Quem vai ganhar mais e quem vai ganhar menos em 2014

Em uma fase morna do mercado de trabalho, saber o quanto seu cargo vale é indispensável para tomar decisões de carreira

São Paulo - A fome das empresas por profissionais no Brasil esfriou em 2013 e a situação deverá continuar parecida em 2014. Essa é a maior
conclusão da pesquisa anual de 200 cargos e salários realizada pela empresa de recrutamento Robert Half, de São Paulo.

A economia em desaceleração não foi capaz de elevar o desemprego — a taxa era de 5,4% em setembro, ainda muito baixa —, mas deixou as empresas mais cautelosas na hora de contratar.

Mas, se não alterou o quadro de emprego, o pessimismo das empresas pode ser verificado nos salários. O levantamento da Robert Half prevê que no ano que vem as companhias vão oferecer remunerações mais modestas aos profissionais que pretendem contratar. A farra das superpropostas parece ter acabado.

"Em geral, as vagas que se abrem visam repor a saída de funcionários. São poucas as criações de cargos", diz Fernando Mantovani, diretor-geral da Robert Half. Em outubro, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou um estudo que mostra que o Brasil não vive uma situação de escassez generalizada de profissionais qualificados.

Segundo o instituto, a oferta desse tipo de mão de obra cresceu nos últimos dez anos. Mas a análise do Ipea considera a possibilidade de que alguns setores tenham experimentado uma falta de profissionais de ponta. Essa é a chave para compreender o mercado de trabalho no Brasil e fazer planos de carreira: não existe uma realidade igual para todos.

Em cada empresa, em cada mercado, o profissional encontrará situações diferentes quando comparar seu salário, negociar aumento ou procurar emprego. Uma fase morna como a atual é diferente de um mercado superaquecido, quando sobram vagas e boas remunerações, ou de uma crise, quando todo mundo demite e os salários desabam.


A pesquisa das próximas páginas mostra que a situação é muito ruim para profssionais de vendas e do mercado financeiro, que em 2014 receberão propostas de emprego com salários inferiores. Para as outras seis áreas cobertas pela reportagem — finanças, tecnologia, recursoshumanos, engenharia, direito e seguros —, a projeção é de aumento moderado nos salários.

O setor automotivo é um que se destaca positivamente na criação de empregos. Os investimentos de montadoras como Audi, Honda, Hyundai, Mercedes-Benz, Toyota e Volkswagen nos estados de São Paulo e Paraná deverão gerar, até 2016, mais de 18.000 empregos diretos. O programa de estímulos que o governo prepara para os fabricantes de componentes, chamado de Inovar-Peças, poderá ampliar ainda mais o número de vagas no ramo.

"A cadeia de autopeças é muito grande, e um programa desses terá efeito benéfico sobre o emprego", diz Fernando. Mesmo em setores em desaceleração, é possível encontrar empresas contratando. "Vamos dobrar nosso quadro até o fim de 2014", diz Pedro Borrego, diretor de RH da Anglo American, de São Paulo.

A mineradora pretende contratar 1.100 profssionais para reforçar a equipe que atua no projeto Minas-Rio, que compreende a construção de uma mina, um mineroduto e um terminal portuário. As melhores perspectivas se encontram na base da hierarquia. Em 2014, as propostas de emprego para analistas das áreas de TI, RH e seguros deverão ser acompanhadas de salários pelos menos 10% mais altos do que em 2013.

Mesmo na área de marketing, em que a maioria dos cargos tem desvalorização prevista, o analista deverá ver os salários aumentar 7%. O destaque, porém, está na área de finanças, na qual os analistas experientes poderão receber no ano que vem ofertas de trabalho até 25% mais altas do que as praticadas em 2013.

Para quem pretende usar esta reportagem como referência para saber se merece pedir aumento, a recomendação é avaliar a situação da empresa e o desempenho pessoal antes de iniciar uma reivindicação. As empresas estão com a folha de pagamentos inchada e deverão evitar aumento no gasto com pessoal em 2014. 

