Eurocopa se consolida com público, boa audiência e receitas altas

A estimativa de receita do torneio europeu de seleções, que tem final neste domingo, foi de 2,5 bilhões de euros

Neste domingo 16, quando acontece a final da Eurocopa entre Itália e Inglaterra, teremos mais de um vencedor: as torcidas, os eventos ao vivo, o futebol.

Apesar dos dados consolidados deste ano ainda não terem sido divulgados oficialmente pela UEFA, a estimativa para a Euro deste ano era de uma receita equivalente a 2,5 bilhões de euros, representando algo na casa dos 14 bilhões de reais.

Estes números só não serão maiores em decorrência da falta de público em sua totalidade pelas 11 cidades que receberam os jogos do torneio. A capacidade reduzida, em média, a 30%, deve representar uma queda estimada de 200 milhões de euros com receitas vindas de bilheteria.

Na última Eurocopa realizada em 2016, na França, foram gerados 1,9 bilhões de euros de receitas de acordo com relatório financeiro divulgado pela UEFA. É um valor 38% maior em relação à edição de 2012 disputada em duas sedes - a Polônia e a Ucrânia.

Outro dado que não parou de crescer foi com relação aos direitos de televisão. Na Euro de 2016, na França, os valores chegaram 1,02 bilhão de euros, contra 837 milhões na edição de 2012 (Ucrânia e Polônia) e 802 mi em 2004 (Suiça).

O interesse das torcidas

Com a Copa América acontecendo simultaneamente, as comparações entre as duas competições se tornaram discussões recorrentes nas redes sociais e imprensa.

Apesar de Brasil e Argentina terem chegado à final da competição sul-americana do próximo domingo, a disparidade do nível técnico, como o desempenho das seleções e atletas, e estrutural, no caso das condições dos estádios para receber os jogos, serviram como exemplo para ilustrar a diferença de realidade entre o campeonato sul-americano e europeu.

Na terça-feira 6, por exemplo, a audiência do jogo semifinal entre Itália x Espanha rendeu picos de 23 pontos de audiência na TV Globo no estado de São Paulo, números equivalentes a uma partida do Campeonato Brasileiro na mesma emissora. No Rio de Janeiro, o jogo entre italianos e espanhóis deu uma acachapante goleada para cima de Brasil x Peru, pela semifinal da Copa América disputada na segunda-feira 5, em horário mais nobre. Enquanto a Globo teve participação de 38%, a o SBT ficou na casa dos 18%.

Para Marcelo Palaia, especialista em marketing esportivo, o público busca acompanhar os jogos de maior qualidade e de alto nível. “Se compararmos a Champions League e Libertadores, até conseguimos ter um nível de equiparação no que diz respeito à audiência. Agora, se fizermos o mesmo exercício em relação à Copa América e a Eurocopa é diferente. O brasileiro prefere assistir aos melhores jogos do que especificamente torcer pela seleção”.

Diferença em relação à Copa América

Desde o início, a Eurocopa tem chamado a atenção justamente por protagonizar grandes partidas, com direito a reviravoltas, surpresas e, principalmente, lances e jogadas de efeito. O campeonato, por si só, é recheado de grandes estrelas que brilham nas principais ligas do futebol mundial, como Cristiano Ronaldo, de Portugal, Romelu Lukaku e Kevin De Bruyne, da Bélgica, Benzema e Mbappe, da França, Harry Kane, da Inglaterra, entre outros nomes.

“Não é surpresa nenhuma afirmar que o nível do futebol praticado na Europa está bem acima da América Latina. Quando discutimos aspectos táticos e técnicos no Brasil, por exemplo, notamos que ainda estamos um passo atrás em relação às principais ligas do mundo”, explicou Marcelo Segurado, sociólogo, com passagens como diretor-executivo do Goiás e Ceará.

Financeiramente falando, também existe um obstáculo enorme entre as duas competições. Na Copa América de 2019, a Conmebol anunciou uma arrecadação de US$ 118,2 milhões, algo em torno de R$ 622 milhões. Para a disputa deste ano, a previsão da entidade era uma movimentação bruta de US$ 122,2 milhões, aproximadamente R$ 642 milhões – isso tudo, claro, levando a crise pandêmica vivida por todo o mundo desde 2020, em especial mais agravada nos países da América do Sul, o que fez com que o público por aqui não fosse presente, ao contrário da Europa.

“Este é mais um elemento que serve para mostrar de forma clara o abismo que vai aumentando ano a ano entre América do Sul e Europa em todos os aspectos do futebol, seja na qualidade técnica dos jogos, seja na organização. Se no futebol de clubes já é muito difícil vencer os europeus, o futebol de seleções tende a seguir a mesma lógica. Se tudo seguir como está, seremos periferia do futebol europeu. Algo tem que ser feito e cabe ao Brasil tomar a dianteira neste processo”, aponta o advogado especializado em direito desportivo, Eduardo Carlezzo.

Em termos de interesse do público, os dados da internet no mês de junho serviram como termômetro. Segundo o Google Trends, a palavra “Eurocopa” foi em média quatro vezes mais buscada que “Copa América” durante o mês de junho. Além disso, também foi indicado que o pico das pesquisas relacionadas à Euro, em 19 de junho, teve uma proporção quase sete vezes maior em comparação ao torneio sul-americano.

