IA vira sommelier: como a tecnologia está se aproximando do mercado de vinhos (Getty Images/Getty Images)
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Publicado em 31 de março de 2026 às 07h02.
Para quem não entende muito de vinho, encarar a carta no restaurante pode gerar um certo desconforto. São dezenas de opções e nomes pouco intuitivos que, quando combinados com a pouca clareza sobre por onde começar, são capazes de tornar a experiência quase constrangedora. Ou assim funcionava, até a IA estar instalada no smartphone.
Assim como tem feito em diversas outras áreas, a inteligência artificial (IA) chegou ao mundo dos vinhos com o aparente intuito de facilitar essa escolha. Chatbots como ChatGPT, Claude e Gemini viraram consultores rápidos de cartas para evitar o desconforto, mostra uma reportagem do New York Times.
O movimento tem sido observado, sobretudo, dentro dos restaurantes: em vez de decidir na hora, alguns consumidores chegam mais preparados para a conversa com o sommelier. Uma maneira de balancear a conversa, que funciona para quem não domina o assunto e tem receio de errar na escolha.
É o caso de Spencer Herbst, profissional de tecnologia que trabalha com IA em Nova York, entrevistado pelo NYT. Para lidar com a carta de vinhos, ele passou a usar o ChatGPT como consultor. Ele manda uma foto da carta para o chatbot e pede sugestões que combinem com o prato e tenham o melhor custo-benefício. "Se você está começando com uma ideia, eles podem te ajudar a explorá-la. Isso provavelmente é melhor do que começar do zero", disse Herbst em entrevista ao jornal.
Por enquanto, o uso de IA à mesa ainda não é escancarado. Nem todos os restaurantes veem clientes consultando o celular abertamente durante o jantar, mas, ainda assim, os clientes chegam mais preparados, com interesse por detalhes que antes costumavam ficar restritos a quem entende mais do assunto.
Chase Sinzer, dono do restaurante Claud and Penny, em Nova York, diz que percebe a influência de chatbots como uma oportunidade de adaptar o atendimento dos sommeliers. As equipes já estão simulando interações com ferramentas de IA, como relatado ao NYT.
Em Los Angeles, no restaurante Bavel, a diretora de vinhos Claudia Rosellini tem apostado justamente no contrário do que a IA faz melhor. Para ela, se os algoritmos organizam e sugerem dentro de padrões, o papel do sommelier passa a ser expandir esse ponto de partida.
"O fato de as pessoas se esforçarem conscientemente com a IA significa que são curiosas, e isso me deixa feliz", disse Rosellini ao jornal norte-americano.
Rosellini afirma que a tecnologia até pode encurtar caminhos, mas não substitui o essencial. O vinho, diz, depende de contexto, momento e interpretação, fatores cuja volatilidade os permite fugir da lógica dos algoritmos.
"A IA nunca será capaz de entender o clima em uma mesa, a atmosfera. Mas se isso aumentar a confiança de alguém que não entende de vinho, acho ótimo", afirmou.
Os testes com chatbots feitos pela reportagem mostram um padrão. As recomendações costumam ser coerentes, bem justificadas e dentro do esperado, principalmente em critérios como harmonização e custo-benefício.
A questão que pode ser um problema é que elas raramente fogem muito disso. A IA tende a seguir caminhos mais previsíveis, baseados em referências já consolidadas no mundo do vinho, o que dificilmente surpreende quem já tem mais repertório.
Sendo assim, é algo interessante para quem ainda está começando. "Pode não ser a resposta perfeita, mas pode aumentar a confiança", disse Dan Petroski, produtor da Massican Wines, ao New York Times.
Segundo ele, a IA funciona mais como uma receita do que como um chef. Ela organiza o caminho, sugere combinações e evita erros, mas não cria nada fora do que já é esperado.
No mercado de vinhos como um todo, a leitura entre os profissionais é que a tecnologia ajude a atrair novos consumidores — inclusive ao gerar renda em setores como tecnologia, que historicamente têm forte relação com o consumo de vinho.
"De meados da década de 90 até 2017, o número de vinícolas dobrou e a quantidade de vinho produzido quase triplicou", disse Petroski. "Prevejo que nos próximos três a cinco anos [...] o dinheiro voltará a fluir de forma significativa", completa.
No curto prazo, a mudança mais clara aparece dentro dos restaurantes. E, aqui, a leitura é simples: a tecnologia ajuda, mas não substitui a conversa.
A relação com sommeliers, inclusive, já vem mudando há algum tempo. Saiu de algo mais formal e até intimidador para um contato mais próximo e acessível. "A IA é apenas um novo desafio para isso", disse Sinzer. "A IA não é uma sommelière carismática. Não chegou nem perto de fazer as pessoas sorrirem", afirmou.