"É possível que os acordos coletivos não reponham a infação no ano que vem", diz Marcelo Ferrari, diretor de negócios da Mercer, consultoria de remuneração e benefícios, de São Paulo. Num ano incerto, o que garante salários maiores é a competência. O mesmo estudo do Ipea citado anteriormente aponta que o profissional brasileiro ainda é pouco qualificado e pouco produtivo, o que abre oportunidade para quem foge dessa regra.


Nas páginas a seguir, você encontra, além dos salários, as habilidades que fazem a diferença em cada uma das oito áreas pesquisadas. Para esses profissionais, o salário sempre sobe.

A volta da TI

Depois de anos de valorização modesta, a área de tecnologia volta a ter a atenção das empresas brasileiras

A tecnologia da informação passou por uma revalorização na estratégia das empresas e — devido ao histórico déficit de formação de profissionais da área — mantém boas oportunidades de emprego e salários valorizados. As funções mais procuradas estão ligadas à implantação de sistemas de gestão, ao apoio aos negócios e à infraestrutura.

Os mercados que mais estão contratando são os de internet e serviços, além dos próprios fornecedores do setor. "Continuaremos crescendo no próximo ano e, por essa razão, pretendemos ampliar nossa equipe de desenvolvimento e de analistas de negócios, que darão suporte aos novos projetos", afirma Alexandre Mafra, vice-presidente de relações humanas e infraestrutura organizacional da Totvs.

Mas, além da falta generalizada de profissionais, o setor sofre com a baixa qualificação. Aqueles que falam inglês fluente e têm experiência profissional em projetos importantes acabam sendo bastante assediados, com propostas salariais atraentes. "Vale ressaltar que as empresas estão bem mais exigentes com os candidatos de TI", afrma Alexandre Attauah, gerente da divisão de tecnologia da informação da Robert Half.

Área nobre

Os departamentos financeiros detêm cargos que em 2014 receberão grandes reajustes

A área de finanças oferecerá alguns dos melhores salários em 2014. Quem controla o caixa ganha importância em períodos de incerteza. "Diretores, gerentes e analistas vão ganhar mais", diz Alexandre Attauah, da Robert Half. Profissionais de contabilidade, auditoria e planejamento já vêm valorizados há alguns anos.


Uma função em alta é o controller. Pela visão generalista, empresas têm destacado esse profissional para abrir unidades. "É uma função que dá bagagem ao profissional para dar o primeiro passo rumo ao cargo de diretor financeiro."

O controller no alto

"A função do controller está muito valorizada e há uma disputa por bons profissionais", diz Argimiro Espagnol, de 41 anos, controller da fabricante de tubos e conexões Tigre, de Joinville.

Argimiro começou a carreira em escritórios de contabilidade até ingressar na consultoria KPMG, onde adquiriu experiência em auditoria tanto interna quanto externa. Essa visão mais abrangente da área financeira o levou à atual posição na Tigre.

Entre suas principais funções está organizar e relatar informações estratégicas aos gestores, contribuindo para o processo de decisão. "Por transitar em todas as esferas da companhia, o caminho natural do controller é virar um diretor financeiro", afirma.

Mais vagas no RH

A área está ganhando maior importância em empresas pequenas e médias. Responsáveis por defnir a folha de pagamentos, os especialistas em remuneração estão demandados 

A área de recursos humanos vem ganhando importância em empresas pequenas e médias, criando novas vagas nesse mercado. Nas grandes, surge a necessidade de profissionais mais especializados e experientes.


Entre as funções mais valorizadas estão as da área de remuneração e benefícios, de analista a gerente, profissionais difíceis de encontrar e que têm a missão de lidar com o dinheiro da empresa. "Esse é um perfil técnico, que exige capacidade analítica e experiência", diz Mario Custódio, gerente da divisão de RH da Robert Half, de São Paulo.

Outra carreira promissora é a de business partner, ou consultor interno. Trata-se do profissional que atende os outros departamentos da empresa e conecta a estratégia de RH às demandas das unidades. Pode ser uma oportunidade para quem está começando: ao transitar pela empresa, o consultor de RH ganha conhecimentos que podem ser importantes em cargos mais estratégicos.

