expressão neutra. O outro apresentava uma expressão feliz, triste ou de raiva.
Uma tecnologia de rastreamento ocular registrava qual rosto atraía a atenção e por quanto tempo a criança permanecia olhando para ele. Os participantes repetiram as avaliações a cada seis meses durante os dois anos de acompanhamento.
O objetivo era analisar não apenas a associação entre sintomas depressivos e padrões de atenção em determinado momento, mas também como mudanças em cada um poderiam prever alterações posteriores no outro.
Pesquisas anteriores já haviam associado a depressão a uma maior atenção a expressões de tristeza. Essas relações, porém, geralmente eram modestas. Também permanecia a dúvida sobre a direção dessa relação: se determinados padrões de atenção contribuíam para os sintomas ou se a própria depressão modificava aquilo que recebia mais atenção.
Segundo Kelly Gair, principal autora do trabalho e doutoranda da Universidade de Binghamton, a novidade foi justamente acompanhar essas relações ao longo do tempo e analisar como elas poderiam prever mudanças posteriores.
Os pesquisadores encontraram padrões distintos quando consideraram o histórico de depressão das mães. Entre filhos de mulheres com histórico de transtorno depressivo maior, o aumento dos sintomas depressivos esteve associado a uma maior atenção a expressões tristes.
Segundo Brandon Gibb, diretor do Instituto de Transtornos de Humor da Universidade de Binghamton, conforme essas crianças apresentavam mais sintomas, também demonstravam maior dificuldade para desviar a atenção de estímulos relacionados à tristeza.
Com isso, os autores levantaram uma hipótese para explicar o resultado. Filhos de mães com depressão poderiam estar mais expostos a expressões faciais de tristeza durante as interações familiares. Quando apresentam sintomas depressivos, essas expressões poderiam adquirir maior relevância e prender cada vez mais sua atenção.
Entre crianças cujas mães não tinham histórico de depressão, os pesquisadores observaram um comportamento diferente. O aumento dos sintomas depressivos não esteve associado a uma maior atenção a rostos tristes.
Em vez disso, essas crianças passaram a direcionar menos atenção para expressões felizes. Segundo Gibb, a atenção a estímulos positivos pode funcionar como um fator de proteção. Nesse grupo, as experiências de depressão poderiam estar reduzindo esse comportamento conforme os sintomas aumentavam.
Os resultados mostram, portanto, padrões distintos na relação entre sintomas depressivos e atenção emocional conforme o histórico familiar. Para crianças com maior risco familiar, o aumento dos sintomas esteve relacionado a mais atenção à tristeza. Entre aquelas de menor risco, esteve associado a menos atenção a expressões felizes.
O estudo ainda não permite determinar, a partir dos movimentos dos olhos, quais crianças desenvolverão depressão posteriormente.
Os pesquisadores continuam acompanhando os participantes durante a adolescência, período em que o risco de desenvolver o transtorno aumenta para muitos jovens.
O próximo objetivo é verificar se os padrões de atenção identificados durante a infância estão associados a uma maior probabilidade de receber um diagnóstico de depressão posteriormente.
A continuidade do acompanhamento também poderá ajudar a esclarecer a relação entre as mudanças na atenção emocional e a evolução dos sintomas ao longo do desenvolvimento.