Treinar sem pressão: conheça os exercícios somáticos (Wikimedia Commons/lululemon athletica)
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Publicado em 27 de março de 2026 às 12h07.
Corrida, musculação, hyrox, lutas, aulas intensas, desafios de performance. No embalo do crescimento do bem-estar, é difícil conhecer alguém que não está em busca de uma atividade física para chamar de sua. Ainda assim, é seguro dizer que essa onda não atende a todos. Nem todo mundo se adapta aos treinos mais agitados, ou se sente na obrigação de superar — e exaurir — o próprio corpo o tempo todo.
A boa notícia, para quem ainda procura uma atividade física em que os principais requisitos não sejam velocidade ou força, é que existem os exercícios somáticos. São movimentos lentos, focados na respiração e autopercepção. Eles fogem dessa proposta de "fazer sempre mais" e colocam no centro a consciência corporal e possíveis focos de tensão acumulada.
Resumidamente, são movimentos feitos prestando atenção no próprio corpo. Não importa quanto a pessoa aguenta ou o quanto o treino cansa — a ideia é sentir o que está acontecendo ali, em tempo real, com a atenção voltada para a reação do corpo.
O foco primário dos exercícios somáticos é soltar tensões, de forma a acabar com dores que vão se acumulando no dia a dia. Com o tempo, os exercícios levam a pequenos ajustes na postura e nos movimentos, e o que antes era um tratamento para essas tensões vira também uma forma de preveni-las.
"O mundo acha que devemos nos alongar e forçar a mudança", disse Kristin Jackson, que administra uma academia boutique em Waynesville, Carolina do Norte, ao Wall Street Journal. "Somática significa sintonizar e sentir o que você está fazendo e aprender a relaxar os músculos."
A base desse campo costuma ser associada ao pensador Thomas Hanna, que desenvolveu o conceito de somática a partir dos anos 1970. A ideia central é que o corpo não só executa movimentos, mas também acumula padrões ao longo do tempo — de postura, de tensão, de compensação por dores ou lesões. De fato, uma "soma" de fatores.
Esses padrões, com o tempo, se tornam automáticos, quase invisíveis, e podem chegar ao ponto de limitar a mobilidade e gerar muito desconforto. O trabalho de Hanna ajudou a mostrar que é possível se reeducar a partir da atenção e do movimento consciente.
"Um exercício somático é uma prática que ajuda você a sintonizar-se com a sabedoria do seu corpo — interagindo com ele para cultivar a consciência das sensações físicas, emoções e estados internos (conhecido como interocepção)", disse Grace Li, terapeuta somática holística e proprietária da Inner Alchemy Wellness, em entrevista ao CNet. "Trata-se de aprender a ouvir e entender o que seu corpo está lhe dizendo. Muitas vezes, quando ouvimos com atenção suficiente, conseguimos processar melhor nossas emoções, estresse ou traumas."
Apesar de aparecerem juntos com frequência, movimento somático e terapia somática não são sinônimos. O primeiro está mais ligado ao exercício em si, enquanto o segundo termo combina essas práticas com abordagens terapêuticas.
Grace Li explica essa diferença: a terapia tradicional costuma seguir uma abordagem "de cima para baixo", centrada no pensamento e no cognitivo. A terapia somática, por sua vez, trabalha "de baixo para cima", partindo da experiência corporal.
Um estudo piloto publicado em 2025 na revista Healthcare, com 39 profissionais de saúde e cuidados sociais, associou uma intervenção somático-psicoeducativa de três a quatro semanas a melhora da função autonômica, redução de sintomas psicológicos, como ansiedade e depressão, e aumento dos níveis de oxitocina salivar. Os efeitos foram mantidos um mês depois.
Outro estudo, também divulgado em 2025 no Journal of Bodywork and Movement Therapies, analisou 15 idosos submetidos a uma intervenção online de movimento somático durante dez semanas. Os participantes apresentaram melhoras na mobilidade da coluna e na consciência corporal, com ganhos mais claros entre aqueles que tinham pior desempenho inicial.
Além desses dados mais recentes, estudos anteriores já sugeriam benefícios em campos como dor crônica, mobilidade e autoconfiança, especialmente em métodos como o Feldenkrais.
O apelo dos exercícios somáticos passa por um ponto simples: eles não se limitam ao físico. A proposta vai alem de só treinar o corpo e engloba entender como ele está funcionando no dia a dia.
É por isso que a prática atrai perfis diferentes: quem sente dor depois de horas sentado, quem vive com o corpo em movimentos repetitivos o dia inteiro, quem não se movimenta muito. Também entra nesse grupo aqueles que não se identificam com o ambiente mais competitivo da academia ou até quem é ativo na musculação, mas sente falta de mais controle e consciência durante os treinos.
Todos podem se adaptar aos exercícios somáticos porque eles não são sempre iguais. Inclusive, existem diferentes abordagens reconhecidas: há métodos mais suaves e terapêuticos, como a Educação Somática Hanna e o Feldenkrais; enquanto a técnica Alexander foca na reeducação de hábitos corporais e na melhora da postura.
Também há maneiras de incorporar traços somáticos aos exercícios que você já pratica. O treino de força super lento, por exemplo, é uma forma de aproximar musculação e consciência corporal. O mesmo vale para caminhadas conscientes, práticas respiratórias, dança, yoga, tai chi e qigong.
Embora o conceito exista há muitos anos, ele tem avançado dentro do mercado de bem-estar. Segundo o Wall Street Journal, o termo virou febre nas academias boutique a partir de 2011, com o sucesso do The Class, treino que combinava esforço físico com respiração e elementos emocionais. Desde então, "somático" passou a aparecer mais na descrição de aulas e programas.
AA instrutora Kyle Miller disse ao jornal americano que "é definitivamente a palavra da moda em todas as aulas de ginástica chiques", e que, em alguns casos, parece ser usada para dar um sentido mais exclusivo e sofisticado às práticas.
Para quem se interessou, a recomendação das especialistas entrevistadas pelo WSJ é entender se o que está sendo oferecido faz sentido para suas necessidades. Também é importante olhar a formação do profissional, especialmente quando o trabalho mexe com dor, histórico emocional ou questões clínicas.
Outra orientação é alinhar as expectativas. Exercícios somáticos não são uma solução rápida e nem substituem acompanhamento profissional — seja médico ou psicológico — quando necessário. Ele funciona mais como uma porta de entrada para o autocuidado ou um complemento, no caso de quem já pratica outras atividades físicas.