Ano de mudança

A vida está difícil para os profssionais de venda, que precisam se reinventar para seguir no mercado. O departamento de marketing agora busca gente com visão estratégica 

Em um ano difícil para os negócios, as áreas de vendas e de marketing pagaram um preço alto pelos resultados ruins. Começou em 2013 um processo de reciclagem das equipes que deverá perdurar em 2014. Um movimento está diretamente relacionado aos salários: muitas companhias estão trocando executivos que recebiam altas cifras e repondo as vagas com gente que recebe menos. 

Outro movimento de destaque nessa área mira o vendedor (ou executivo de negócios). O perfil comercial mais preocupado com a quantidade do que com a qualidade da venda, focado em negócios oportunistas, está condenado. 

"Procuramos profissionais qualificados, que tenham foco em resultados sem perder a qual idade do atendimento", diz Eduardo Gouveia, presidente da Alelo, empresa de administração de benefícios, de Barueri, São Paulo, que planeja ampliar 10% seu quadro profissional em 2014, principalmente na força de vendas.


Os bons têm lugar

Num mercado muito disputado, a qualificação tem peso extra 

O mercado de trabalho para advogados vive uma fase de contratações aquecida em suas diversas atividades — escritórios de todos os portes e departamentos jurídicos de empresas. Há ofertas de emprego para profissionais qualificados e com alto grau de especialização. 

Em termos de salário, haverá ofertas atraentes para os homens da lei em 2014, embora se preveja variação salarial em relação a 2013 um pouco acima da inflação. "Há uma procura por advogados experientes que tragam peso ao time, tanto nas empresas quanto nos escritórios", afirma Mariana Horno, gerente sênior da divisão de direito, recursos humanos e tecnologia da Robert Half, de São Paulo.

Nas empresas, as figuras dos coordenadores, gerentes e diretores vêm ganhando es paço nos departamentos jurídicos das organizações, que querem um perfil mais estratégico. Bom relacionamento com as áreas de negócios passa a ser uma característica valorizada. Nas bancas, os profissionais especializados em direito consultivo tributário, que já vinham sendo demandados, terão nova valorização ao longo de 2014.

A razão básica é o enorme esforço das empresas para pagar menos impostos. Outra atividade consultiva que ganha destaque é a trabalhista. Isso decorre do movimento crescente entre empresas de terceirizar para os escritórios a gestão de seus riscos na área das relações de emprego. 

"Merece destaque o setor trabalhista. Apesar da alta demanda, não é fácil achar um profissional qualificado, principalmente que fale inglês", afirma Mariana. Nesse caso, os advogados juniores e plenos são bastante valorizados por ter as habilidades exigidas, a exemplo do inglês. 


Embora o mercado esteja aquecido para os advogados em vários setores, nos bancos a situação é bem diferente. "Assistimos a uma queda na remuneração variável em razão das crises internacionais", afirma Mariana. Resultado: houve uma redução no departamento jurídico das instituições financeiras, com muitos diretores trocando seu emprego por uma posição nos escritórios de advocacia.

Especialista em fusões e aquisições

O advogado cearense Tiago Cunha, de 28 anos, do escritório Azevedo Sette Advogados, de São Paulo, ingressou no atual emprego há pouco mais de três meses. Vai fortalecer a área de fusões e aquisições da banca. No mercado de escritórios de advocacia, a área de direito empresarial especializada em fusões e aquisições é uma das que pagam melhor e, para 2014, está prevista uma remuneração 10% superior à paga em 2013. "Tenho visto os escritórios ampliar suas estruturas para atender à forte demanda", afirma Tiago.

Hora boa para os seguros

Praticamente todas as áreas terão valorização positiva em 2014, com destaque especial para os bônus 

Com a meta de ganhar maior competitividade, tanto seguradoras quanto corretoras vêm ampliando suas equipes. A principal demanda tem sido na área comercial, para as posições de executivo de contas e gerente de novos negócios. Esses mesmos profissionais também têm sido cobiçados pelas resseguradoras que estão entrando no país, de olho nas oportunidades do mercado brasileiro.

