Tomografia: exame com contraste libera altos níveis de radiação (Zeca Caldeira/Exame)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 2 de janeiro de 2026 às 18h23.
Qiu Sijun, um pedreiro aposentado de 57 anos, descobriu um tumor no pâncreas três dias após um check-up de rotina para diabetes.
O diagnóstico precoce só foi possível graças a uma ferramenta de inteligência artificial que analisou sua tomografia antes mesmo de ele apresentar qualquer sintoma.
O caso aconteceu no Hospital Popular Afiliado da Universidade de Ningbo, no leste da China, onde médicos testam o PANDA (sigla em inglês para detecção de câncer de pâncreas com inteligência artificial). A tecnologia foi desenvolvida por pesquisadores ligados à empresa Alibaba e representa um avanço significativo no combate a uma das formas mais letais de câncer.
O câncer de pâncreas tem taxa de sobrevida de apenas 10% em cinco anos, principalmente porque a detecção precoce é extremamente difícil. Os sintomas geralmente aparecem apenas em estágio avançado, quando as opções de tratamento são limitadas.
Os exames tradicionais, como tomografias com contraste, envolvem altas doses de radiação e não são recomendados para rastreamento em larga escala. Já as tomografias sem contraste, mais seguras, produzem imagens menos nítidas.
O PANDA foi treinado especificamente para identificar câncer de pâncreas em tomografias sem contraste.
Os engenheiros da Alibaba pediram que radiologistas anotassem manualmente mais de 2 mil tomografias com contraste de pacientes com câncer, indicando a localização das lesões. Depois, mapearam algoritmicamente essas lesões para as tomografias sem contraste dos mesmos pacientes.
Quando testada em mais de 20 mil tomografias sem contraste, a ferramenta identificou corretamente 93% das pessoas com lesões pancreática, segundo estudo publicado na revista Nature Medicine em 2023.
Desde novembro de 2024, o PANDA analisou mais de 180 mil tomografias abdominais ou torácicas no hospital de Ningbo. A ferramenta ajudou a detectar cerca de 24 casos de câncer de pâncreas, sendo 14 em estágio inicial. Desse total, 20 eram adenocarcinoma ductal, o tipo mais comum e letal da doença.
Todos esses pacientes haviam procurado o hospital com queixas como inchaço ou náusea, mas não tinham sido encaminhados inicialmente a um especialista em pâncreas. Várias de suas tomografias não haviam levantado alertas até serem analisadas pela IA.
Em abril, a Food and Drud Administration (FDA) concedeu ao PANDA o status de dispositivo inovador, o que acelera sua avaliação para chegada ao mercado americano. A ferramenta também passa por diversos ensaios clínicos na China.
Especialistas alertam que são necessários mais dados para avaliar se a tecnologia detecta casos suficientes em estágio inicial para compensar os riscos de falsos positivos e exames desnecessários. Desde o lançamento, o modelo emitiu alertas para cerca de 1.400 exames, mas apenas 300 precisaram de acompanhamento.
O sistema também enfrenta limitações técnicas: não se compara a um especialista em pâncreas, pode confundir casos de pancreatite com tumores e tem dificuldade para identificar se um tumor se originou no pâncreas ou se espalhou de outro órgão.
O PANDA está sendo testado também em uma clínica rural na província de Yunnan, onde o acesso a especialistas é mais limitado.