Carreira

Por que um executivo experiente decidiu priorizar pessoas? ‘Estou devolvendo o privilégio que tive’

Maurício Adade defende uma liderança que equilibre performance financeira, saúde mental e responsabilidade social

Após quase quatro décadas na Roche e uma carreira internacional, Maurício Adade hoje se dedica a conselhos, mentorias e à formação de novos líderes (Arquivo Pessoal)

Após quase quatro décadas na Roche e uma carreira internacional, Maurício Adade hoje se dedica a conselhos, mentorias e à formação de novos líderes (Arquivo Pessoal)

Da Redação
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Redação Exame

Publicado em 5 de março de 2026 às 11h17.

Última atualização em 6 de março de 2026 às 09h56.

Depois de 40 anos em multinacionais, mais de duas décadas fora do Brasil e passagens por três continentes, Maurício Adade chegou a uma conclusão pouco comum entre executivos que construíram carreiras globais: liderar apenas com foco em desempenho financeiro não faz mais sentido.

“Hoje é impossível você pensar somente em performance”, afirma.

Agora, fora da rotina executiva, dedica-se a conselhos, mentorias e à formação de lideranças com uma gestão mais humana e socialmente responsável.

A carreira internacional

A carreira de Adade começou no chão de fábrica. Recém-formado, ingressou em uma empresa alemã do setor de alimentos. Pouco tempo depois, assumiu a responsabilidade por uma unidade industrial de uma empresa Italiana. A experiência consolidou uma percepção que o acompanharia dali em diante: o interesse maior não estava na operação, mas na gestão, relacionamento e desenvolvimento de equipes.

A mudança de foco levou Adade para a Roche, líder global pioneira em produtos farmacêuticos e de diagnóstico, onde permaneceu por 37 anos.

Foi ali que iniciou sua trajetória internacional. Primeiro no México, depois em Singapura, passou a responder por operações na Ásia, no Japão, na Oceania, na Índia e no Paquistão. Mais tarde, atuou na matriz, na Suíça. “Foi uma jornada que realmente proporcionou minha carreira global”, conta.

Ao longo desse período, envolveu-se intensamente com o setor de nutrição humana e animal, especialmente em projetos voltados ao combate à desnutrição em países em desenvolvimento, com foco no continente africano.

“Era uma forma de buscar soluções mais sustentáveis para problemas muito sérios”, diz.

Após a venda de parte dos negócios para a DSM, Adade seguiu na nova companhia, onde se tornou diretor de marketing global (CMO), na Holanda. Mais tarde, integrou a DSM-Firmenich, formada após a fusão com a empresa suíça Firmenich. Em 2015, voltou ao Brasil, responsável pelos negócios na América Latina.

“Eu sempre disse à empresa que queria retornar. Quando surgiu a oportunidade, voltei.”

A virada de ciclo

No fim de 2025, Adade encerrou a rotina de executivo em tempo integral. Aos poucos, passou a concentrar a agenda em conselhos de administração, conselhos consultivos, mentoria e programas de formação de líderes.

“Estou tentando devolver um pouco do privilégio que eu tive na vida”, afirma. “É um compromisso comigo mesmo.”

Depois de 40 anos em multinacionais, Maurício Adade concentra hoje sua agenda em conselhos, mentorias e formação de lideranças

A decisão foi acompanhada por uma reflexão mais ampla sobre o papel da liderança no mundo contemporâneo. “Nunca existiram tantas pessoas com depressão, com ansiedade, tantos jovens com problemas de saúde mental”, diz. “Isso mostra que algo não está funcionando e que a velocidade das mudanças aumentou exponencialmente.”

Para ele, a busca exclusiva por resultados financeiros contribui para esse cenário. “A empresa precisa dar retorno financeiro, mas o retorno para a sociedade também precisa estar lá.”

Conselhos para novos líderes

Ao falar com profissionais em início de carreira, Adade costuma resumir sua experiência em três orientações.

  • A primeira é cultivar a curiosidade. “Perguntar, ouvir, entender como as pessoas pensam. Isso enriquece.”
  • A segunda é aceitar a reinvenção permanente. “Aprender o tempo todo é condição para continuar relevante.”
  • A terceira é assumir responsabilidade social. “Todos nós temos um papel. Principalmente quem teve mais oportunidades.”

Para ele, o importante para o líder, é “ensinar a pescar” e não simplesmente “entregar o peixe”. O essencial é ampliar e criar sempre o acesso a oportunidades.

Um novo papel

Hoje, Adade organiza a rotina em torno de conselhos, mentorias e projetos educacionais. Parte do trabalho envolve a formação de executivos e conselheiros. “É ajudar as pessoas a aprender o que a escola não ensina”, diz.

A experiência no SEER, um programa da Saint Paul desenhado exclusivamente para a altíssima liderança que esse novo papel ganhou ainda mais importância. "Foi uma turma espeacular", conta. De acordo com ele, foi um espaço para grandes aprendizados e algumas reconfirmações, como a de que seu novo papel nada tem a ver com aposentadoria. “É um novo ciclo, mais gerenciado por mim mesmo.”

Ao refletir sobre o futuro, Adade costuma se perguntar como gostaria de ser lembrado. “Não quero dizer às pessoas o que elas têm que fazer. Quero inspirar”, diz. Para ele, o legado está menos nos cargos e mais nas pessoas impactadas ao longo da trajetória. E, principalmente, na família.

“Meu maior legado são meus filhos, Gabriel e Gustavo”, afirma. “Se eu os ver felizes, realizados, olhando o mundo com um pouco do ângulo que tentei mostrar, eu vou me sentir plenamente realizado.”

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