Misci no Rio2C: chegou a hora de reestruturar a casa (Rio2C/Divulgação)
Repórter de Casual
Publicado em 27 de maio de 2026 às 10h59.
Última atualização em 27 de maio de 2026 às 11h00.
O ano de 2026 desenha um novo capítulo para o posicionamento internacional da moda brasileira. O Rio Fashion Week voltou; as colaborações entre marcas nacionais e internacionais são mais frequentes. E a Misci tem sido uma dessas marcas que assumiu a vanguarda desse rebranding.
Sob o comando criativo e estratégico de seu fundador, o designer mato-grossense Airon Martin, a grife vive um momento de forte expansão comercial e amadurecimento estético, de olho no mercado estrangeiro.
Durante a Rio Fashion Week, em um desfile na Marquês de Sapucaí, anunciou uma coleção inédita com a francesa Veja, antiga Vert. O resultado foi um tênis inspirado na união das dunas de Atins, nos Lençóis Maranhenses, com os rios da Amazônia.
O modelo chegou às lojas no dia 18 de abril e esgotou em poucas horas após o lançamento. Em entrevista à Casual EXAME após palestra no Rio2C, evento de debate sobre a indústria criativa brasileira, Martin revelou que vai levar o calçado para Paris já nesta quinta-feira, 28.
"Não é só chegar desfilando por lá que faz tudo dar certo. Esse tênis já está em muitas multimarcas pelo mundo e vimos que foi um lançamento muito disputado. Foi uma construção da marca, de posicionamento", comentou o Martin.
"Sinto que, se eu quero levar a gente para fora, eu preciso, de fato, criar uma comunidade fora do Brasil. Temos uma agência na França há dois anos que facilitou toda a colaboração. Agora, temos o nosso evento para apresentar esse modelo em Paris."
Rio Fashion Week: colaboração entre Veja e Misci para a semana de moda (Divulgação/Divulgação)
Criada em 2018 como parte do trabalho de conclusão de curso, a Misci nasceu com a proposta de traduzir a elegância do interior do Brasil. Uniu influências do Mato Grosso, com raízes familiares no Ceará e Paraíba, à vivência de Martin em São Paulo.
O próprio nome já diz muito: Misci é uma abreviação de miscigenação, algo que Martin enxerga como pilar da marca. Desde o início, a grife desenvolveu roupas masculinas e femininas, acessórios e mobiliário. A engrenagem da etiqueta se move pelo desenvolvimento de matérias-primas exclusivas, como os itens feitos de redes de pesca descartadas, as tramas de juta e os acessórios em couro de pirarucu.
E a Misci teve orgulho de chamar todo o processo de "autenticamente brasileiro" na hora de apresentá-lo aos gringos, uma das viradas mais importantes da marca nos últimos três anos.
"Para a gente, é muito importante que as pessoas entendam com profundidade o motivo da Misci existir. Vai além do produto, é um projeto cultural e de place brand, de reposicionar a marca do nosso país", acrescenta o estilista à EXAME. "Além de trazer a cultura para dentro da etiqueta desde o dia um, nos diferenciamos muito pelo desenvolvimento de matéria-prima como nenhuma outra marca no Brasil e poucas no mundo conseguem."
Rosalía usa boné da Misci durante visita no Brasil
Boa parte da receita da Misci foi conquistada com o barulho que a marca fez entre celebridades internacionais. Em 2023, vestiu Rosalía com o boné "Mátria Brasil", durante a apresentação em São Paulo. No mesmo ano em que abriu o primeiro ateliê na capital paulista, em 2024, Oprah Winfrey notou as bolsas da marca em uma visita ao Brasil. Comprou três delas, utilizou-as em um evento e fez as vendas das peças dispararem no site da loja.
No início do ano, a grife inaugurou a primeira loja em Ipanema, estrategicamente posicionada para capturar o fluxo de turistas internacionais. Deu resultado: em março deste ano, mais da metade do faturamento da unidade fluminense veio de clientes estrangeiros.
Mesmo de olho no fluxo internacional, o fundador da marca reforça que não quer ser o único representante do Brasil lá fora. "Eu falo na Misci do Brasil que eu acredito, do qual eu venho. O Brasil que gera desejo hoje e pode consumir meu produto."
Airon Martin, estilista da Misci, com a cantora Ivete Sangalo, encerrando o desfile da coleção Tenda Tripa, em abril deste ano. (MISCI/Divulgação)
O "hype" em torno da marca, no entanto, não foi construído do dia para a noite. Exigiu investimento em construção de marca, campanhas de marketing e parcerias estratégicas para fechar a conta.
Dois anos atrás, por exemplo, a Misci — até então, uma loja pequena — fez um desfile imponente na São Paulo Fashion Week, com a presença de Ivete Sangalo, cujo investimento foi de R$ 700 mil. A cantora baiana não cobrou o cachê, e boa parte do custo total foi financiada por outras marcas parceiras.
Já consolidada no mercado nacional e em pleno voo para a Europa, o momento agora é de cautela. Airon Martin mantém os pés no chão quando o assunto é a gestão da empresa e reforça que o momento atual não é de crescer a qualquer custo, mas de estruturar a casa.
"Eu trabalhei muito para chegar até onde a gente chegou, mas sinto um momento de empresa em que eu preciso consolidar tudo isso. Aumentar faturamento é algo que já temos; esse faturamento já cresce organicamente. Agora, é preciso consolidar e melhorar a eficiência da empresa", diz ele.
Para essa nova fase de amadurecimento corporativo, o foco do fundador está voltado para dentro. "Estamos em busca de contratações mais pesadas, robustas de mercado, e consultorias importantes para de fato conseguir consolidar o nosso time e estruturar a nossa equipe para aumentar a nossa eficiência."
Como maior desafio no momento, ele vê um gargalo entre o incentivo do governo brasileiro e a criação de peças autorais e obtenção de matéria-prima.
"A gente tem a maior flora do mundo e a possibilidade de novos materiais é gigantesca. O que falta hoje, de fato, é apoio do governo para tornar tudo isso em escala industrial. O desfile é o espaço onde apresentamos esses materiais, mas ainda temos dificuldade em torná-los um preço que o consumidor consiga consumir por conta da falta de investimento na indústria."