Nascar: corrida foi criada durante a Lei Seca nos Estados Unidos (ChatGPT Image/Reprodução)
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Publicado em 4 de outubro de 2026 às 06h58.
A cidade de Charlotte, na Carolina do Norte, não é exatamente um grande polo turístico, especialmente para quem valoriza se manter seco. A maior atração da cidade é – discutivelmente, em minha humilde opinião – o Whitewater Center. Uma espécie de centro para atividades úmidas ao ar livre, como caiaque e rafting. Além dele, a cidade oferece poucas opções. Um museu de arte moderna e o Nascar Hall of Fame. Que, provavelmente, é de fato a melhor atração de Charlotte.
O centro fora construído entre 2007 e 2010, e tem mais de quatorze mil metros quadrados. Dentre suas atrações, há a Glory Road, uma rampa enorme inclinada como um oval de Nascar, com carros históricos reais. Ela é dedicada aos donos de equipes e tem 18 carros. Dentre eles, um Ford Modified de 1937, e um Chevrolet Monte Carlo de 1986 da equipe de Junior Johnson – uma menção importante, prometo, tendo em vista que ainda não falei de uísque na coluna desta quinzena.
Além da Glory Road, uma das atrações mais improváveis do Nascar Hall of Fame é uma réplica funcional de um alambique da época da Lei-Seca norte-americana. Igualzinho aqueles que eram usados pelos produtores de moonshine. A peça causa estranheza, especialmente pela aparente falta de relação entre corrida automobilística e uísque.
Ocorre, no entanto, que a Nascar nasceu, indiretamente, da Lei-Seca dos Estados Unidos. Durante a proibição, que foi de 1920 a 1933, a produção clandestina de destilados cresceu enormemente, especialmente no sul do país e nas montanhas dos Apalaches. Produzir o tal moonshine, porém, era só metade do trabalho. Após pronto, alguém precisava levá-lo até os compradores. Sem ser preso durante a empreitada.
Daí surgiram os runners. Respeitáveis cidadãos, que modificavam seus automóveis para transportar o precioso líquido cristalino. Os carros tinham suspensão endurecida, para suportar o peso do destilado, e motores extremamente potentes para a época. Justamente para escapar em caso de perseguição pelas autoridades. Preservar a aparência banal do veículo era importante, vez que fazia parte do disfarce.
Os motoristas, consequentemente, também ficaram bons. Muito bons. Aprenderam a controlar carros pesados em estradas estreitas, de terra ou montanha, durante a noite, fazendo curvas em velocidade e, eventualmente, sendo perseguidos por policiais. Transformar trabalho em diversão e colocar as máquinas numa pista, para ver quem ganhava, foi quase uma consequência natural.
Corridas informais entre bootleggers se tornaram cada vez mais populares no sul dos Estados Unidos. O público queria saber quem tinha o carro mais rápido. Os motoristas também. Em 1947, um sujeito chamado Bill France resolveu reunir pilotos, mecânicos e outras personalidades ligadas àquele esporte improvisado para, finalmente, criar regras. Nascia ali, no Streamlite Hotel de Daytona Beach, o Nascar.
E é aqui que volto a Junior Johnson e seu Chevrolet Monte Carlo. Junior nasceu na Carolina do Norte, e sua família produzia moonshine. Ainda jovem, tornou-se um runner. Foi preso pela polícia em 1956, não atrás do volante, mas enquanto produzia o destilado ilegal, no alambique da família. Passou um tempo numa penitenciária federal, e, quando recobrou a liberdade, resolveu mudar para uma profissão menos arriscada. Virou piloto de Nascar.
E não qualquer piloto. Ele venceu cinquenta corridas, incluindo Daytona 500 de 1960, e virou líder de uma equipe, com outras 132 vitórias e seis campeonatos. Quando o Nascar Hall of Fame foi inaugurado, Johnson foi praticamente sublimado para seus corredores. Mas, não apenas como piloto.
O alambique, meticulosamente construído para remontar àqueles utilizados durante a Lei-Seca, fora feito por Junior Johnson. Não é, portanto, uma peça qualquer colocada ali por algum curador com excessivo apreço por folclore. É quase um autorretrato. Só que feito de cobre.
E talvez seja justamente por isso que ele, seja uma das peças mais interessantes de todo o Nascar Hall of Fame. Os carros contam a história da competição. O alambique explica de onde ela veio. Antes dos autódromos, dos patrocinadores milionários e dos macacões coloridos, havia homens dirigindo à noite por estradas de montanha, com o porta-malas cheio de destilado ilegal e uma viatura tentando alcançá-los.