Café: Repressões envolveram motivos econômicos, medo de debates públicos e controle social, com punições que incluíam prisão e pena de morte (EcoPim-Studio/Getty Images)
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Publicado em 10 de fevereiro de 2026 às 15h13.
Em diferentes momentos da história, beber café deixou de ser apenas um hábito social e virou motivo de repressão estatal. Em pelo menos quatro episódios da história, autoridades fecharam cafeterias, queimaram grãos, prenderam consumidores e chegaram a aplicar punições extremas contra quem fosse flagrado com a bebida.
De acordo com a revista Popular Science, as justificativas variaram. Em alguns casos, o argumento era moral ou ligado à saúde. Em outros, o motivo era econômico, com governos tentando conter importações e evitar a saída de dinheiro do país. Em comum, havia um ponto recorrente: o café reunia pessoas em espaços públicos para conversar e trocar informações, algo que certos governantes viam como risco.
O café surgiu na Etiópia, mas se popularizou no Iêmen no século XV, onde era consumido por sufistas que buscavam manter-se acordados durante orações. Com a expansão da bebida e o surgimento das cafeterias, a reação de autoridades também cresceu.
Por volta do ano 1500, o café chegou a Meca e se espalhou rapidamente, com a expansão das cafeterias frequentadas por moradores e peregrinos. Em 1511, o oficial Kha'ir Beg reuniu estudiosos para discutir a proibição do consumo.
Segundo registros, ele alegava que a bebida prejudicava o corpo, alterava a mente e incentivava comportamentos inadequados. A repressão incluiu o fechamento de cafés, a queima de grãos e punições físicas contra consumidores.
A proibição, porém, não se sustentou. Kha'ir Beg enviou um relato ao sultão Al-Ashraf Qansuh al-Ghuri, que rejeitou a proibição total. Um édito real manteve restrições ao consumo em público, mas permitiu que a bebida continuasse sendo consumida em privado.
Mais de um século depois, o café voltou a ser alvo de repressão, desta vez no Império Otomano. Em Istambul, o sultão Murad IV intensificou o controle sobre cafeterias e proibiu o consumo público.
Murad IV via os cafés como espaços de socialização onde poderiam surgir revoltas e rebeliões. Por isso, determinou pena de morte para quem fosse flagrado bebendo café em público. Relatos históricos também descrevem que o sultão teria aplicado punições diretamente em alguns casos, além de reprimir outros hábitos, como o tabaco.
Com a expansão do comércio de café na Europa a partir do século XVII, a bebida também passou a ser restringida em alguns países. Na Suécia, autoridades proibiram a importação de café cinco vezes: nos anos de 1756, 1766, 1794, 1799 e 1817, segundo a publicação.
Pesquisadores apontam que o principal motivo foi econômico. O café vinha de colônias controladas por outras potências europeias, o que aumentava o déficit comercial sueco. Para fazer cumprir as proibições, a polícia multava, prendia e encarcerava pessoas flagradas bebendo ou vendendo café, mesmo em pequena escala.
No final do século XVIII, Frederico, o Grande, também atacou o consumo de café, citando o impacto econômico da bebida. Em 1777, ele publicou um manifesto contra a bebida e defendeu que o líquido deveria ser restrito à elite, enquanto a população comum deveria consumir cerveja.
Em 1781, o rei criou um monopólio estatal, com torrefações controladas pelo governo, e proibiu cidadãos de importar e torrar grãos por conta própria. O café encareceu e o contrabando se espalhou.
Para combater o comércio ilegal, o governo criou uma força de fiscais conhecida como “farejadores de café” (Kaffeeschnüfflers), formada em parte por veteranos de guerra. Eles circulavam pelas ruas em busca do cheiro de grãos torrados clandestinamente. Quem era flagrado podia receber multas altas, e parte do valor ficava com o fiscal responsável.