Desde o início dos dois torneios continentais, o que lidera o ranking dos assuntos esportivos no país é o Campeonato Brasileiro, com a Eurocopa em 4º lugar e a Copa América 11º.

Concorrência de outros campeonatos

Na opinião dos especialistas, é possível enumerar alguns motivos para essa falta de apelo do público em relação a Copa América. “Existe a concorrência de outros campeonatos que estão acontecendo ao mesmo tempo, como o Brasileirão, por exemplo. Ao contrário das outras edições da Copa América, desta vez o Campeonato Brasileiro não parou. Sem contar que a Eurocopa está tendo uma das maiores exposições de sua história, com transmissão da TV Globo e cobertura maciça do SporTV”, afirma Fernando Mello, especialista em gestão de imagem no esporte e fundador da agência Press FC.

"É interessante ver outros veículos de mídia ampliando o portfólio de produtos, contribui para o ecossistema do futebol essa relevância que é dada ao esporte em geral. Por outro lado, a boa audiência da Eurocopa pode estar atrelada ao fato da Globo entender como trabalhar seus serviços. O espectador se sente parte inserida desde o que é veiculado em TV aberta até nos serviços que englobam portais, streaming (Globoplay) e o jornalismo e entretenimento em geral, com chamadas e interações em todos os outros programas da casa. É natural que, com isso, se atinja uma audiência maior", complementa Bruno Maia, especialista em inovação e novos negócios na indústria do esporte.

Somado a isso, o torneio sul-americano, antes mesmo de começar, já sofreu forte rejeição por conta da transferência das sedes, que antes seriam na Argentina e Colômbia, para o Brasil, em meio a pandemia de Covid-19. Mello acrescenta. “Já existia um desgaste em relação à competição, não à toa alguns dos patrocinadores saíram”.

O especialista em marketing esportivo, Renê Salviano, é mais ponderado ao opinar sobre a influência desses conflitos políticos na audiência da Copa América. “Acredito que o momento que estamos vivendo é complexo, afinal, um evento deste porte sem público e no meio de uma pandemia já é um grande desafio. A política com certeza acaba polarizando algumas situações, mas não acredito que tenha afetado de forma significativa o fato de o público assistir ou não aos jogos em casa”.

Como deixar o torneio sul-americano mais atraente?

É bem verdade que o fato da Eurocopa ter recebido público em seus jogos deu uma nova cara à competição, afinal, passamos mais de um ano sem que isso acontecesse em razão da Covid-19. Apesar dos inúmeros casos relatados de contaminação por meio desses deslocamentos e aglomerações, muitas autoridades surfaram nesta onda, caso do primeiro-ministro britânico Boris Johnson, que vem fazendo postagens constantes nas redes sociais com mensagens de incentivo à boa campanha da Inglaterra.

Na Europa, a vacinação está bem mais adiantada que nos países da América Latina. Nos confrontos realizados na Hungria, as arquibancadas receberam a totalidade do público permitido, mas com uma condição: os torcedores tinham que apresentar o registro de vacinação ou comprovar teste negativo recente.

As mensagens de Boris Johnson vão de encontro também ao fato do lendário estádio de Wembley receber, pela primeira vez, 75% de sua capacidade total nos jogos semifinal e final da Eurocopa, o que vai representar 60 mil de ingressos vendidos. É a primeira vez que isso acontece no Reino Unido depois de 15 meses.

Apesar de críticas recebidas por parte de autoridades de outros países e da observação feita pela OMS (Organização Mundial da Saúde) quanto ao aumento no número de casos, o presidente da Uefa, Aleksander Ceferin, fez questão de celebrar este momento histórico. "É uma ótima notícia que tantos fãs possam assistir às três últimas partidas do Euro 2020 em Wembley. Os últimos 18 meses nos ensinaram - dentro e fora do campo - como os torcedores são essenciais para a estrutura do jogo".

Diante de tudo isso, como deixar o torneio sul-americano mais atraente? De acordo com Fernando Mello, outras questões que vão além das ativações e presença de público precisam ser revistas.“É preciso acabar com a overdose de Copas Américas. Nos últimos oito anos, foram quatro edições organizadas pela Conmebol. Argentina (2011), Chile (2015), a versão centenária nos Estados Unidos (2016) e Brasil (2019). O atual regulamento é outro ponto que poderia ser reavaliado. Na primeira fase, das 10 seleções que disputaram, oito delas garantiram a classificação. Não há competitividade e o torneio demora a ganhar em emoção e despertar interesse”, explica.

De acordo com Pedro Trengrouse, professor em gestão esportiva pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), a disparidade entre competições também tem a ver com a forma como é dividida entre as confederações. "A Copa América é uma anomalia, deveria se chamar Copa América do Sul. A UEFA representa a Europa toda; a CAF, a Africa, a AFC, a Ásia, e a OFC, a Oceania. Só a América se divide em duas entidades, Concacaf e Conmebol. Isso tem sérias implicações, e não por acaso a competição com melhor resultado econômico da história de ambas entidades foi a Copa América Centenário, que reuniu o continente inteiro. A título de ilustração, só o PIB dos Estados Unidos é maior que a Europa toda junta. Imagina que potência teria uma entidade reunindo todo continente americano?", indaga.

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