Tamanha é a valorização dessas funções que a remuneração variável será a grande aposta das companhias em 2014 para atrair profissionais. "A expectativa é que sejam oferecidos de cinco a seis salários a mais como bônus", afirma Ana Guimarães, gerente das divisões de seguros e mercado financeiro da Robert Half. 


Outra parte desse mercado que vem crescendo e abrindo vagas é seguros de afinidades, que são as apólices de baixo valor que acompanham produtos e serviços. A preparação para a Copa de 2014 e para os Jogos de 2016 refete ainda na procura por especialistas em gestão de risco. Esses profissionais analisam os problemas que podem surgir nas grandes obras, validando as apólices de seguro.

Novo cenário

O número reduzido de profssionais mantém a demanda dessa  categoria. Mas os melhores salários não estão mais ligados à construção. Agora as funções de apoio valem mais 

A enorme falta de profissionais mantém alta a remuneração dos engenheiros. Mas o cenário não é mais o mesmo de dois anos atrás, quando os salários dispararam. Em 2014, os empregos nas obras de infraestrutura ficarão mais raros, já que ainda há incerteza sobre os investimentos na área num ano eleitoral.

"A indústria, com o Brasil lutando para manter a competitividade diante de parques de outros países, também moderou seu apetite por engenheiros", afirma Daniela Ribeiro, gerente sênior da divisão de engenharia, vendas e marketing da Robert Half. 

Mas há alguns setores otimistas, como logística, construção civil, mineração, serviços, energia e agronegócio. Curiosamente, cargos de apoio que demandam engenheiros devem ser os mais valorizados em 2014: gerente de planta, gerente de logística e gerente de qualidade, segurança e meio ambiente são os que apresentam melhores perspectivas.

A engenharia encontra o meio ambiente

A engenheira Janaína Rodrigues, de 31 anos, é coordenadora ambiental da Kimberly-Clark, de São Paulo. Promovida à função há um ano e oito meses, trilhou sua carreira na área ambiental desde que saiu da faculdade. 


Entrou na empresa como estagiária na área de tratamento de efluentes e três meses depois já estava contratada. Após alguns cursos, resolveu fazer pós-graduação para ter uma visão maior de negócios. A preocupação das empresas com sustentabilidade acabou por impulsionar esse mercado e a carreira de Janaína.

"Mas encontrar profissionais qualificados ainda é difícil, por isso o assédio aos que atuam na área é grande", diz Janaína.

Hora de jogar golfe

Baixa em novos investimentos permite uma rotina menos dura 

Conhecido tanto pelos bônus milionários quanto pelo ritmo de trabalho intenso, o mercado financeiro esteve em baixa em 2013 e não há previsão de que os bancos e fundos de investimento renovem o ânimo em 2014.

Há remunerações muito boas, mas bem inferiores às de anos recentes. Se a grana é menor, pelo menos tem sobrado um pouco mais de tempo aos profissionais. Iuri Rapoport, sócio do BTG Pactual e diretor de operações do banco Pan, de São Paulo, mantém um ritmo de trabalho bem puxado, de até 12 horas por dia.

Mas tem encontrado espaço na agenda para praticar esporte todos os dias e levar e buscar os filhos na escola. "É o que me traz energia", diz. "Ganha-se menos, trabalha- se no mesmo ritmo e com muita pressão por resultado", diz Fabio Saad, gerente sênior das divisões de finanças e contabilidade e mercado financeiro da Robert Half.

"Esse cenário acabou provocando um movimento curioso, em que os profissionais buscam maior qualidade de vida e menor carga de trabalho." O mercado financeiro foi o que mais sofreu com a desaceleração da economia brasileira. Bancos estrangeiros como UBS, Barclays e Goldman Sachs reduziram de tamanho no país.

Em média, os bancos cortaram, em 2013, 30% dos bônus oferecidos a seus executivos da linha de frente e 10% nas posições de apoio. Houve demissões também, principalmente nos grandes bancos, como Itaú e Santander. Esse panorama nada favorável fez com que houvesse muita troca de diretores e a migração de executivos para a indústria, que hoje oferece uma remuneração bem próxima da praticada pelo mercado financeiro.

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