A Taça de Licurgo apresenta uma cor verde-jade sob iluminação normal e vermelho-rubi quando iluminada por trás. Imagem composta. ( British Museum/Divulgação)
Repórter
Publicado em 28 de outubro de 2026 às 10h23.
Uma equipe da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, reproduziu o efeito óptico da Taça de Licurgo, peça romana de cerca de 1.600 anos preservada no Museu Britânico. O objeto apresenta uma tonalidade verde quando recebe luz pela frente e assume a cor vermelha quando a iluminação vem de trás.
O fenômeno caracteriza o chamado vidro dicróico, material que apresenta duas cores conforme as condições de iluminação. Para recriá-lo, os pesquisadores usaram uma formulação baseada na análise de um fragmento do vidro romano.
Lisa Hollands, técnica da Escola de Engenharia Química, de Materiais e Biológica da universidade, conduziu os experimentos após uma etapa de pesquisa com Caroline Jackson, especialista em vidro romano. Segundo Hollands, tentativas anteriores de reproduzir o material tiveram resultados limitados.
O trabalho exigiu a incorporação de nanopartículas de ouro e prata ao vidro. Essas estruturas, com dimensões cerca de mil vezes menores que um grão de areia, são responsáveis pela interação com a luz que provoca a mudança de cor.
No processo de fabricação, a mistura foi aquecida a uma temperatura superior a 1.000 °C. Durante o resfriamento, nanocristais de ouro e prata se formaram no interior do material.
A luz branca reúne diferentes cores, cada uma associada a um comprimento de onda. As partículas presentes no vidro interferem na passagem e na dispersão dessas faixas de luz.
Quando a iluminação atravessa a peça, o material permite a passagem sobretudo de tons vermelhos e alaranjados. Sob luz refletida, a dispersão produz a aparência verde e opaca observada na superfície.
O resultado depende das condições de fabricação. Ian Freestone, professor emérito de materiais arqueológicos do University College London, explicou que a posição do vidro dentro do forno pode alterar a cor obtida.
Para o pesquisador, essa sensibilidade ajuda a dimensionar a dificuldade enfrentada pelos artesãos romanos para controlar o processo. Ele avalia que a experiência de Sheffield poderá contribuir para o entendimento das técnicas usadas na Antiguidade.
Freestone afirmou que vidros de coloração semelhante já haviam sido produzidos na década de 1960. Na avaliação dele, porém, o projeto da universidade se aproxima mais dos tons de verde e vermelho da Taça de Licurgo.
Produzida no século IV, a peça do Museu Britânico apresenta uma cena em relevo com o rei Licurgo preso a uma videira. A representação está associada ao triunfo de Dionísio, deus do vinho, sobre o personagem da mitologia grega.
Em 2022, um painel internacional incluiu o objeto entre as sete maravilhas de vidro do mundo.
Uma das hipóteses sobre a escolha das cores relaciona o verde e o vermelho ao amadurecimento das uvas. Freestone apontou que a combinação entre o efeito óptico e a cena mitológica pode indicar o uso da taça em cerimônias ligadas ao consumo de vinho. Essa interpretação, porém, permanece uma hipótese.
Há também uma referência a recipientes que mudavam de cor em uma carta atribuída ao imperador Adriano e dirigida a seu cunhado, em Roma. No texto, o autor menciona o envio de taças recebidas de um sacerdote e recomenda seu uso em banquetes festivos.
Para apresentar o efeito reproduzido em laboratório, a Universidade de Sheffield encomendou uma obra ao artista do vidro Elliot Walker.
A escultura reúne referências à história de Licurgo e ao Atlas Farnese, representação de Atlas com um globo sobre os ombros. Na criação de Walker, uma taça ocupa o lugar do globo.
A apresentação está prevista para ocorrer na Millennium Gallery, entre os dias 6 e 15 de novembro, como parte do Festival da Mente da universidade. Depois, a obra passará a integrar a exposição permanente do Turner Museum of Glass.