Ciência

Brasileiro fundador de iniciativa contra o câncer é eleito líder do ano em Washington

Fernando Goldsztein criou a MBI depois que os médicos disseram que não havia mais tratamento para o tumor cerebral do filho

Goldsztein durante a premiação na capital norte-americana

Goldsztein durante a premiação na capital norte-americana

Da Redação
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Redação Exame

Publicado em 24 de setembro de 2026 às 17h17.

Última atualização em 24 de setembro de 2026 às 17h39.

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O brasileiro Fernando Goldsztein, fundador da Medulloblastoma Initiative (MBI), recebeu nesta quinta-feira o prêmio Advocacy Leader of the Year (Líder em Advocacy do Ano), concedido pelo Washington Business Journal, principal publicação de negócios da região metropolitana de Washington, D.C. O prêmio faz parte do programa Innovators in Health Care 2026, que homenageia 12 líderes da área de saúde da região metropolitana de Washington, D.C., que atuam para enfrentar desafios do setor clínicos e empresariais da região que atuam para resolver os maiores desafios do setor de saúde. A entrega acontece em um almoço no Ritz-Carlton de Tysons Corner, na Virgínia.

Os homenageados foram escolhidos pela redação do jornal a partir de indicações da comunidade e recomendações da equipe editorial. Segundo o veículo,  o  programa é estritamente editorial e não cobra taxa de participação. A categoria Advocacy Leader reconhece quem trabalha por mudanças regulatórias, legislativas ou de conscientização para melhorar a saúde.

“Ser nomeado Líder em Advocacy do Ano pelo Washington Business Journal é uma honra muito significativa. Esse reconhecimento reforça nossa determinação de seguir com esse trabalho ao lado dos nossos cientistas, parceiros e doadores”, afirma Goldsztein. “Nada disso teria sido possível sem a liderança extraordinária e a expertise científica do Dr. Roger Packer, e sem a parceria que construímos com o Children’s National.”

Da recidiva a uma rede internacional de pesquisa

Em 2015, aos nove anos, Frederico, filho de Fernando, foi diagnosticado com meduloblastoma, um dos principais tipos de tumor cerebral maligno na infância. Quatro anos depois, em 2019, a doença voltou, e a família ouviu dos médicos que havia poucas alternativas terapêuticas disponíveis. Foi a partir dessa experiência que Goldsztein passou a questionar a velocidade com que novas alternativas de tratamento chegavam às crianças com tumores cerebrais. Apesar dos avanços da ciência e da tecnologia nas últimas décadas, os protocolos utilizados no tratamento do meduloblastoma ainda têm origem nos anos 1980. Além dos desafios relacionados à própria doença, os tratamentos podem deixar sequelas de longo prazo nos pacientes que sobrevivem.

Durante o tratamento do filho, Goldsztein conheceu o Dr. Roger J. Packer. Packer é uma das maiores referências mundiais em neuro-oncologia pediátrica e dirige o Brain Tumor Institute do Children’s National Hospital, em Washington. Goldsztein fez a ele uma pergunta simples: seria possível acelerar a pesquisa? Dessa pergunta nasceu, em 2021, a Medulloblastoma Initiative.

A MBI se organiza em torno de três princípios: urgência, foco e colaboração. A iniciativa reúne pesquisadores de diferentes instituições em torno de uma estratégia comum, com compartilhamento de dados, divisão de tarefas e integração entre os grupos de pesquisa.

A proposta é concentrar esforços em uma única doença e reduzir a fragmentação da pesquisa. Em vez de diferentes laboratórios trabalharem isoladamente, os pesquisadores colaboram para avançar diferentes etapas do desenvolvimento de novas terapias.

Os resultados vieram rápido. Em cinco anos a  MBI já arrecadou US$ 11 milhões e conecta 16 laboratórios nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa. Dois ensaios clínicos já foram aprovados pela FDA, a agência reguladora americana, e outros dois devem ser submetidos ainda em 2026. Um dos laboratórios do consórcio já testa em pacientes uma imunoterapia que direciona o sistema de defesa do organismo contra as células tumorais. Outro desenvolve uma vacina contra o meduloblastoma baseada em RNA mensageiro, a mesma plataforma usada contra a Covid-19.

Um câncer raro e subfinanciado

Estima-se que entre 15 mil e 20 mil crianças sejam diagnosticadas com meduloblastoma por ano no mundo. Em 20% a 25% dos casos, o tumor resiste ao tratamento, e não existe protocolo estabelecido para a recidiva. O câncer pediátrico como um todo recebe cerca de 4% do financiamento para pesquisa oncológica nos Estados Unidos, segundo o National Cancer Institute. Como o número de pacientes é pequeno, o retorno comercial potencial também é pequeno, o que afasta o investimento da indústria.

“Não é uma questão de ‘se’, é uma questão de ‘quando’ encontraremos a cura”, costuma dizer Goldsztein. Para ele, o modelo da MBI pode ser replicado em outras doenças raras. Ou seja, existe uma forma mais rápida e colaborativa de financiar e fazer avançar a pesquisa médica.

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